Reportagens

Quatro micos e um bioma: a luta pela conservação dos micos-leões da Mata Atlântica

Pequenos, carismáticos e ameaçados, os micos-leões são espécies que ocorrem apenas na Mata Atlântica, e lutam por espaço e conexão no bioma mais desmatado e fragmentado do país

Daniele Bragança · Duda Menegassi ·
8 de março de 2022

A Mata Atlântica é a casa de quatro pequenos primatas nativos e exclusivos do bioma. O mais famoso deles, o mico-leão-dourado, está estampado nas notas de vinte reais e sua imagem circula pelas mãos e olhos de toda população brasileira. Nem todos familiarizados, entretanto, com a história de conservação do primata, que graças a esforços que começaram na década de 1960, conseguiu escapar de uma provável extinção. Seus primos, menos conhecidos, mas igualmente carismáticos, possuem histórias parecidas de risco de extinção, todas elas ligadas ao destino da Mata Atlântica, o bioma mais devastado e fragmentado do país.

Ao longo de 5 meses, a reportagem de ((o))eco ouviu cientistas e pesquisadores que trabalham – ou trabalharam – para a preservação dos quatro pequenos primatas que pertencem ao gênero Leontopithecus, os micos-leões. Na loteria de Darwin, as espécies ganharam colorações distintas: toda dourada, preta, preta com cara dourada, e dourada com cara preta. Daí vêm os seus nomes populares. As espécies estão distribuídas, respectivamente, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no sul da Bahia, e na divisa litorânea entre Paraná e SP. Além da aparência, tamanho e hábitos similares, os quatro são igualmente prejudicados pela destruição da sua casa, a Mata Atlântica, e ao menos três deles tiveram o destino mudado pelo interesse peculiar de um homem: Adelmar Faria Coimbra Filho (1924-2016), o pai da primatologia brasileira. 

“Quem descobriu o mico-leão-dourado foi o naturalista Johann Natterer, um grande cientista austríaco, que esteve no Brasil no começo do século XIX e encontrou os micos-leões [dourados] em Guaratiba [bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro]. Em 1942, eu reencontrei por lá dois ou três micos, num rancho de caça”, disse Coimbra-Filho em 2004, em conversa com Lorenzo Aldé, Manoel Francisco Brito, Marcos Sá Corrêa e Sérgio Abranches. O primatólogo foi tema da primeira reportagem publicada pelo site ((o))eco, há quase 18 anos. Foi no rancho, quando viu os micos-leões na natureza pela primeira vez, que Coimbra decidiu estudá-los. Começou a seu modo, percorrendo as matas, anotando os pontos de ocupação, estudando a pouca literatura existente e mapeando sua área de ocorrência. Quando foi demitido de seu cargo no antigo Parque da Gávea e designado para o Jardim Zoológico, onde chegou a ocupar o cargo de chefe do serviço técnico-científico, essa paixão virou seu objeto de estudo. 

“[Estar no Jardim Zoológico] me deu capacidade imediata de trabalhar com animais de um modo geral, que foi muito boa. Aí foi que eu comecei a me interessar pela primatologia. Não foi no Jardim Zoológico, quando eu trabalhava com chimpanzé, orangotango, vários macacos brasileiros, africanos, mas foi porque eu vi, tempos atrás, um macaquinho, que era o mico-leão-dourado, que eu achei uma coisa extraordinária”, em entrevista à Beth Quintino e Rodrigo Godoy, para o Museu da Pessoa

No início de 1960, foi assessor-técnico da Reserva Biológica de Jacarepaguá – que hoje só existe no papel –, onde criou, junto com o engenheiro agrônomo Alceo Magnanini, um núcleo experimental no local, com o intuito de tentar viabilizar o primeiro programa de reintrodução de mico-leão-dourado com animais em cativeiro. “Não deu certo, porque a expansão imobiliária do Rio de Janeiro acabou com a reserva”, disse, em 2004, para uma outra entrevista publicada em ((o))eco

Veterano nos estudos do mico-leão-dourado, em 1969 Coimbra partiu para o sudeste da Bahia para estudar a área de distribuição do mico-leão–de-cara-dourada na natureza. O animal já era velho conhecido do primatólogo em cativeiro, mas Coimbra queria localizar uma área destinada à sua preservação. Alguns anos depois, em 1973, uma parcela bem preservada de mata dentro da área de ocorrência do cara-dourada foi localizada no município de Una. O local virou Reserva Biológica em 1980. 

Os anos 60 e 70 são considerados os anos do alvorecer da primatologia no Brasil – o país com maior número de espécies de primatas do mundo –, com inúmeros trabalhos sendo publicados, parcerias nacionais e internacionais costuradas e visibilidade para as espécies que existem no território brasileiro. No centro deste alvorecer, os micos-leões ocupam o lugar de destaque. 

