No período eleitoral, ouvimos propostas sobre segurança, saúde, emprego, mas a pauta da água ainda ocupa pouco espaço, e, sem ela, nenhuma área da vida nem setor econômico funciona de forma adequada. Com a falta de água se tornando cada vez mais frequente nos campos e cidades do Brasil, o Centro Brasil no Clima apresentou aos candidatos a governador dos Estados que abrigam o Cerrado uma lista com propostas para enfrentar o desafio hídrico e alavancar o ganho de escala de práticas regenerativas. Para o Estado de São Paulo, foi enviado um documento específico elaborado junto à SOS Mata Atlântica.
O Cerrado é a savana mais biodiversa do planeta e o berço de oito das doze grandes bacias hidrográficas brasileiras, abastecendo o país com água, alimentos e energia. Com o agravamento da crise climática e a expansão do desmatamento regional, entre 1985 e 2022, a vazão dos rios do bioma caiu, em média, 15%, com projeções que indicam redução de até 34% na vazão dos rios até 2050, se a destruição seguir no ritmo atual, gerando insegurança hídrica, alimentar e energética para todo o país.
Por que ao governo estadual?
O Estado é o único ente federativo que reúne tanto escala quanto a proximidade de atores locais, além da legitimidade e instrumentos para coordenar essa agenda. O domínio das águas pertence à União e aos estados; a gestão do uso do solo e do saneamento é municipal, mas tem grande influência estadual, como via ZEE, exigências específicas para acesso ao ICMS Ecológico e ATER.
Ao final de 2025, o Centro Brasil no Clima publicou um Guia de Restauração das Bacias do Bioma focado em gestores estaduais, destacando iniciativas regionais que merecem ser replicadas, tanto no campo prático quanto financeiro e de governança. Ao levantar, estado por estado, o que já funciona, a conclusão a que chegamos foi que o obstáculo à escala não é tecnológico nem, essencialmente, financeiro: é de governança, e os Estados têm também a centralidade necessária para articular e superar esse entrave.
Em agosto de 2026, o Guia foi levado a uma mesa-redonda na SP Climate Week, para discutir caminhos para a restauração de bacias com membros da sociedade civil, do governo estadual e da iniciativa privada, e com base nessas discussões, foi elaborada a lista de propostas.
A versão específica dirigida a São Paulo foi construída em parceria com a SOS Mata Atlântica e expõe um paradoxo: o estado tem a legislação de águas mais antiga e avançada do país e fundos milionários; ainda assim, já convive com a falta de água. A agenda perde terreno por duas pressões que se somam.
De um lado, o setor agrícola, maior usuário em volume outorgado, nunca foi alcançado pela cobrança instituída em 2005. De outro, a ocupação irregular avança sobre as áreas de proteção aos mananciais da região metropolitana, inclusive em cidades do interior onde isso não existia há vinte anos.
A premissa: restaurar não é despesa, é investimento
O Guia e as propostas partem da tese de que recuperar as bacias é um investimento estratégico e não um custo. O país já tem gastos bilionários todos os anos por conta da degradação, como os estimados R$ 49 bilhões devido à erosão do solo, entre perda de produtividade agrícola, manutenção de estradas, desassoreamento de reservatórios e encarecimento do tratamento de água.
Há no Cerrado mais de 35 milhões de hectares de pastagem em algum estágio de degradação – área maior que a Itália. Segundo o Observatório da Bioeconomia da FGV, recuperar cerca de metade, 15 milhões de hectares, meta que o país assumiu no Acordo de Paris, exigiria R$ 21,2 bilhões e geraria R$ 36,8 bilhões de receita, um excedente de R$ 15,6 bilhões. Somando os ganhos na redução de custos e o potencial de lucro das crescentes cadeias regenerativas, restaurar bacias é, hoje, um investimento estratégico de alto retorno para um governo estadual – e, com raras exceções, ele está parado.
Adicionalmente, se o Brasil cobrasse o uso da água em padrões semelhantes aos de França, Espanha, Estados Unidos, Austrália, Inglaterra e Chile, a arrecadação alcançaria cerca de R$ 12 bilhões por ano – recursos que, por lei, devem ser reinvestidos nas próprias bacias.
