O Eco+ | Edição #308 | setembro/2026
6 de setembro de 2026
Lançado em novembro de 2023, o Programa Pecuária Sustentável do Pará definiu que até dezembro de 2025 todo o gado movimentado no Pará – seja para abate, venda, exportação ou leilões – deveria contar com identificação individual. Em dezembro de 2026, todos os animais, mesmo os que ainda não circulassem fora da propriedade de nascimento, precisariam receber o “brinco do boi”, dispositivo com microchipagem que armazena informações do indivíduo. Mas, em 2 de dezembro de 2025, faltando apenas 29 dias para a primeira data-limite, o então governador Helder Barbalho assinou um decreto jogando essas metas para 2030 e 2031, respectivamente. A repórter Naira Hofmeister se debruçou sobre os resultados da política, conversou com pecuaristas, especialistas e o governo do Pará para saber como o programa pensado para garantir a rastreabilidade do gado do nascimento ao frigorífico foi desmobilizado por um adiamento. Ao saber da ampliação do prazo, o criador de gado Mauro Lucio Costa concluiu que o programa Pecuária Sustentável tinha acabado. O problema de dar mais cinco anos para que pecuaristas se adequem à legislação é matemático. O novo prazo para identificação individual do gado é muito maior do que o próprio ciclo de vida desses animais criados comercialmente, que é de cerca de dois anos e meio. “O sentimento que a gente vê dos produtores é que o programa morreu, botaram uma pá de cal em cima. Não vai existir rastreabilidade. Ninguém conta com isso”, resume Mauro Lucio, presidente da Associação de Criadores do Pará (Acripará).
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Os especialistas Janaina Gomes-da-Silva e Hani Rocha El Bizri participaram, como consultores, da avaliação, sistematização e proposição de indicadores para a atualização da Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB) e compartilham, com os leitores de ((o))eco, os desafios, limitações e intervenções que, na opinião deles, tornaram o processo de construção dos indicadores falho. “Quando essas decisões técnicas são substituídas por critérios não transparentes, os impactos vão além do desenho de indicadores. Perdem a academia e a ciência, que há décadas produzem conhecimento qualificado, mas não veem seus resultados incorporados, e são sistematicamente desconsideradas. Perde a governança pública, que se fragiliza diante dos interesses e disputas políticas e da ausência de transparência e validação independente. Perde a eficiência do gasto público, com recursos direcionados sem base em evidências robustas, apesar da vasta produção científica disponível que poderia orientar decisões mais assertivas, coerentes e sustentáveis. Perde a sociedade como um todo, que investe recursos dos seus impostos na agenda ambiental e depende diretamente da conservação da biodiversidade para enfrentar desafios globais, como as mudanças climáticas. E perde a própria biodiversidade, que deixa de ser monitorada e conservada de forma adequada”, escreveram.
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A relação do município de Delmiro Gouveia, no interior de Alagoas, com o macaco-prego-galego (Sapajus flavius) ganhou força com o esforço da pesquisa que busca jogar luz sobre as populações da espécie. A espécie, inicialmente descrita em 1774 pelo zoólogo alemão Johann von Schreber, desapareceu do radar científico por mais de 200 anos até ser redescoberta em 2006, na Mata Atlântica nordestina. E por anos acreditou-se que esta era a distribuição do macaco-prego-galego, até que o animal foi identificado na Caatinga potiguar, em 2019. A história deste ameaçado e endêmico primata que tem encantado uma cidade foi tema da reportagem de Duda Menegassi desta semana. “O macaco-prego-galego é muito bem estudado na Mata Atlântica, mas na Caatinga ainda não tinha sido feito nada sistemático, com coleta de dados contínua”, explica o pesquisador João Pedro de Souza Alves (UFPE). O primatólogo lidera o trabalho com a espécie desde 2023 em Delmiro Gouveia, numa porção do município sobreposta pelo Monumento Natural (Mona) do Rio São Francisco.
Boa leitura!
Redação ((o))eco
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Quem decide o destino de bilhões em políticas ambientais no Brasil?
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· Conservação no Mundo ·
Forasteiro. O polvo-comum é uma espécie de águas quentes que geralmente habita as águas temperadas do Mediterrâneo. No entanto, no ano passado, larvas de polvo atravessaram o Canal da Mancha “pegando carona” no plâncton, resultando em uma proliferação de polvos na costa da Inglaterra. Este ano, essa proliferação é a maior registrada em 75 anos. Normalmente, as larvas de polvo que derivam para águas frias acabam morrendo. Segundo especialistas, a proliferação é resultado de uma onda de calor marinha excepcionalmente intensa na costa de Devon e Cornwall, que elevou as temperaturas da água em até 5 graus Celsius acima do normal. [EYale360]
Promessas milionárias. O arbusto-elefante (Portulacaria afra), uma planta suculenta adaptada à seca, tem sido amplamente aclamada como a grande protagonista das soluções sul-africanas de sequestro de carbono baseadas na natureza. O Banco Mundial garantiu essa consagração com um título financeiro de US$ 120 milhões atrelado a resultados, estruturado e nomeado em homenagem à planta. Segundo a Amazon, o compromisso da gigante de tecnologia em comprar créditos de carbono do primeiro desenvolvedor a utilizar os recursos desse título deu a outros financiadores a confiança necessária para apoiar o projeto em escala industrial. Será que isso torna a gigante de tecnologia a força dominante por trás desse setor emergente de créditos de carbono baseados na natureza? Uma investigação do Mongabay revela um setor dominado por corporações internacionais cujas promessas de investimento são difíceis de verificar — um alerta sobre o que acontece quando projetos fracassam. [Mongabay]
· Dicas Culturais ·
• Para ver •
Ciclo das águas | Nascemos das águas
No primeiro capítulo do Ciclo das Águas, Ailton Krenak, Mateus Aleluia e João Paulo Tukano refletem sobre as histórias que a água carrega e o que ela é capaz de comunicar para quem se dispõe a escutá-la. Entre memórias e travessias, eles falam sobre a água como confluência de mundos, saberes e presenças, sendo ponto de encontro entre muitos seres e ponto de partida de toda a vida.
• Para ler •
O Menino Gotinha | Ágatha Tommasi e Natasja Dantas
A história acompanha Arthur, um menino que joga uma garrafinha de plástico em um rio e desperta a fúria do Curupira, o Guardião da Floresta. Para ensinar uma lição ao garoto, o personagem o transforma em uma gota d’água. A partir daí, Arthur passa a conhecer o ciclo da água em uma viagem por diferentes paisagens e ecossistemas do Brasil. De forma lúdica, o livro mostra como água, florestas, rios, atmosfera e oceano estão conectados, além de apresentar fenômenos como os rios voadores e os impactos da poluição na natureza. As ilustrações, feitas por CJ, são inspiradas na biodiversidade brasileira e também homenageiam, in memoriam, o ilustrador Rodrigo Anis, que participou do desenvolvimento da obra.
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Políticas da natureza: Como associar a ciência à democracia | Bruno Latour
Há quase trinta anos, o sociólogo, antropólogo e filósofo francês Bruno Latour vem se dedicando a refletir sobre o casamento, não livre de adversidades, da ecologia com a política. Se não é exatamente recente o boom dos movimentos engajados em ativismo ambiental, é preciso trazer ao debate a questão: diante das transformações climáticas, das agressões sistemáticas das quais o planeta padece, eles têm conseguido efetivo respaldo político? A ecologia política é capaz, afinal, de dar conta desse delicado desafio?