A redescoberta de mais uma espécie, o mico-leão-preto, considerada até então  extinta, em 1970, faz o país e seu descobridor, Coimbra Filho, ganharem visibilidade internacional. O achado ocorreu após o primatólogo Álvaro Aguirre encontrar um par do mico-leão-preto – espécie que não era avistada desde 1905 – empalhado em uma loja de armas em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. “Quando essa história aconteceu [1970], o Coimbra resolveu ir nessa loja de armas para ver. Ele procurou na região se ainda tinha um pedaço de floresta e localizou no mapa o que viria a ser o Parque Estadual do Morro do Diabo. Ele foi até lá e encontrou [o mico]”, relembra o biólogo Claudio Valladares-Padua, que trabalhou com Coimbra e depois fundou um instituto que hoje cuida da conservação do mico-preto, o Instituto IPÊ. 

Os três micos-leões foram objeto de estudo de Adelmar Coimbra-Filho – com exceção do mico-leão-da-cara-preta, descoberto apenas na década de 1990 – beneficiaram-se de três políticas públicas que o primatólogo ajudou a promover: banco genético, reprodução em cativeiro e criação ou fortalecimento de unidades de conservação para manter o habitat de populações viáveis. 

Arte: Julia Lima/Carla Dutra.

A vida e o trabalho de Adelmar Coimbra-Filho é um dos fios que conectam os mico-leões. Outro elo é a Mata Atlântica. De uma forma ou de outra, todas as espécies de mico-leão precisam lidar com os obstáculos que séculos de destruição do bioma impuseram a sua própria sobrevivência. A luta pela vida dos quatro micos é a luta pela conservação e restauração da Mata Atlântica.

“O mico é um bicho florestal, a anta é florestal, a onça é florestal – embora percorra grandes distâncias de vegetação mais baixa. Para ter esses bichos de volta e manter populações viáveis é preciso fazer Mata Atlântica, restaurar o que puder restaurar”, explica o veterinário Alcides Pissinatti, chefe do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ). 

Testemunha da primeira tentativa de reintrodução do mico-leão-dourado, diz que a estratégia de preservar locais para conservar espécies na natureza era algo que Coimbra buscava desde o início dos anos 60 e foi o que incentivou a criação de inúmeras unidades de conservação no estado do Rio, como a Reserva Biológica de Poço das Antas (criada em 1974), área que abrigava uma das maiores populações de micos-leões-dourados na natureza na época.

Mico-leão-dourado: preso em fragmentos

Dentre as quatro espécies de primatas com jubas de leão, o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é a mais famosa e também a primeira a ser formalmente conhecida. O primeiro registro documentado do mico data de 1519, feito pelo italiano Antonio Pigafetta, cronista da expedição de Fernão Magalhães, pioneira na circum-navegação do globo. Ao longo dos séculos seguintes, o mico-leão-dourado chamou atenção de outros europeus – inclusive Darwin, em sua passagem pelo Rio – e o animal “exótico” aos olhos dos Velho Continente foi retratado em várias pinturas feitas no período, uma evidência de que, desde o princípio, foi objeto de desejo e “importação” ou, para usar um termo mais contemporâneo, do tráfico de animais silvestres.

A história de conservação do mico-leão-dourado é considerado um caso de sucesso, com a população recuperada de apenas 200 indivíduos para mais de 2 mil. Foto: Marcio Isensee e Sá

A caça, o tráfico e a destruição da Mata Atlântica fluminense de baixada, único habitat do mico-leão-dourado, reduziram a distribuição da espécie que originalmente ocorria numa faixa costeira que se estendia até a cidade do Rio de Janeiro. Hoje, a maior densidade populacional da espécie se concentra em fragmentos de floresta dentro da Bacia do Rio São João, entre Silva Jardim, Casimiro de Abreu, Rio Bonito e outros cinco municípios vizinhos.

Para sorte do mico-leão-dourado, seu destino cruzou com o de Adelmar Coimbra-Filho e, com isso, parte do próprio destino da Mata Atlântica fluminense deu uma guinada. Em 1969, uma primeira estimativa feita por Coimbra apontava que restariam cerca de 600 micos na natureza. Quatro anos depois, ao fazer uma avaliação do habitat disponível junto com o americano Russell Mittermeier, a estimativa caiu para 400. E, em 1977, ao revisarem a pesquisa, chegaram ao assustador número de apenas 100 a 200 micos restantes na natureza e foi dado o alerta para a iminente extinção da espécie.

Mais de cinquenta anos e várias ações de reintrodução de indivíduos de cativeiro depois, a situação do mico-leão-dourado mudou radicalmente. 

Na área de habitat do mico foram criadas as Reservas Biológicas de Poço das Antas e da União, em 1974 e 1998, mais de 25 Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), assim como a Área de Proteção Ambiental (APA) da Bacia do Rio São João/Mico-Leão-Dourado, de uso sustentável, instituída em 2002 – mesmo ano em que também foi criado o Parque Estadual dos Três Picos.

Todas estas unidades de conservação ajudaram a garantir ilhas protegidas de Mata Atlântica e a salvaguardar o lar do mico. Hoje, o maior desafio para garantir a sobrevivência da espécie é outro: conexão.

