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Expedições percorrem a costa brasileira para estudar a biodiversidade marinha

Dados coletados em cruzeiros científicos sinóticos na Amazônia Azul permitirão cruzar informações de norte a sul da costa brasileira

7 de outubro de 2026
  • Rede Ressoa

    A Rede Ressoa é um projeto colaborativo de divulgação científica e comunicação sobre o Oceano. →

  • Manuela Bassoi

    Oceanógrafa pela FURG, atua com pesquisa de cetáceos desde 1994, é Mestre e Doutora pelo National Oceanography Center (NOC), na Inglaterra. Atualmente, participa do INCT-BAA, Sentinelas da Amazônia Azul, Biodiversidade da Bacia de Pelotas e Observatório de Cetáceos da Margem Equatorial (Oceam). →

  • Julyana Pereira Simas

    É Mestre e Doutora em Energia e Meio Ambiente pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Atuou como bolsista CNPq de divulgação científica no Programa InterAntar e, desde maio de 2024, atua na divulgação científica no INCT da Biodiversidade da Amazônia Azul. Atualmente também é bolsista no Projeto Pelotas Sul, pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg). →

  • Fernanda Valverde

    Estudante da Licenciatura em Educomunicação na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Atuou como bolsista de Iniciação Tecnológica no InterAntar e, no momento, integra a equipe de Divulgação Científica do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade da Amazônia Azul. →

  • Eduardo Secchi

    Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e Bolsista de Produtividade em Pesquisa nível A, do CNPq. Atua na área de Ecologia e Conservação da Megafauna Marinha, em ambientes estuarinos e oceânicos de região subtropical e Antártica. coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade da Amazônia Azul. →

  • Silvia Dotta

    Bióloga, comunicóloga e doutora em Educação pela Faculdade de Educação-USP. É professora associada da Universidade Federal do ABC. Fundadora e presidente do InterAntar: um programa de divulgação e educação científica sobre as regiões polares. Participou de duas expedições do InterAntar à Antártica, e três ao Ártico, tendo cruzado os círculos polares em ambas as regiões. →

A realização de cruzeiros científicos não é uma tarefa fácil, pois envolve uma custosa e complexa logística, que depende, não somente, da parte técnica e humana, como também das condições de tempo e mar. E um desafio ainda maior é realizar expedições marinhas de forma simultânea e coordenada – uma proposta inovadora encabeçada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade da Amazônia Azul (INCT-BAA). O grande diferencial dessas expedições foi sua realização de forma sinótica em diferentes regiões da costa brasileira, o que permitiu a coleta de dados acústicos, sedimentos do fundo marinho, além da observação de diferentes espécies, incluindo o primeiro registro documentado da marreca migratória (Aythya affinis) no Brasil.

Apesar da evidente importância dos navios de pesquisa para ensino e coleta científica, o aporte de investimento público tem sido cada vez menor, o que compromete a formação de recursos humanos e a continuidade da produção de dados científicos, capazes de monitorar a biodiversidade marinha ao longo do tempo.

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Na primavera de 2025, equipes de pesquisadores navegaram ao mesmo tempo nas regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Norte do país, utilizando protocolos padronizados de coleta de dados. Essa estratégia permitiu comparar diferentes ambientes costeiros sob as mesmas condições sazonais, produzindo um retrato inédito da biodiversidade e das características oceanográficas da Amazônia Azul.

Aythya affinis, marrecas migratórias com populações que invernam no norte da América do Sul. Primeiro registro documentado para o Brasil. Foto: INCT-BAA/Márcio Repenning.

As áreas de estudo foram definidas pela influência de grandes sistemas estuarinos e fluviais sobre o ambiente marinho, com o objetivo de compreender os efeitos desses sistemas continentais nas propriedades do oceano e na distribuição da vida marinha. 

Na região Sul, as pesquisas concentraram-se na área de influência da Lagoa dos Patos; no Sudeste, na Baía de Guanabara; no Nordeste, na região sob influência do Rio São Francisco; e, no Norte, na foz do Rio Amazonas. As expedições utilizaram três dos quatro Laboratórios de Ensino Flutuantes (LEFs) existentes no Brasil – os navios Ciências do Mar I, II e IV. Essas embarcações, construídas com recursos do Ministério da Educação por meio do Programa de Formação de Recursos Humanos em Ciências do Mar (PPG-Mar), são administradas, respectivamente, pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Cada navio possui 32 metros de comprimento, autonomia para até 15 dias de navegação e capacidade para transportar nove tripulantes e até 16 pesquisadores e estudantes.

