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Quando o medo não decide sozinho

Coexistência não se sustenta apenas com boas técnicas de manejo, mas da construção de relações. Ela depende de confiança, e confiança leva tempo e esforço

9 de julho de 2026
  • Yara de Melo Barros

    Doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil, coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu e pesquisadora Associada do Instituto Pró Carnívoros.

Eu e minha equipe recentemente passamos várias noites acordados dentro de um carro.

Não estávamos fazendo pesquisa de campo. Também não era uma tentativa de capturar uma onça.

Passamos noites sem dormir dentro de um carro para que um casal pudesse dormir dentro de casa.

Havia semanas que uma jovem onça-pintada, o Nômade, aparecia com frequência na propriedade de Gabriela e Gilson, no entorno do Parque Nacional do Iguaçu. Ela já havia levado algumas galinhas e voltava quase todas as noites. Eles tinham medo. Mas também gostavam da onça. Chamaram nossa equipe para tentar resolver o problema antes que alguém a matasse. Abater a onça ao invés de nos avisar foi um conselho que eles receberam de várias pessoas.

Mas esse casal nos conhece há muito tempo, foram anos de visitas periódicas, construindo vínculo e confiança. E isso fez toda a diferença na decisão deles.

Durante aquelas noites, enquanto tentávamos afugentar a onça até encontrarmos uma solução, fiquei pensando no que realmente significa coexistência.

Costumamos dizer que uma das nossas ações é reduzir conflitos. Mas vai muito além disso.

Nosso objetivo dos sonhos é outro: que as pessoas continuem admirando uma onça mesmo depois que ela passa pelo quintal. Que o medo não seja o único sentimento possível. Nem sempre conseguimos. Mas trabalhamos para isso.

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Por fim, como o Nômade continuava a voltar mesmo com tentativas de afugentamento (luzes, rojões, mudança de manejo), foi tomada a decisão de capturar e translocar esse animal para uma área mais distante, dentro do Parque Nacional do Iguaçu.

Gabriela e Gilson acompanharam toda a operação de captura. Viram a onça de perto, tocaram naquele animal que, por semanas, havia sido motivo de preocupação e se emocionaram (porque né…é impossível tocar em uma onça e não ficar profundamente mexido).

Após a captura e translocação do Nômade, Gabriela nos enviou um áudio: “Nunca vou me esquecer desse dia. Vai ficar marcado na minha vida.”

Alguns dias depois, enviamos ao casal uma carta como se fosse o Nômade falando com eles. A carta resumia uma ideia muito simples: aquela onça continuava viva porque um casal decidiu que o medo não seria o único sentimento a orientar sua escolha.

Acredito mesmo que naquele dia não mudamos apenas o destino de uma onça, mas também a relação de uma família com ela. A foto da Gabriela e Gilson com o Nômade, a onça que eles ajudaram a salvar, hoje enfeita a casa do casal.

Nem toda história de conflito termina assim.

O áudio da Gabriela me faz pensar que a coexistência é talvez a parte mais desafiadora da conservação de grandes felinos. Não se resume a mitigar os prejuízos causados pelas onças, construir cercas melhores, orientar produtores, instalar equipamentos para afugentar predadores e melhorar o manejo dos animais domésticos. Claro que tudo isso é importante e necessário.

Mas acho que essa é apenas metade da história. É relativamente fácil medir quantas cercas foram construídas, quantos equipamentos foram instalados ou quantas propriedades receberam atendimento.

Muito mais difícil é perceber o momento em que alguém deixa de olhar para uma onça apenas como um problema.

Coexistência não se sustenta apenas com boas técnicas de manejo, mas da construção de relações. Ela depende de confiança, e confiança leva tempo e esforço.

Nunca foi tão fácil gerar riqueza a partir de uma onça viva. Ela atrai turistas, movimenta a economia. Isso é uma conquista. Quanto mais pessoas enxergarem valor nesses animais, melhor.

Mas essa conquista também traz uma responsabilidade.

Grande parte desse valor continua circulando longe de quem divide território com as onças.

Quem mora ao lado da floresta continua recebendo outra conta, que vem na forma de um bezerro perdido (ou um cachorro, ovelha, galinhas). Ou simplesmente de noites mal dormidas por preocupação.

Enquanto isso, muitas vezes os benefícios produzidos pela existência daquela mesma onça seguem outro caminho. Daí a conta não fecha.

Foto: Projeto Onças do Iguaçu

Sempre afirmamos que queremos cuidar das onças e das pessoas que dividem essa terra com elas. E foi justamente pensando em uma forma de as onças gerarem renda para essas pessoas que nasceu o Onça Compensa, que se resume em encontrar talentos que já existem nas comunidades e ajudar a transformá-los em oportunidades. Criar produtos ou serviços aos quais a onça agregue valor. Que gerem renda. Não para o projeto. Para quem divide a terra com as onças.

Foi assim que surgiram as Crocheteiras da Onça. Mulheres que já dominavam o crochê passaram a produzir amigurumis inspirados na espécie. Hoje, toda a renda obtida com a venda dessas peças fica com elas. No último ano, o programa aumentou em média 36% a renda individual anual das 17 crocheteiras.

O mais importante, porém, não são os amigurumis. É a mudança de perspectiva.

É fazer com que alguém possa olhar para uma onça e pensar: parte da renda da minha família existe por causa dela.

O Ciscando o Futuro nasceu através da ideia de construir um sistema protegido para criação de galinhas, reduzindo a vulnerabilidade das propriedades. Vai além de proteger as galinhas, também gera segurança alimentar, gera renda e pode fazer com que uma ocorrência de predação não defina para sempre a relação daquelas famílias com as onças.

O Nozes e Onças nasceu da parceria com um produtor super parceiro que teve prejuízos com predação mas gosta demais das onças. Hoje as onças agregam valor às nozes pecã que ele produz, e nós ajudamos a encontrar compradores para elas.

Coexistência com grandes felinos não tem atalhos, não tem receita de bolo. Exige tempo, investimento de recursos, empatia e trabalho colaborativo.

Vai de estar presente com as comunidades a instalar medidas preventivas, orientar mudança de manejo até passar sim noites em claro em um carro para que os moradores de uma propriedade possam dormir em paz enquanto a gente tenta convencer uma onça de que aquele quintal deixou de ser um restaurante.

A Gabriela me disse que nunca vai esquecer aquele dia. Nem nós, tenho certeza.

Talvez o nosso trabalho seja justamente esse, sabe.

Não apenas fazer com que as pessoas não sintam medo, mas garantir que o medo nunca seja o único sentimento possível.

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