“É sempre bom lembrar que estamos falando de uma região de serra, que tem mais florestas, mas o mico-leão-dourado só ocorre até 500 metros de altitude. E nessa parte de baixo temos esse problema muito grande da fragmentação do habitat. Tem pouca floresta e o que tem está muito fragmentado”, avalia o secretário-executivo da Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), Luís Paulo Ferraz. 

A Associação foi criada em 1992 para centralizar e consolidar os esforços do programa de conservação do mico-leão-dourado. Com sede entre os municípios de Casimiro de Abreu e Silva Jardim, a AMLD prioriza o que chama de “paisagem de conservação”, a área em que acredita ser possível consolidar a sobrevivência da espécie a longo prazo.

A partir de modelagens científicas (Avaliação da População e Viabilidade do Habitat ou PHVA), para que exista pelo menos uma população com 0% de probabilidade de extinção em 100 anos e pelo menos 98% de retenção de biodiversidade genética, foi estabelecida a meta de ter no mínimo 2 mil micos na natureza vivendo em 25 mil hectares de florestas protegidas e conectadas até 2025.

“Nós já ultrapassamos a marca dos 2 mil micos há muito tempo e nós já temos mais de 25 mil hectares de floresta, nosso problema é a conexão entre elas. Não adianta ter 10 mil micos vivendo em fragmentos isolados. Para conseguir viabilidade genética dos grupos, a gente precisa que haja troca genética entre eles e para isso, só com conexão florestal. Se não tiver floresta, eles não vão atravessar uma área de pasto de um lugar para outro”, comenta Ferraz.

Os obstáculos variam. São desde pastos e cidades até rodovias, linhas de transmissão, gasodutos e oleodutos.

Quando atingem os dois anos – os micos-leões vivem em média 15 – os micos saem ou são expulsos de seus grupos. Quando isso acontece, o pequeno primata segue sozinho – e mais vulnerável aos predadores – até encontrar um parceiro sexual e um canto de floresta para chamar de seu. 

A área de vida de um mico-leão-dourado é de apenas 50 hectares e os bandos são extremamente territorialistas e brigam entre si para defender sua área. Quando um mico solitário entra no território já dominado por um grupo, ele é prontamente enxotado e se estiver num fragmento isolado de floresta pode ser forçado até mesmo a fazer algo pouco usual na vida de um mico: descer ao chão.

“Se eles estão sendo expulsos daquela área de floresta por outro grupo e não têm para onde ir, mas veem a floresta do outro lado, eles tentam chegar e é nessa hora que podem tentar atravessar a estrada e acabar atropelados”, conta a bióloga Andréia Martins que trabalha no manejo da espécie desde 1983. Apesar de não existirem dados sistematizados de atropelamento, a AMLD já registrou pelo menos seis micos que foram vítimas de veículos – um alerta do desespero de uma espécie exclusivamente arborícola que é obrigada a usar o asfalto diante da fragmentação do seu habitat.

Atualmente, o maior bloco florestal contínuo do território está compreendido entre a Reserva Biológica da União e o distrito de Aldeia Velha, com cerca de 20 mil hectares e abriga uma população de aproximadamente 1.100 micos. A três anos do prazo final da meta de conexão de 25 mil hectares de floresta, o cenário ainda é desafiador, mas otimista. Uma das principais conquistas nesse sentido foi a construção de um viaduto vegetado para possibilitar a passagem da fauna sobre as quatro pistas da rodovia BR-101, uma das principais barreiras do território.

Uma ponte para o mico 

Um dos principais remanescentes isolados no habitat do mico-leão-dourado é a Reserva Biológica de Poço das Antas, a primeira da categoria no Brasil, criada em 1974 justamente com o apelo de salvaguardar o habitat do mico-leão e da também ameaçada preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus).

Os cerca de 5 mil hectares de Mata Atlântica da reserva, alçados ao grau máximo de proteção, são uma ilha verde em meio a pastos e fazendas, cuja fronteira norte é brutalmente marcada pela movimentada rodovia BR-101, uma barreira praticamente intransponível para muitos animais, especialmente os arborícolas (aqueles que vivem e se locomovem pelas árvores). 

Com o início das obras de duplicação da BR-101, começou uma outra luta: a pressão para que a concessionária – a empresa Arteris Autopista Fluminense – cumprisse as exigências ambientais mitigadoras previstas no licenciamento ambiental. Entre elas, a construção de 10 passagens copa a copa, 15 túneis subterrâneos e um viaduto vegetado para conectar Poço das Antas com o outro lado da rodovia, onde a AMLD comprou uma fazenda, atual sede da associação e futuro Parque Ecológico do Mico-Leão-Dourado.

