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Jornalismo, eleições e crise climática: uma pauta negligenciada

Infraestrutura, saúde, habitação e desenvolvimento econômico passam, cada vez mais, pela crise climática. Por que, então, o tema ainda aparece de forma tão tímida no debate eleitoral?

25 de junho de 2026
  • Eutalita Bezerra

    Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq

As eleições que acontecem em outubro deste ano tomam boa parte do noticiário atual e, com elas, uma série de temas considerados relevantes – e até cruciais para o resultado do pleito – são explorados pelos pré-candidatos. Neste sentido, e com a certeza da relevância da pauta climática, é justo e esperado que ela figure no discurso político nesse período. Porém, o que se percebe é ainda um apagamento da discussão.

Para verificar como o tema tem sido explorado, buscamos três dos principais portais de notícias brasileiros, considerando os dias 20 de maio a 20 de junho. Dentre eles, apenas duas inserções citavam a questão ambiental/climática, ambas num mesmo veículo. Na primeira, que tratava sobre a candidatura ao Senado da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi mencionada a sua participação numa mesa redonda, na qual ela teria dito que a crise climática impacta diretamente a vida e a dignidade humana. O trecho era apenas declaratório, aspeado, sem qualquer contextualização ou link direto com as eleições ou com o próprio mote da matéria.

Já a segunda, dizia respeito à participação do pré-candidato Flávio Bolsonaro em ato político em Belém, no Pará. A publicação somou-se a outras que destrincharam o discurso do político. Nesta, ele falou sobre como deverá, se eleito, flexibilizar licenças ambientais para atividades do agronegócio e da mineração. No contexto do discurso, as leis ambientais são tratadas como entrave econômico, impedindo a distribuição das riquezas que estariam “embaixo da terra”.

Também foi possível perceber o uso massivo da expressão “modernizar”, para se referir à flexibilização, nos remetendo à chamada Revolução Verde, no contexto pós-guerra, cujos efeitos negativos perduram e reverberam na crise climática enfrentada atualmente.

No mesmo período, o segundo portal avaliado abordou temas como religião, violência infantil, palanques eleitorais, mas não fez qualquer menção à pauta climática. Já o terceiro, também no contexto das eleições, abordou a crise nos transportes, violência contra a mulher, IA, Bets, segurança pública e educação, mas nenhuma publicação sobre o meio ambiente foi feita.

O achado corrobora com o que foi levantado no artigo recém-publicado no dossiê “Comunicação e eventos climáticos: governança, proximidade e resiliência” da  Revista Animus (UFSM), intitulado Análise da cobertura jornalística sobre as mudanças climáticas na eleição de Porto Alegre. Na oportunidade, em referência às eleições municipais, as autoras avaliaram o papel do Jornalismo na promoção da pauta climática durante as eleições de Porto Alegre logo após o desastre climático que se abateu sobre a capital gaúcha em maio de 2024.

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Embora se esperasse “um debate ampliado sobre adaptação, resiliência e prevenção associadas às mudanças climáticas durante a campanhas dos candidatos à prefeitura da Capital Gaúcha e a cobertura jornalística sobre o assunto permitiria identificar essas questões”, o que as autoras encontraram, analisando quatro veículos jornalísticos da cidade durante o período eleitoral daquele ano, foi uma cobertura baixa, seja quanto à presença, mas especialmente à relevância dos achados.

De acordo com o artigo, embora a cidade esteja vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, a questão pouco aparece em notícias da cobertura eleitoral e “a crise climática e as enchentes quase sempre são citadas de forma superficial, sem discussão sobre como as medidas seriam feitas, em qual período, ou com qual prioridade”.

Longe de constituir um tema específico ou setorial, temos reforçado que a crise climática se impõe em debates sobre infraestrutura, saúde, habitação, mobilidade, desenvolvimento econômico, dentre tantos outros. Seu apagamento na cobertura eleitoral e nos discursos dos pré-candidatos chama a atenção, sobretudo diante da frequência e da intensidade dos eventos extremos registrados nos últimos anos. Seja a partir da experiência de Porto Alegre após as enchentes de 2024 ou observando os impactos sentidos em diferentes regiões do país, fica evidente que as mudanças climáticas já fazem parte da realidade brasileira e exigem respostas no campo das políticas públicas. E, uma vez que não venham diretamente dos candidatos, cabe, também, ao jornalismo, cobrá-las. 

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