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As Cunhã-Porangas transformam o próprio corpo em floresta, rio e mito no Festival de Parintins

Representantes das mulheres indígenas, as cunhãs surge primeiro como guerreira, mas depois encarna a biodiversidade amazônica e a transforma em arte cênica

Karina Pinheiro ·
1 de julho de 2026

Há um momento no Festival de Parintins em que a arena deixa de ser apenas palco e se transforma em floresta. No centro do Bumbódromo, a Cunhã-Poranga surge como guerreira, mas, em questão de segundos, assume outra existência: torna-se onça, serpente, ave ou um ser encantado das águas. A transformação acontece diante de milhares de espectadores e sintetiza uma das marcas mais emblemáticas do espetáculo: a capacidade de traduzir o imaginário amazônico em linguagem cênica.

Na 59ª edição do Festival de Parintins, realizada nos dias 26, 27 e 28 de junho, às transmutações das Cunhã-Porangas voltaram a ocupar posição de destaque nas apresentações dos bois Caprichoso e Garantido.  A cunhã-poranga é o item 9 do Festival de Parintins e integra um dos 21 quesitos avaliados pelos jurados. Entre os critérios analisados estão desenvoltura, expressão corporal, indumentária e adequação ao tema apresentado pelo boi. 

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Mais do que um recurso visual, elas funcionam como elemento narrativo para apresentar histórias inspiradas na biodiversidade da Amazônia e nas cosmologias dos povos indígenas.

Este ano, as agremiações subiram ao bumbódromo de Parintins, com os temas “Portal do Encantamento”, representando o lado vermelho, e “Brinquedo que canta o seu chão”, na nação azulada, no qual, ambos dividem as noites a contar a histórias de lendas da região amazônica, bem como as histórias da ancestralidade de povos indígenas, levadas a arena. 

A Cunhã-Poranga é uma das figuras mais importantes do auto do boi. Representa a mulher indígena, sua força, beleza e conexão com o território. Ao longo dos anos, sua apresentação deixou de se limitar à dança para incorporar efeitos mecânicos, figurinos articulados e alegorias capazes de criar a ilusão de uma metamorfose em pleno movimento. Representadas pelas ex-bbb’s Isabelle Nogueira (BBB 24), item do Garantido em despedida e Marciele Albuquerque (BBB 26), item do Caprichoso. 

A cunhá-poranga representa a mulher indígena. Foto: Bete Marques/Ofotográfico/Folhapress

“Cunhã é mulher e Poranga é bela. Então, quando se fala Cunhã-Poranga, significa a mulher mais bela da aldeia, entendeu? É o meu item. Hoje isso mudou um pouco, porque a gente trouxe o item como representatividade e força. Ela é quem está à frente de tudo, então vai mais no contexto da força da mulher e menos para esse lado da beleza”, explicou a Cunhã-Poranga do Boi Caprichoso.

Cada transformação é construída para dialogar com o enredo apresentado pelo boi. Em vez de apenas representar um personagem, a Cunhã-Poranga passa a incorporar elementos da floresta. As referências incluem predadores como a onça-pintada, aves de grande porte, serpentes e seres presentes nas narrativas tradicionais amazônicas, como a Cobra Grande e entidades ligadas aos rios e às matas. 

Na 59ª edição, Isabelle Nogueira iniciou o espetáculo simbolizando uma conexão com o público e movimentos tradicionais que simbolizam a força da mulher indígena, vinda da alegoria da Lenda Amazônica “Parintintin: O Povo Que Veio do Céu“, que retratou a origem mística do povo Parintintin, autodenominado Kawahiva, destacando a ancestralidade indígena e os mistérios que cercam a formação da Ilha Tupinambarana,ao som da toada “Aiyra Ibi Cunhã”. 