Depois de uma longa queda de braço na justiça, com atuação fundamental do Ministério Público Federal (MPF), a obrigação saiu do papel. E em agosto de 2020 foi oficialmente inaugurado o viaduto vegetado, a maior das estruturas de passagem de fauna, erguida ao custo de R$9 milhões. Para o mico, a conectividade ainda é um horizonte de longo prazo, uma vez que a espécie depende de árvores para se locomover e, portanto, as mudas plantadas na passagem ainda precisam de alguns anos de crescimento até estarem convidativas aos primatas. As passagens copa a copa, assim como os túneis também foram implementados.

A ameaça da febre amarela

Em 2017, a situação aparentemente estável do mico-leão-dourado, com uma população crescente desde o início dos esforços de conservação, sofreu seu primeiro baque: a febre amarela. Um novo surto da doença na área de ocorrência do mico reduziu a população de micos-leões-dourados de 3.700 para 2.500 indivíduos. A morte de 1.200 micos, o equivalente a 32,4% ou praticamente um terço da população, acendeu o alerta vermelho sobre o caráter ainda vulnerável da espécie.

A situação foi particularmente trágica na Reserva Biológica de Poço das Antas, onde a população de micos foi praticamente dizimada e reduzida a apenas 33 indivíduos, uma fração dos 380 micos que viviam na reserva.

“A gente sabe o que precisa ser feito para salvar a espécie. Mesmo assim, o evento da febre amarela mostrou que a nossa vulnerabilidade ainda é muito grande, especialmente com uma população pequena numa área pequena. Poderia ter dizimado tudo”, pondera Luís Paulo Ferraz.

Para superar a doença, a saída era clara: a imunização dos primatas – tanto humanos quanto não-humanos. Se para nós, a vacina contra febre amarela já está disponível há mais de 80 anos, para os pequenos micos essa ainda não era uma opção em 2017. 

Vacinar animais silvestres é um tema relativamente polêmico, porque significa interferir nos ciclos naturais de vírus e parasitas. Devido à fragilidade do mico-leão-dourado para doença e do risco da espécie desaparecer da natureza se ocorrer um novo surto, os pesquisadores entraram em consenso: pelo menos uma população mínima de segurança deveria ser vacinada para garantir que, se a doença atacar novamente, haverá pelo menos um número de indivíduos suficiente para recomeçar os esforços de conservação da espécie.

A vacina foi desenvolvida pelo pesquisador da Fiocruz, Marcos Freire, com apoio do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ). Os testes para elaborar o imunizante foram feitos com um dos “primos” do mico-leão-dourado, o mico-leão-da-cara-dourada, já que havia uma população excedente deles em cativeiro, sem chances de reintrodução na natureza. Como todos os micos-leões compartilham uma biologia parecida, a vacina elaborada com base no cara-dourada também provou-se eficaz para o dourado.

Em novembro de 2020 teve início a campanha pioneira de vacinação dos micos-leões-dourados, com a meta de vacinar pelo menos 400 micos até o final de 2022. Atualmente, cerca de 200 micos já foram imunizados contra a febre amarela.

Leia mais: Pesquisadores iniciam vacinação contra febre amarela em mico-leão-dourado

Até o momento, com exceção dos animais em cativeiro no CPRJ, o mico-leão-dourado é a única espécie que está sendo vacinada contra a febre amarela.

Mico-leão-preto: esquecido, reencontrado, ilhado

A redescoberta do mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), espécie nativa da Mata Atlântica do estado de São Paulo que não era registrada pela ciência desde 1905, colocou, em definitivo, o nome de Coimbra no campo da primatologia,  brasileira e mundial. 

Considerado extinto até ser reencontrado, o mico-leão-preto está ilhado em fragmentos no interior de São Paulo. Foto: Luciano Candisani

O mico, descrito pela primeira vez em 1823, deixou de ser visto à medida em que a floresta foi ao chão. Em 1905, um exemplar masculino foi coletado e doado ao Museu Paulista por Olavo Hummel, chefe de uma das expedições científicas da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo. A instituição já contava com três espécimes de micos-leão-preto em seu acervo. Depois disso, por 65 anos, não houve novos registros sobre o animal e desconfiava-se que a espécie estava extinta. Até Álvaro Aguirre ver um casal taxidermizado em uma loja e ligar para o colega do Rio que estudava outros  dois micos, o dourado e o da cara-dourada. 

“Os mico-leões-preto estavam esquecidos até esse momento. Essa descoberta fez o Coimbra ficar famoso internacionalmente”, conta Claudio Valladares-Padua, que trabalhou como primatólogo na antiga Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), entre 1980 e 1984. Três anos após a descoberta, Coimbra conseguiu autorização do Serviço Florestal para tirar sete animais da natureza e enviar para o Banco Biológico da Tijuca. Com isso, iniciou-se o primeiro manejo da espécie em cativeiro.  

