O que significa ter fartura ou viver de maneira abundante? A resposta varia de acordo com quem a responde e, principalmente, com a forma como cada pessoa se relaciona com aquilo que está ao seu redor.
Nas comunidades amazônicas, por exemplo, a ideia de fartura não está necessariamente associada ao acúmulo de bens. Antes de tudo, está relacionada à possibilidade de alimentar os seus.
Ser uma pessoa farta pode significar ter o suficiente para alimentar a família e compartilhar aquilo que se pesca, cultiva ou coleta com quem divide o mesmo território. É o peixe que alimenta os próprios filhos e chega à casa do vizinho. É a macaxeira servida no café da manhã, que primeiro nutre a família e, quando há excedente, pode também se transformar em renda.
Existe nessa dinâmica um forte senso de coletividade e uma forma particular de organizar a sobrevivência. O alimento nem sempre começa como mercadoria.
A época do açaí, da bacaba, do patauá, da pesca e de tantos outros produtos organiza parte da alimentação e da geração de renda das famílias. Aprende-se a viver com a sazonalidade e com aquilo que o território oferece em diferentes períodos do ano.
Nesse contexto, as próprias ocupações são flexíveis. O pescador também pode ser extrativista, professor, liderança comunitária ou agente comunitário de saúde. São diferentes funções exercidas por uma mesma pessoa, mas conectadas a uma vida que não separa trabalho, comunidade e território de maneira tão definida.
No ambiente urbano, construímos nossa segurança de outra maneira. Dependemos principalmente da renda e da capacidade de comprar ou substituir aquilo de que precisamos. Quando podemos, também acumulamos recursos para enfrentar períodos de dificuldade.
Mas as mudanças climáticas colocam essas duas formas de viver diante de uma mesma pergunta: o que acontece quando aquilo que deveria estar disponível simplesmente desaparece?
Nas comunidades, uma seca extrema pode alterar o nível dos rios, dificultar deslocamentos, interferir na pesca e modificar os ciclos de espécies das quais as famílias dependem para alimentação e geração de renda. Na cidade, o impacto pode parecer mais distante, mas logo aparece em feiras, mercados, nos preços e na qualidade dos alimentos que chegam à mesa.
Exemplo disso é o Tucumã ficando mais caro no Amazonas devido à queda na produção impactada pela seca de dois anos atrás.

Foto: Michael Dantas/FAS
De acordo com o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas, em 2022, eram produzidos 4 milhões de quilos da fruta, mas entre 2023 e 2024 esse número caiu para 2 milhões.
Já em 2026, essa reflexão ganha ainda mais importância diante do fortalecimento do El Niño no Oceano Pacífico e das projeções para sua intensificação entre o fim deste ano e o início de 2027.
Se, de um lado, o El Niño pode favorecer a redução das chuvas e condições de seca em partes da Amazônia, do outro, essa escassez também chega à mesa de quem tem dinheiro para comprar.
A falta de chuvas influencia toda uma cadeia. Uma safra comprometida pode significar menos alimento e menos renda para quem vive no território. E para quem está na cidade, pode significar um produto mais caro, de menor qualidade ou que simplesmente não está disponível.
É nesse ponto que a fartura e a escassez se encontram. Ter dinheiro para comprar deixa de ser uma garantia quando aquilo que se pretende consumir não foi produzido.
Essa realidade também nos convida a pensar sobre como estamos preparando as novas gerações para compreender essa relação. Falar de conservação ambiental é ensinar a valorizar a floresta em pé, mas também reconhecer que existem pessoas dentro dela que dependem diretamente dos rios, dos frutos, da pesca e de tantos outros recursos para viver.
Ao mesmo tempo, essa dependência não termina nos limites da floresta. Quem está na cidade e acessa esses produtos por meio do dinheiro também depende, ainda que de outra maneira, dos mesmos ciclos naturais.
Os impactos não são sentidos da mesma forma nem com a mesma intensidade, mas estamos todos conectados à mesma origem. Conservar e cuidar da floresta não é proteger algo distante de nós. É garantir as condições para que quem vive nela continue existindo e para que aquilo que ela produz continue chegando também a quem está fora dela.
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