A cada novo relatório científico, recorde de temperatura ou desastre ambiental, somos lembrados de que a crise climática é urgente, sabemos que o planeta aquece, que eventos extremos se tornam mais frequentes e que seus impactos recaem de forma desigual sobre populações e territórios vulneráveis. Paradoxalmente, nunca tivemos tanto acesso à informação sobre as mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em transformar conhecimento em ação. Parte dessa contradição pode estar na forma como comunicamos a crise climática.
Durante décadas, a comunicação ambiental apostou na lógica do alerta. Era preciso chamar atenção para um problema que parecia distante, invisível ou restrito ao campo científico. A estratégia cumpriu um papel importante, colocou as mudanças climáticas na agenda pública e ajudou a consolidar o consenso científico sobre sua gravidade. Hoje, grande parte da população já ouviu falar sobre aquecimento global, eventos extremos e emissões de gases de efeito estufa. O desafio já não é apenas convencer as pessoas de que a crise existe, é mostrar o que pode ser feito diante dela.
No entanto, boa parte da cobertura midiática continua concentrada em negociações internacionais, disputas políticas, catástrofes e números alarmantes. São informações relevantes, sem dúvida, mas frequentemente aparecem desconectadas da vida cotidiana e das possibilidades concretas de transformação social, o resultado pode ser um sentimento de impotência. Quando a crise é apresentada apenas como uma sucessão de tragédias, cresce a percepção de que ela é grande demais para ser enfrentada.
Essa é uma das reflexões presentes na obra “Comunicar la crisis climática”, organizada pelos pesquisadores Carlos Lozano Ascencio e María Teresa Mercado Sáez. Reunindo pesquisadores de diferentes países ibero-americanos, o livro argumenta que comunicar a emergência climática exige mais do que informar sobre riscos. Exige construir condições para a participação social, fortalecer a educação climática e ampliar a circulação de experiências concretas de adaptação e mitigação. Isso não significa abandonar o rigor científico ou suavizar a gravidade da situação, significa reconhecer que informação, por si só, não gera mobilização.
A comunicação climática torna-se mais eficaz quando consegue conectar fenômenos globais à experiência cotidiana das pessoas. É o caso das discussões sobre saúde pública, qualidade do ar, segurança alimentar, acesso à água, mobilidade urbana ou prevenção de desastres. Quando o clima deixa de ser percebido apenas como um problema ambiental distante e passa a ser compreendido como uma questão que atravessa o trabalho, a moradia e a saúde, o debate ganha novos sentidos.
O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 ilustra bem esse desafio. Mais do que noticiar enchentes, perdas materiais e números de vítimas, a comunicação precisa ser capaz de explicar as causas estruturais dos desastres, acompanhar os processos de reconstrução e questionar as decisões políticas que ampliam vulnerabilidades. Eventos extremos não são apenas acontecimentos excepcionais. Eles revelam desigualdades acumuladas e escolhas feitas ao longo do tempo.
Nesse contexto, o jornalismo tem um papel decisivo, não apenas como transmissor de informações, mas como mediador da compreensão pública sobre a crise climática. Isso implica diversificar fontes, valorizar conhecimentos locais, combater a desinformação e, sobretudo, mostrar que existem caminhos possíveis.
É o que os autores defendem ao propor um jornalismo mais situado, construtivo e orientado para soluções. A questão não é transformar a cobertura climática em um catálogo de boas iniciativas, mas sim acompanhar as respostas que estão sendo construídas, seus resultados, suas contradições e as condições que permitem ou impedem que sejam ampliadas.
Talvez um dos maiores desafios da comunicação climática contemporânea seja justamente informar sem paralisar. Alertar sem produzir resignação. Reconhecer a gravidade da emergência sem abandonar a capacidade coletiva de imaginar e construir futuros diferentes. Porque uma sociedade bem informada é fundamental, mas uma sociedade que consegue transformar informação em ação é ainda mais necessária.
Para quem quiser se aprofundar nessa discussão, integrantes do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental publicaram a resenha “Comunicando a Crise Climática: comunicação, ética e ação diante da emergência socioambiental”, que apresenta os principais debates reunidos no livro sobre comunicação climática, jornalismo, desinformação, saúde e ação diante da emergência socioambiental.
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