A barragem no caminho do mico-preto

Na década de 80, com o planejamento energético do estado de São Paulo expandindo a construção de hidrelétricas para o extremo oeste do estado, a área de ocorrência do mico-leão-preto ficou na berlinda. O cientista José Goldemberg ocupava na época a presidência da Companhia Energética de São Paulo (CESP) e chamou para o Departamento de Meio Ambiente e Recursos Naturais da CESP a engenheira agrônoma Maria Tereza Jorge Pádua, que havia entregado o cargo de chefia do Departamento de Parques do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) após o governo decidir construir uma estrada cortando o Parque Nacional do Araguaia. “Os projetos das hidrelétricas já estavam andando quando cheguei à CESP. O que fiz foi comunicar ao Goldenberg que uma das áreas tinha micos-leões-pretos”, explica Maria Tereza. 

A solução, inédita para a época, foi instituir um grupo de trabalho para que a barragem não comprometesse totalmente o habitat do mico e, em consequência, a sobrevivência da espécie. Mérito que Maria Tereza atribui ao senso científico de Goldenberg – que não apenas não se opôs, como não apresentou entraves orçamentários à empreitada –, aos engenheiros de São Paulo, “pessoas sérias”, ela explica, e ao Coimbra Filho, que liderou o grupo. “Tudo foi tocado por ele, o maior especialista, sem sombra de dúvida”.

“Foi talvez a primeira iniciativa de compensação ambiental feita”, conta Cláudio Valladares-Padua, ao lembrar do episódio. Nessa mesma época, Padua, que era integrante da equipe de Coimbra no levantamento da população que seria atingida pela barragem, resolveu transformar a conservação do mico-preto em seu tema de mestrado. 

Os estudos sobre o mico avançaram por causa da construção da Usina Hidrelétrica de Rosana e acelerou o plano de transformar o Morro do Diabo, que já era uma reserva no papel desde 1941, em unidade de conservação. Em 1986, foi criado o Parque Estadual Morro do Diabo, com 33 mil hectares. Dezesseis anos depois, em 2002, foi decretada a proteção de mais 6,6 mil hectares, distribuídos em quatro fragmentos que formam a Estação Ecológica do Mico-Leão-Preto: Santa Maria, Água Sumida, Ponte Branca e Tucano.

Dos quatro fragmentos, atualmente só há micos-pretos no fragmento de Ponte Branca. A população que antes era registrada no fragmento de Tucano não foi mais encontrada. Nos outros dois fragmentos, não há a presença da espécie. Corredores ecológicos são a aposta para interligar essas ilhas de florestas e, no futuro próximo, a ideia é reintroduzir micos nesses locais. 

“Oitenta por cento da população de mico-leão-preto está localizada no Morro do Diabo e os outros vinte por cento estão distribuídos em fragmentos menores”, explica Gabriela Cabral Rezende, que atualmente coordena o Programa de Conservação do Mico-Leão-Preto, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). 

O animal, que originalmente já era restrito, foi extinto em áreas onde antigamente ocorria, como a bacia do rio Tietê. “Atualmente a única população viável [que se mantém sozinha] está no Morro [do Diabo], estimada em 1.200 indivíduos. A partir disso, pensando estrategicamente em como, de fato, melhorar o estado de conservação da espécie, temos a intenção de trabalhar agora com a população do Médio e Alto Paranapanema, pensando em ter uma segunda população viável, porque o que a gente tem na região do Médio e Alto são populações pequenas e isoladas”, explica.

As populações de entorno, ilhadas em pequenos fragmentos florestais, estão sendo conectadas por corredores ecológicos, uma política promovida pelo IPÊ desde a década de 90.

“Eu tinha um conhecido que tinha uma fazenda ao lado do Morro do Diabo, e ele tinha fragmentos com mico-leão-preto. Pedi a ele para que não fizesse nada na fazenda e ele me prometeu que não faria. Um dia, os irmãos dele me chamaram falando que tinham cortado o fragmento naquela noite e que tinha uma árvore com cinco micos, que eu tinha que ir para lá resgatar. Fui, os animais foram parar no Zoológico de São Paulo… mas eu aprendi uma lição: não adianta eu saber tudo sobre mico-leão se eu não conseguir resolver a situação do habitat, a situação das pessoas que estão ali, a situação dos proprietários de terra, aí surge o modelo IPÊ de Conservação por conta disso”, explica Padua. 

A estimativa do IPÊ é que haja de 500 a 600 micos-leões-pretos espalhados em dezenove fragmentos. “São populações pequenas. Há fragmentos com vinte micos, com cinco, com quarenta micos… São justamente essas populações menores o meu maior foco de interesse, os que de fato a gente tem que trabalhar para salvar, seja através do manejo, seja através dos corredores”, explica Gabriela Rezende. 

As possibilidades de manejo abrangem estratégias que vão desde conectar populações até translocar animais de um fragmento a outro, para ajudar a espécie a atingir a diversidade genética que o isolamento geográfico limitou.

