A formação de novos grupos de micos-leões-pretos (Leontopithecus chrysopygus) após a transferência de nove animais para um fragmento florestal no oeste de São Paulo é um dos resultados de uma estratégia para evitar o desaparecimento de uma população local da espécie. A área, no Pontal do Paranapanema, abriga menos de 18 indivíduos e registra redução populacional há pelo menos dez anos.
Os resultados da iniciativa foram publicados em setembro de 2026 na revista científica Global Ecology and Conservation. O estudo acompanha duas translocações realizadas em 2024 e 2025, quando pesquisadores levaram animais do Parque Estadual Morro do Diabo, que concentra cerca de 1.200 micos-leões-pretos, para um fragmento de 500 hectares situado a 30 quilômetros de distância.
A transferência buscava reforçar a população local e favorecer a troca genética entre animais de diferentes áreas. A preocupação dos pesquisadores também envolve a perda de características genéticas únicas identificadas nesse grupo, que poderiam desaparecer caso a população fosse extinta.
Durante o acompanhamento, os pesquisadores observaram mudanças na composição dos grupos transferidos. Após a morte de uma fêmea dominante, encontrada poucos dias depois da soltura do segundo grupo, os animais passaram por uma reorganização social. A causa da morte não foi determinada.
Em avaliações posteriores, uma fêmea transferida em 2025 formou um casal com um macho que chegou ao fragmento no ano anterior. Outro macho adulto também passou a integrar um grupo com duas fêmeas, uma delas originária da população residente.
A formação de grupos com animais de diferentes procedências pode contribuir para o fluxo gênico entre populações isoladas. O monitoramento foi realizado com radiotelemetria, técnicas de monitoramento acústico e recapturas dos indivíduos.

Conexão entre fragmentos
Apesar dos resultados, a translocação é considerada uma medida emergencial. A restauração florestal é apontada pelos pesquisadores como uma estratégia fundamental para garantir a conservação da espécie a longo prazo.
O projeto Corredores de Vida, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), já promoveu o plantio de mais de 14,2 milhões de mudas na região. A iniciativa busca conectar fragmentos como o Parque Estadual Morro do Diabo e a Estação Ecológica Mico-leão-preto, ampliando as possibilidades de deslocamento dos animais.
Segundo Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto e primeira autora do estudo, o estabelecimento dos corredores ecológicos pode aumentar em mais de oito vezes o habitat disponível para a espécie. “Espera-se que, à medida que esses corredores ecológicos se estabeleçam, o habitat disponível para a espécie aumente mais de oito vezes, facilitando a dispersão natural e o intercâmbio genético. No entanto, até que essa conectividade seja restaurada, o reforço demográfico por meio de translocação constitui uma estratégia de curto prazo necessária para evitar o colapso demográfico e manter viáveis no longo prazo as pequenas populações”, afirma.
Os pesquisadores também recomendam estender o monitoramento das translocações para além dos 24 meses inicialmente previstos, ou até que os grupos tenham um ciclo reprodutivo bem-sucedido. A medida permitiria avaliar melhor a adaptação dos animais e orientar futuras ações de manejo em áreas florestais fragmentadas.
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