Inicialmente, o cruzeiro da região Sudeste seria realizado pelo navio Ciências do Mar III, administrado pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Entretanto, devido a uma indisponibilidade técnica da embarcação, a Marinha do Brasil disponibilizou o Navio Faroleiro Almirante Graça Aranha (H-34), garantindo que todas as regiões fossem amostradas conforme o planejamento original.

Contribuições científicas dos cruzeiros sinóticos

Durante as expedições, pesquisadores coletaram informações sobre praticamente todos os níveis da vida marinha – desde microrganismos invisíveis a olho nu até grandes animais marinhos – além de uma ampla variedade de dados físicos, químicos e oceanográficos. Todo esse material está sendo reunido em um banco de dados único e integrado do INCT-BAA, que permitirá cruzar informações obtidas por diferentes equipes e instituições.

Essa integração de dados possibilitará responder questões importantes sobre o funcionamento dos ecossistemas marinhos brasileiros, como a distribuição espacial da biodiversidade, as variações ao longo do tempo e a influência das características físicas e químicas sobre os organismos marinhos. Além disso, permitirá desenvolver modelos capazes de prever como mudanças ambientais podem afetar a biodiversidade da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira, contribuindo para o planejamento da conservação e do uso sustentável dos recursos marinhos.

O que as expedições revelaram?

Ao longo de todos os cruzeiros científicos, foram percorridas cerca de 2.400 milhas náuticas (aproximadamente 4.445 quilômetros) para a coleta de dados acústicos do ambiente marinho. Além disso, outras 800 milhas náuticas foram dedicadas ao registro de cetáceos (baleias e golfinhos), aves marinhas e atividades pesqueiras. A equipe também realizou 71 estações oceanográficas, nas quais foram obtidos perfis da coluna d’água e cerca de 210 amostras em diferentes profundidades. O fundo do mar também foi investigado por meio de 205 coletas de sedimentos, enquanto 280 arrastos de rede permitiram a amostragem do plâncton. Todo esse material está sendo analisado em cerca de 24 laboratórios de universidades distribuídas pelas quatro regiões do país, reunindo pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento.

As equipes dedicadas ao estudo dos cetáceos registraram 77 avistagens de 10 espécies diferentes. Entre os destaques, a baleia-jubarte foi observada desde a região Sul até o Nordeste, enquanto o golfinho-nariz-de-garrafa foi registrado entre o Norte e o Nordeste. Outro momento marcante foi o avistamento de um grupo de orcas no litoral sul do Brasil.

Grupo de orcas no Cruzeiro da região Sul. Foto: INCT-BAA/Fernanda Valls

O monitoramento das aves marinhas também revelou resultados importantes. As regiões Sul e Sudeste concentraram o maior número de registros, com cerca de 500 avistamentos de 19 espécies. No Nordeste, embora o número de observações tenha sido menor, foram identificadas seis espécies diferentes. Já a região Norte apresentou as descobertas mais surpreendentes. Apesar de pouco mais de 70 registros, foram documentadas 18 espécies, refletindo o quanto essa região ainda é pouco conhecida do ponto de vista da biodiversidade marinha.

Entre essas descobertas está o primeiro registro documentado para o Brasil da marreca migratória (Aythya affinis) da América do Norte com populações que podem invernar no norte da América do Sul mas, até então, nunca havia sido oficialmente registrada em território brasileiro.

Grande parte dos dados coletados pelas demais equipes de pesquisa ainda está em fase de processamento. Isso porque muitas análises dependem de etapas como triagem, contagem, preparação das amostras e processamento laboratorial, seguidas da interpretação dos resultados. Esse trabalho, que pode levar meses, é essencial para transformar as amostras coletadas em informações capazes de ampliar o conhecimento sobre os ecossistemas marinhos brasileiros.