APPs e micos: um futuro incerto

O mico-leão-preto tem preferência por áreas de mata ripária, a vegetação que cresce nas bordas dos rios, também conhecida como mata ciliar. A região do Alto Paranapanema possui muitos rios, já a vegetação que os acompanhavam, foi quase toda desmatada. Em teoria, as matas ciliares são protegidas pelo Código Florestal e classificadas como Área de Preservação Permanente (APP). O plano de reconectar fragmentos através da recomposição das APPs é uma estratégia que o IPÊ chama de mapa dos sonhos e alinha uma obrigação legal com a conservação do bicho que usa o espaço. Uma oportunidade que Gabriela Rezende teme perder, com a recente flexibilização das regras de APP em área urbana, que passaram a ter suas faixas definidas pelos municípios. “Só pelos rios a gente conseguiria conectar todas as populações dessa região. Então agora a questão são essas novas mudanças na lei. Isso pode trazer uma certa complicação, porque até então a gente sabia que trabalhando com reconstituição de APP, a gente conseguiria conectar tudo”, diz.

Mico-leão-da-cara-dourada: entre cabrucas e fragmentação

O mico-leão-da-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas), também conhecido como mico baiano, foi o que melhor se adaptou à intervenção humana na paisagem. Essa característica chamou atenção dos pesquisadores, que por muito tempo acreditaram que o mico-baiano, como as três outras espécies de mico-leões, necessitava de um ambiente maduro de floresta bem conservada para sobreviver. Quando ficou provado que o cara-dourada vivia relativamente bem em área de mata antropizada, a forma de estudá-lo e os esforços de conservação foram reformulados. 

Estudos recentes mostram que o mico-leão-da-cara-dourada vem enfrentando diversas extinções locais e corre risco cada vez maior. Foto: Ltshears/Wikimedia

“De maneira geral, a gente pode dizer que a espécie vive bem em ambiente de mata madura, claro, é o ambiente original dela, e vive bem em ambientes antropizados. E se reproduz muito bem nas cabrucas [plantação de cacau feita sobre a sombra de árvores nativas], têm densidades populacionais altas em determinados tipos de vegetação com características bem diversas e utiliza uma diversidade grande de árvores”, explica Leonardo de Carvalho Oliveira, diretor científico do Bicho do Mato Instituto de Pesquisas e coordenador brasileiro da Iniciativa para Conservação do Mico-leão-Baiano (ICMLB).

A adaptação fez o mico-baiano ter, por um tempo, a situação considerada mais confortável entre seus primos próximos, mas a espécie também lida com a mata fragmentada e a perda de habitat. Se até 2020 os pesquisadores consideravam que as condições do bicho eram seguras o suficiente para reduzir o nível de ameaça – atualmente classificada como Em Perigo – para a categoria Vulnerável, a menos pior da lista vermelha, novos dados indicam que o cenário é mais preocupante do que se pensava.  

Orientando de Oliveira, que também é professor da UERJ e da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), o pesquisador Joanison Vicente dos Santos Teixeira está refazendo as estimativas populacionais em seu doutorado, usando a mesma metodologia dos levantamentos feitos em 1994 e 2007. Se na década passada se pensava que havia entre 15 a 20 mil indivíduos na natureza, os dados preliminares indicam que a situação da espécie piorou e uma mudança de status já não é mais aconselhável. 

Em algumas localidades onde havia mico baiano, nem o fragmento florestal existe mais. Em outras, o fragmento existe, mas sem sinais dos micos. Não se sabe se por doença ou fome, mas o grupo que existia lá desapareceu. “Quando o fragmento é muito pequeno, ocorre o que a gente chama de efeito de borda. Clima, vento e sol fazem as árvores serem expostas a borda e elas acabam morrendo. Os recursos que estão ali desaparecem, a planta para de frutificar. Como não tem fruto, não tem comida e, por consequência, não tem bicho”, explica Leonardo Oliveira.

O resultado alarmante percebido pelos pesquisadores é que o cara-dourada sofreu diversas extinções locais na porção sudoeste da Bahia e noroeste de Minas Gerais. O animal, que apesar de chamado de baiano também tinha um pezinho mineiro, já é considerado extinto no estado.

Os pesquisadores estimam que a área de vida mínima para um mico-leão-da-cara-dourada seja um fragmento de 40 hectares de mata. É o mínimo, mas não é suficiente para manter a existência no longo prazo de um grupo de micos. Quanto menor a porção de floresta, mais suscetível o mico fica à escassez de recursos para se alimentar e menos propenso a reproduzir e perpetuar a espécie.

“Há perda e fragmentação. Temos a retirada da floresta e a separação de fragmentos. Quando se tira a mata, seja por estrada, empreendimentos lineares, uma série de ações humanas, você isola populações em ambientes muito pequenos, que muitas vezes não têm recursos suficientes”, completa Oliveira. 

Durante muito tempo, a estratégia de conservação do mico-leão baiano estava fragmentada em pesquisas acadêmicas pontuais no território e suas conexões com a população local, que acabaram adotando a ideia de proteção dos bichos (ver linha do tempo). Em 2019, já com o diagnóstico de perda de habitat e substituição das culturas de cacau – ambiente dos micos por causa do sistema das cabrucas – por outras produções, os especialistas, liderados pela bióloga Kristel de Vleeschouwer, fizeram um workshop para lançar a iniciativa de proteção do mico-leão-da-cara-dourada. 