O que a lista pede
No documento, detalhamos caminhos importantes ligados a cinco eixos: a) governança, b) financiamento, c) território, d) municípios e comunidades, e) mensuração; e, por fim, pedimos a adesão dos candidatos às seguintes 10 propostas:
- Instituir, nos primeiros 100 dias, uma força-tarefa estadual de recuperação de bacias hidrográficas, coordenada pela Casa Civil.
- Definir, no primeiro ano, de uma a três bacias prioritárias e um programa de investimento associado a elas.
- Efetivar a cobrança pelo uso da água, alcançando os grandes usuários, e assegurar que a arrecadação seja reinvestida nas bacias de origem.
- Implementar o enquadramento dos corpos hídricos e defender sua vinculação à outorga e ao licenciamento ambiental, abolindo a classe 4 nas bacias estaduais e apoiando a atualização da Resolução Conama 357/2005 para que essa vedação valha em todo o país.
- Lançar, no primeiro ano, um Programa Estadual de Pagamento por Serviços Ambientais articulado aos fundos estaduais, ao crédito disponível e ao capital privado.
- Rever o ICMS Ecológico para incluir critérios de restauração de bacias e práticas regenerativas, dar transparência aos valores repassados e apoiar a criação de fundos municipais de PSA.
- Institucionalizar escritórios regionais de projetos e financiar planos regionais de macrodrenagem nas regiões metropolitanas e aglomerados urbanos.
- Incorporar na política estadual de mudanças climáticas ou no Plano Estadual de Ação Climática um capítulo específico de segurança hídrica, com metas mensuráveis de recuperação de áreas degradadas.
- Encaminhar projeto de lei criando um regime estadual de manejo múltiplo em áreas privadas conservadas, e defender junto ao governo federal a inclusão de uma categoria de reserva privada de desenvolvimento sustentável no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
- Publicar portal de transparência com indicadores de restauração e o mapa de todos os projetos em curso no território.
Essa lista resumida é reforçada por um portfólio de experiências de sucesso no bioma, que devem servir para apoiar essa adesão, das quais destacamos, por exemplo: a) pactos com o setor produtivo reduzindo o desmatamento no ano seguinte em mais de 70%, b) um PSA que, a cada R$ 1 investido, gera R$ 8 de retorno à bacia restaurada, c) fundos constitucionais dando escala a sistemas agroflorestais (i.e. IPF e ILPF), d) programas jurisdicionais de REDD+ no Cerrado com estimativa de gerar R$ 2,5 bilhões até 2030, e) ganhos através do fortalecimento das cadeias da sociobiodiversidade: como investimento na cadeia do mel, que contribuiu para tornar um estado o maior exportador do país, com receita superior a R$ 100 milhões e mais de 10.500 famílias envolvidas, f) reconhecer povos indígenas e comunidades tradicionais como parceiros estratégicos, com conselho, fundo e editais próprios para a execução de seus planos de gestão territorial, e g) plataformas estaduais de monitoramento de iniciativas de restauração e conexão entre diferentes atores.
Algumas propostas, porém precisam colocar o dedo na ferida, como vedar o enquadramento de corpos d’água em classe 4 da Resolução Conama 357/2005, na qual esta classe é a última e destinada apenas à navegação e à harmonia paisagística, não servindo para abastecimento, irrigação ou contato humano. Como o enquadramento não é apenas um diagnóstico, serve como meta, enquadrar um trecho em classe 4 é declarar oficialmente que ele pode permanecer em uma condição de baixa qualidade, sem planos recuperação; assim, vedar a classe 4, com metas progressivas para os trechos que hoje estão nessa condição, torna obrigatória a recuperação.
Nenhuma outra pauta conecta tanto a sociedade e representa tanto a riqueza do Brasil quanto a água. A população do país dos gigantes aquíferos, rios monumentais e da maior biodiversidade de plantas do planeta já sente, na secura, o impacto do descuido com esse patrimônio. Hoje, os governadores têm em suas mãos a oportunidade de construir um caminho que proteja este patrimônio e fortaleça a sua resiliência. Assim esperamos.
*Os candidatos que aderirem às propostas serão divulgados pela página oficial do Centro Brasil no Clima.
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