Desafios e perspectivas futuras

O objetivo é que, ao longo de 2026, as expedições do INCT-BAA continuem percorrendo as quatro regiões costeiras brasileiras, ampliando o monitoramento iniciado no ano anterior. Para este ano, os cruzeiros foram planejados para ocorrer em diferentes estações, permitindo comparar como a biodiversidade e as características do oceano variam ao longo do tempo e em diferentes condições ambientais.

Em maio, foi realizado o cruzeiro científico na região Sul do país. Já as expedições previstas para as demais regiões precisaram ser adiadas para o segundo semestre, em razão de uma série de dificuldades operacionais relacionadas principalmente à manutenção e à disponibilidade dos navios. Na região Sudeste, o navio aguarda, há mais de dois anos, a disponibilização de recursos financeiros necessários para a realização de sua docagem. No Nordeste, problemas em um dos geradores levaram ao cancelamento do cruzeiro previsto para maio, que foi remarcado para o final de setembro. Na região Norte, o navio ainda apresenta problemas de operacionalidade e, neste momento, não há confirmação de que será possível realizar a expedição do INCT-BAA neste ano.

Essas dificuldades, entretanto, não são pontuais e refletem um problema estrutural que vem afetando a operação dos navios Ciências do Mar, também denominados Laboratórios de Ensino Flutuantes (LEFs), utilizados em importantes atividades de ensino e formação de profissionais no país. A falta de recursos para a manutenção adequada dessas embarcações tem comprometido sua disponibilidade e, consequentemente, a continuidade de cruzeiros de ensino e científicos. Em agosto de 2024, os gestores dos navios Ciências do Mar/LEFs chegaram a encaminhar uma carta aberta à sociedade manifestando grave preocupação com a redução e a interrupção dos recursos pelo Ministério da Educação destinados à manutenção e operação dessas embarcações. Para se ter um panorama geral, o custo operacional de uma embarcação não é baixo, e cada cruzeiro de cerca de 10 dias de mar em um dos LEFs inclui diárias, transporte de pesquisadores e equipamentos, compra de insumos e manutenção de equipamentos etc., o que equivale a um custo superior a 250 mil reais, sendo que o óleo diesel marítimo não entra nesta conta.

Apesar dos desafios operacionais, a realização dos cruzeiros a partir de setembro também representa uma oportunidade científica importante: acompanhar possíveis efeitos associados ao fenômeno El Niño, que pode alterar o volume de água transportado por grandes rios e estuários. Essas mudanças podem influenciar diretamente a salinidade, a temperatura, a disponibilidade de nutrientes e, consequentemente, toda a dinâmica dos ecossistemas costeiros estudados pelo projeto.

Ao repetir as coletas utilizando os mesmos protocolos científicos, os pesquisadores poderão comparar os resultados entre diferentes períodos do ano e sob distintas condições climáticas. Dessa forma, o INCT-BAA amplia progressivamente sua capacidade de identificar variações temporais, compreender os processos que estruturam os ecossistemas da Amazônia Azul e avaliar os impactos das mudanças ambientais sobre sua biodiversidade.

Apoio e agradecimentos

Estes cruzeiros foram coordenados em parceria com o REVIMAR (Avaliação, Monitoramento e Conservação da Biodiversidade Marinha), uma Ação do XI Plano Setorial para os Recursos do Mar (XI PSRM), da CIRM, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) e os gestores dos LEFs. O óleo diesel marítimo foi fornecido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras), com o apoio da SECIRM/Marinha do Brasil.

Quem é o INCT-BAA?

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade da Amazônia Azul iniciou suas atividades em 2023, reunindo cerca de 135 pesquisadores de diferentes instituições brasileiras. O projeto integra especialistas de diversas áreas do conhecimento em cinco grandes eixos: biodiversidade, biotecnologia, oceanografia, políticas públicas, formação de recursos humanos e divulgação científica.

Essa diversidade de conhecimentos permite que o INCT-BAA desenvolva pesquisas de forma integrada, com o objetivo de compreender a biodiversidade marinha brasileira e os processos que moldam os ecossistemas da Amazônia Azul. Entre as principais estratégias do projeto, destacam-se os cruzeiros científicos, expedições de pesquisa realizadas no ambiente marinho.

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