“Começamos a discutir a necessidade de criar algo. Já que tem a Associação Mico-leão-dourado [que cuida do mico-leão-dourado], você tem o IPÊ [que cuida do mico-leão-preto], você tem a SPVS [que cuida do mico-leão-da-cara-preta], e aí o da cara-dourada, que está em melhor situação, a gente não pode deixá-lo entrar em uma situação ruim para aí criar alguma coisa” diz Leonardo Oliveira. 

Foi dada a largada para a iniciativa de conservação do mico-leão-baiano, que ficou dividida em seis estratégias principais, sendo metade os pilares e a outra metade de suporte. “A gente criou uma visão para essa iniciativa de manter e ter as populações sustentáveis e conectadas dos micos-leões-baianos vivendo dentro e entre as unidades de conservação. Essas ações serão apoiadas por essa rede de atores que estão envolvidos, direta ou indiretamente, com o mico-leão. Nisso, a participação da população local é essencial. A gente tem muitas áreas ali que são unidades de conservação, mas o restante é propriedade particular, rural”, diz.

Um dos objetivos é acelerar a regularização fundiária, tanto das unidades de conservação, quanto nas propriedades e assentamentos rurais. “A averbação de reserva legal, áreas de APPs [áreas de preservação ambiental, como topo de morros e beira de rios, protegidas pelo código florestal], tudo isso é essencial. Não adianta falar que a espécie está dentro da unidade de conservação, se ela não é efetiva de fato, e a efetivação dessas unidades passa por essa regularização fundiária. A gente tem uma estratégia, que me enche os olhos, porque é voltada nas cabrucas, é a estratégia de valorização da terra, território e cabruca, que, na verdade o objetivo é manter a conectividade funcional das cabrucas, mantendo as cabrucas como estão, nas áreas. Mas, principalmente, resgatando o valor. A viabilidade econômica dela, a viabilidade ecológica e, principalmente, o resgate cultural da cabruca. Trazer de volta o orgulho daquelas pessoas de ser cabruqueiro, de ser produtor de cacau”.

Outras estratégias envolvem recursos políticos, financeiros e de comunicação. O objetivo é dar transparência às ações e, principalmente, trazer a população como grande aliada: “Acreditamos que a sobrevivência do mico-leão-da-cara-dourada depende do povo baiano. E é um símbolo para o Estado da Bahia, assim como o mico-leão-dourado é fluminense”, explica Leonardo.

Ameaçado na Bahia, invasor no Rio de Janeiro

No início da década de 1990, dois casais de micos-leões-da-cara-dourada e um casal de mico-leão-dourado foram soltos na região da Serra da Tiririca, em Niterói, no Rio de Janeiro. Os bichos eram mantidos como pets por um veterinário que, idoso, achou por bem soltar na mata próxima de casa. Quase 20 anos depois, essa soltura transformou-se numa dor de cabeça e num total de quase mil indivíduos de micos-leão-da-cara-dourada retirados dessa localidade. Do mico-leão-dourado não se sabe que fim teve. 

“Em Niterói, os micos [da-cara-dourada] se reproduzem como coelhos”, conta a pesquisadora Cecília Kierulff, que desde 2009 coordena um programa de captura e relocação dos invasores, tarefa inglória que Cecília trata com bom humor. A estimativa é que já foram realocados, desde 2011, cerca de 986 micos-leões-da-cara-dourada 

Acostumado com a escassez de florestas estacionais semideciduais da Bahia, em Niterói a espécie encontrou fartura o suficiente para procriar sem limites. “Há muita fartura de jaca, de insetos e de frutas que o mico come na Serra da Tiririca”, explica Cecília. 

Isso não seria problema se não ocorresse o perigo da espécie invadir a área do mico-leão-dourado e colocar em risco 40 anos de esforços de conservação.

“Imagina só se essa população encontra com o mico-leão-dourado? Teremos um problema sério, pois eles hibridam [reproduzem e misturam os genes, dando luz a espécies híbridas], isso já foi mostrado em cativeiro, pelo Coimbra-Filho. Eles hibridam e não tem volta. Hibridou, do ponto de vista de conservação, você praticamente perde as duas espécies”, provoca Leonardo Oliveira. “Espécie invasora, independente se ela estiver em extinção, tem que ser tratada como espécie invasora, e temos que retirar esse indivíduo do ambiente introduzido para evitar problemas com a espécie nativa”, acrescenta.

Mico-leão-da-cara-preta: o desconhecido ilhado 

Ao contrário dos seus primos, o mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) ou mico caiçara é relativamente novo aos olhos da ciência. Sua descoberta ocorreu apenas em 1990, registro feito pelas pesquisadoras Vanessa Persson e Maria Lúcia Lorini. Até então, havia apenas rumores de que havia um mico semelhante ao mico-leão-preto na região de Guaraqueçaba, no Paraná. 

