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Quem é reconhecido na produção de conhecimento?

Na comunicação ambiental, a disputa não está apenas nas narrativas sobre a crise, mas também em quem tem legitimidade para produzir o conhecimento que ajuda a explicá-la

23 de setembro de 2026
  • Franchesco de Oliveira Y Castro

    Graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM) e estagiário do Observatório de Jornalismo Ambiental, vinculado ao Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

  • Eloisa Beling Loose

    Professora e pesquisadora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Doutora em Comunicação pela UFRGS e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Durante muito tempo, a produção de conhecimento ambiental foi associada quase exclusivamente à universidade, aos centros de pesquisa e aos especialistas. Esse conhecimento é fundamental. Mas ele não é o único que existe, e tampouco circula em condições iguais às de outros lugares do mundo. Além disso, mesmo no âmbito acadêmico, há muitas assimetrias, resultando em silenciamentos e escassa pluralidade.

É justamente essa discussão que atravessa o artigo Environmental Communication from Latin America: Collective reflections through the Systematization of Experiences in the academic field, publicado em 2026 na revista Environmental Communication. O trabalho reúne 12 pesquisadores latino-americanos para refletir sobre a produção de conhecimento em comunicação ambiental na região e sobre os desafios para que essas experiências sejam reconhecidas e circulem internacionalmente.

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O ponto de partida é importante: a América Latina não é apenas cenário de conflitos socioambientais. É também produtora de conhecimento sobre eles. E essa diferença muda muita coisa.

A região convive com conflitos relacionados ao extrativismo, às desigualdades sociais, à exploração dos recursos naturais e aos impactos ambientais que atingem de maneira desigual as populações. Ao mesmo tempo, reúne uma enorme diversidade cultural , com comunidades indígenas e tradicionais que constroem conhecimentos a partir de relações históricas com seus territórios. Ainda assim, nem sempre esses saberes conseguem alcançar espaços de reconhecimento.

O estudo mostra que pesquisadores latino-americanos, que atuam em diálogo com os saberes e práticas dos territórios, enfrentam obstáculos que vão desde a falta de financiamento e limitações de infraestrutura até exigências linguísticas, custos de publicação e barreiras nos sistemas internacionais de indexação. Revistas acadêmicas da região, inclusive aquelas que oferecem acesso aberto, muitas vezes permanecem fora das principais bases de indexação e acabam tendo sua circulação limitada. Não é apenas uma questão técnica. É uma questão de poder.

Existe uma geopolítica do conhecimento que influencia quais pesquisas circulam mais, quais revistas são reconhecidas, quais universidades ocupam posições centrais e quais perspectivas conseguem participar das discussões internacionais. A própria ideia de centro e periferia também aparece nesse campo. Determinados espaços acadêmicos são historicamente tratados como produtores de referências universais, enquanto outros precisam encontrar caminhos para fazer suas experiências serem reconhecidas.

Nesse cenário, falar em América Latina como produtora de conhecimento também é questionar uma lógica bastante antiga: a de que alguns lugares produzem teorias e outros fornecem apenas objetos de pesquisa. Mas os territórios não são apenas objetos. Eles produzem experiências, interpretações, conhecimentos e formas próprias de compreender as relações entre sociedade e natureza. É nesse contexto que entra a dimensão epistemológica dessa discussão. Se epistemologia diz respeito às formas pelas quais produzimos e reconhecemos conhecimento, então perguntar quem é autorizado a falar sobre o meio ambiente também significa perguntar quais formas de conhecer o mundo estamos dispostos a reconhecer.

As perspectivas decoloniais ajudam a tensionar  essa hierarquia. Elas questionam a transformação de determinados modos de produzir conhecimento em padrões universais, enquanto outros são tratados como locais, tradicionais ou periféricos. Na comunicação ambiental, essa discussão abre espaço para reconhecer que diferentes cosmovisões e conhecimentos territoriais também podem contribuir para compreender os conflitos socioambientais. Isso não significa colocar ciência e conhecimento tradicional em lados opostos. O desafio é outro: construir diálogo sem pressupor, desde o início, que uma forma de conhecimento deve ocupar o centro e todas as outras devem orbitar ao seu redor. 

Quem nomeia um problema ajuda a definir como ele será compreendido. As abordagens ou perspectivas derivadas da realidade latino-americana tensionam relações e questionam a universalidade da ciência. 

O desafio não é apenas fazer com que pesquisadores da região publiquem mais em periódicos internacionais. É contestar as estruturas que determinam quais as razões de determinados conhecimentos conseguirem circular com facilidade enquanto outros seguem encontrando barreiras. Uma comunicação ambiental comprometida com os territórios precisa ir além da tarefa de falar sobre eles. Precisa considerar quem produz conhecimento a partir deles.

No fim, a pergunta permanece: quem é legitimado para falar de comunicação e meio ambiente? Talvez o problema esteja justamente em procurar uma única resposta. A experiência latino-americana mostra que a comunicação ambiental é atravessada por uma pluralidade de epistemologias, experiências e territórios. Reconhecer essa diversidade não significa substituir uma hierarquia por outra. Significa questionar por que algumas vozes chegam ao debate público já acompanhadas do selo de autoridade, enquanto outras ainda precisam provar que têm algo a dizer.

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