Posteriormente, nos dois dias, realizou a apresentação sobre a cosmologia Hixkaryana, povo indígena que habita as regiões dos rios Nhamundá e Jatapu e retratou a força espiritual da floresta e a lenda de Kamara, a onça mãe, que surgiu a partir do sopro primordial Yuxib para modelar o mundo, as montanhas, as árvores e o céu antes da própria existência do tempo; Em sua última noite como item 9, Nogueira surgiu na alegoria, baseada na lenda amazônica “Templo do Sol”, inspirada na tradição Konduri. A história de Kwaracy, o Sol em forma humana, cujo brilho intenso teria afastado os homens da convivência com a luz. De acordo com a lenda, um templo foi construído por orientação de Yacy, a Lua, para trazer o Sol de volta à Terra. A estrutura apresentada na arena faz referência a esse santuário e aos elementos da cultura Konduri. Isabelle surgiu da alegoria cercada por figuras inspiradas em urnas cerâmicas e símbolos ligados à tradição indígena. Isabelle Nogueira se despede do item 9 depois de 10 anos representando o Boi Garantido, onde foi homenageada na  arena e na Galera do bumbódromo, na apuração, Isabelle Nogueira e Marciele Albuquerque ficaram em empate técnico.

Isabelle Nogueira se transforma em onça em Parintins. Foto: Sandro Pereira/Folhapress

Já Marciele Albuquerque niciou o festival exaltando a identidade amazônica, a força da mulher indígena e a mística da floresta, a partir do povo Munduruku. Já na segunda noite, protagonizou uma evolução onde representou a força da floresta ao interagir com onças (onça-pintada e onça-preta) na arena, vinda da alegoria “Curupira – O Guardião da Vida”, enquanto na última noite surgiu da alegoria da lenda amazônica “Nhaçã Hekã – Macacos Comedores de Gente“, inspirada em uma narrativa dos povos da Ilha do Bananal, onde a história acompanha o jovem guerreiro Maricá, que enfrenta os Nhaçã Hekã, criaturas gigantes que ameaçam a floresta e seu povo. Na lenda, Maricá recebe a ajuda da Cobra e do Sapo, personagens ligados aos poderes da mata. Juntos, derrotam os monstros e restauram a paz, em uma narrativa que simboliza coragem, inteligência e proteção espiritual. O Boi Caprichoso foi o campeão da 59º Edição do Festival Folclórico de Parintins somando, 1.259 pontos contra 1.258,3 do boi contrário.

Marciele Albuquerque na primeira noite de apresentação do Boi Caprichoso representando A Cobra Grande – A Deus da Encantaria. Foto: Sandro Pereira/Folhapress

Essas escolhas não são aleatórias. A fauna ocupa lugar central nas apresentações porque também simboliza os ecossistemas amazônicos e as relações de equilíbrio entre humanos e natureza presentes em diferentes povos indígenas. Ao levar esses animais para a arena, os bois transformam espécies da floresta em protagonistas de um espetáculo acompanhado por milhares de pessoas e transmitido para todo o país.

As lendas seguem a mesma lógica. Narrativas preservadas pela tradição oral são reinterpretadas por meio de cenografia monumental, iluminação, efeitos especiais e coreografias que aproximam o público de histórias que fazem parte do patrimônio cultural da Amazônia.

As metamorfoses também revelam o nível de sofisticação alcançado pelo Festival de Parintins. Para que uma transformação aconteça em poucos segundos, centenas de profissionais trabalharam durante meses no desenvolvimento de figurinos, mecanismos, esculturas e sistemas capazes de ampliar ou modificar a silhueta da personagem sem interromper sua performance.

Nas últimas décadas, Caprichoso e Garantido passaram a incorporar com mais intensidade temas ligados às mudanças climáticas, à proteção da biodiversidade e aos direitos dos povos indígenas. Nesse contexto, as Cunhã-Porangas deixaram de ser apenas personagens da disputa folclórica para se tornarem símbolos da relação entre cultura e natureza.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

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