A influenciadora Virginia Fonseca, que reside em São Paulo, gerou uma série de comentários ao pegar seu jato particular para sair da cidade com destino a Goiás, onde fica seu novo empreendimento, a academia We Gym. A viagem de bate-volta teve como objetivo realizar um treino de musculação e, claro, gerar conteúdo para as redes sociais. É claro que o fato de alguém treinar musculação e, para isso, pegar um jatinho particular de São Paulo até Goiás causa espanto. Talvez até com esse propósito, de gerar engajamento e burburinho, ela o tenha feito. Mas esta não é uma atitude exclusiva de Virginia; é um hábito que faz parte de um padrão de consumo entre pessoas muito (muito) ricas.
Segundo o artigo Private aviation is making a growing contribution to climate change, publicado em 2024 na revista científica Nature – Communications Earth & Environment, diversos modelos de aeronaves privadas emitem, em apenas uma hora de voo, mais CO₂ do que um ser humano médio emite durante um ano inteiro. O estudo encontrou modelos de jatos privados com consumo de combustível entre 48 e 576 galões por hora. O jato utilizado por Virginia é um Cessna Citation Sovereign, modelo que pode consumir cerca de 930 litros de combustível por hora. Considerando que cada litro de combustível queimado emite aproximadamente 2,52 kg de CO₂, podemos fazer uma estimativa simples das emissões da viagem realizada pela influenciadora.
Consumo: 930 L/h
Duração de cada trecho: 1h20 = 1,333 h
Bate-volta: 2 × 1,333 = 2,667 h
Combustível consumido: 930 × 2,667 = 2.480 L
Emissão: 2.480 × 2,52 kg CO₂/L = 6.249,6 kg CO₂
Ou seja, aproximadamente 6,25 toneladas de CO₂ em uma única viagem de ida e volta.
Segundo o Banco Mundial, a emissão média mundial foi de aproximadamente 4,7 toneladas de CO₂ equivalente por pessoa em 2024. Isso significa que, considerando apenas o CO₂ emitido pela queima do combustível, uma única viagem de bate-volta feita no jato da Virgínia pode representar uma quantidade de emissões superior à emissão anual média de uma pessoa no mundo.
Mas, para não parecer que é implicância com a influenciadora, vale lembrar que a cantora pop Taylor Swift, por exemplo, já se tornou um dos nomes mais conhecidos quando o assunto é emissão associada à viagens de jatinho. Seu jato já foi utilizado em viagens extremamente curtas, como uma viagem realizada em 2022 entre Missouri e Nashville, nos Estados Unidos, que teria durado apenas 36 minutos. As emissões atribuídas à cantora em um determinado ano foram estimadas em mais de 8 mil toneladas de CO₂. Mantendo a mesma estimativa de 6,7 toneladas por viagem, Virginia precisaria ir 1.195 vezes em um ano à academia We Gym para chegar a esse volume de emissões.
Percebe que talvez o problema seja justamente quando a gente transforma essas discussões em uma lista de celebridades que deveriam ser julgadas individualmente?
Porque nem Virginia, nem Taylor inventaram o jatinho particular, na realidade, elas fazem parte de uma lógica de consumo em que o dinheiro compra não apenas conforto e status, mas também a possibilidade de emitir muito mais do que todo mundo. Isso te revolta também? Porque, no final do dia, você chegará em casa depois de oito horas de trabalho e ainda sentirá culpa por ter usado seu carro particular em vez de se submeter a um transporte público que, muitas vezes, poderia levar você a níveis ainda maiores de exaustão.
O planeta Terra está ardendo em febre, ano pós ano vamos superando as médias de temperaturas globais e 2024 já foi marcado como o ano mais quente já registrado, com 1,6ºC acima dos níveis pré industriais, segundo estimativas da Organização Meteorológica Mundial. Ano passado tivemos a Conferência das Partes (COP do Clima) sediada em Belém do Pará, com representantes do mundo inteiro discutindo a agenda climática dos próximos anos, com metas insuficientes para frear o colapso climático.
O oceano mais quente do que nunca
- A temperatura média da superfície do mar (TSM) no oceano extratropical (60°S–60°N) em julho de 2026 foi a mais alta já registrada para o mês, atingindo 20,96 °C e superando o recorde anterior para julho, de 20,89 °C, estabelecido em 2023.
- Em julho de 2026, a extensão do gelo marinho no Ártico ficou em sexto lugar entre as mais baixas para o mês, com uma cobertura de gelo marinho particularmente baixa no norte do Mar de Barents, ao redor de Svalbard e da Terra de Francisco José.
- A extensão do gelo marinho na Antártida ficou em quinto lugar entre as mais baixas para julho, com cobertura de gelo marinho abaixo da média na maioria dos setores oceânicos, exceto no Mar de Amundsen.
Estes dados são do Copernicus, o Serviço Meteorológico Europeu.

O oceano é um dos principais reguladores do clima do planeta, justamente porque é o maior sumidouro de carbono do planeta: absorve cerca de 30% das emissões de dióxido de carbono e captura cerca de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global. Ele também é um dos grandes responsáveis pelo oxigênio que respiramos, já que os organismos marinhos, principalmente o fitoplâncton, produzem cerca de 50% do oxigênio da atmosfera.
O oceano é fundamental para a manutenção da vida e para o clima, mas até ele está sofrendo as consequências dessa lógica. E enquanto continuarmos focando apenas em ensinar cada pessoa a consumir um pouco menos sem questionar uma lógica de consumo baseada no excesso e na desigualdade, continuaremos tentando resolver uma crise estrutural pelas escolhas individuais e, no fim, seguiremos nos afogando.
É claro que eu poderia terminar esse texto dizendo para o último que sair do site apagar a luz. Mas acho que já fizeram isso o suficiente.
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