Quando finalmente foi descrito, levantou-se a hipótese de que era uma variação do Leontopithecus chrysopygus. Estudos posteriores, um em 1999 e outro em 2008, descartaram se tratar de uma subespécie e confirmaram a nova espécie.

A área de ocorrência do mico-leão-da-cara-preta representa um paradoxo. Ao mesmo tempo em que vive na maior faixa contínua de Mata Atlântica que sobrou no Brasil – um luxo comparado aos outros micos –, o cara-preta está literalmente ilhado. Isso porque sua área de ocorrência foi fragmentada pela abertura de um canal artificial, para conectar o porto de Guaraqueçaba e Paranaguá, no litoral paranaense, ao interior de São Paulo. 

O último a ser descoberto, ainda há muitas incógnitas sobre o mico-leão-da-cara-preta e suas populações. Foto: Elenise Sipinski/SPVS

O Canal do Varadouro é um canal artificial que começou a ser aberto no início do século XIX e foi finalizado em 1953, separando Superagui do continente. Sua abertura dividiu, com uma barreira aquática intransponível para um pequeno primata, a população de micos que vive em Superagui do resto da espécie que permaneceu no continente, distribuída do lado paulista do canal, no município de Cananéia, e no lado paranaense, no município de Guaraqueçaba.  

Por ter sido o último a ser descoberto, ainda há muitas incógnitas sobre o mico-leão-da-cara-preta. Uma delas é: porque diante de uma extensão florestal tão grande, a população permanece pequena? A pergunta prioritária, entretanto, precede qualquer outra: afinal, quantos micos-leões-da-cara-preta existem na natureza?

Entender o tamanho da população é uma das prioridades da pesquisadora Elenise Sipinski, responsável técnica pelo projeto de conservação do mico-leão-da-cara-preta, que desde 2018 é conduzido pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental). 

O último levantamento populacional da espécie foi feito em 2002, pelo pesquisador Alexandre Túlio Amaral Nascimento e parceiros, que estimaram que existiam 392 indivíduos na natureza. 

“O que a gente quer hoje é saber onde estão esses grupos, como eles estão se relacionando, se a população vem se mantendo pelo menos. E se, por acaso, no futuro seja preciso fazer algum trabalho ex situ [manejo em cativeiro], a gente tenha os animais já mapeados na região”, explica Elenise. 

As dificuldades são muitas. A primeira é que os grupos de micos caiçaras podem usar uma área de vida de até 300 hectares, o que dificulta a localização e o acompanhamento dos grupos. A segunda é que a pandemia limitou os trabalhos em campo e atrasou os levantamentos. Até o momento já foram identificados oito grupos, alguns já monitorados por armadilhas fotográficas [câmeras fotográficas que disparam quando captam movimento] instaladas em Ariri e Superagui. Até o final do ano, a ideia é que ao menos um grupo de micos caiçaras seja capturado para a coleta de amostras biológicas (para, entre outras coisas, saber se a espécie teve contato com o vírus da febre amarela) e a inclusão de colares transmissores.

Não há população de segurança

Embora considerado de baixa densidade populacional, o mico-leão-da-cara-preta é dos micos com a situação mais confortável em relação ao seu habitat, apesar da divisão entre as populações do continente e da ilha. Mora em uma área ainda preservada – mais pelo isolamento do que por mérito humano – e tem espaços para crescer. Atualmente, sua principal ameaça é seu habitat ser atingido por eventos extremos, como ventanias e tempestades extratropicais – em 2018 um ciclone devastou uma área de 2 mil hectares onde havia presença de grupos de micos –, além de doenças como a febre amarela. 

“Bugios morreram na área [de ocorrência do mico caiçara], mas não encontramos nenhum mico-leão-da-cara-preta morto. Vamos ter que analisar para saber se os micos tiveram contato com a doença”, explica Elenise. 

A grande preocupação dos primatólogos com eventos impactantes na área do mico-leão-da-cara-preta é a ausência de indivíduos desta espécie em cativeiro. Das quatro espécies de micos, o caiçara é o único que não está em zoológicos ou centros de primatologia e não possui população de segurança ou reserva, como chamam os pesquisadores. Basta uma doença como a febre amarela para varrer a espécie do planeta, sem chance de reposição. 

“Os animais estão na natureza e o que acontecer na natureza será definitivo para eles. Atualmente não tem como fazer reintrodução, translocação, revigoramento. O que aconteceu com o mico-leão-dourado, por exemplo, que é um caso emblemático de um trabalho de longo prazo de translocação, não é possível atualmente com o cara-preta”, explica a pesquisadora.

A decisão de ter uma população em cativeiro é recente, foi tomada em agosto de 2021 em uma oficina do Plano de Ação da espécie, e há ainda um longo caminho de planejamento pela frente. Não se pode retirar da natureza um número de indivíduos que vá prejudicar a sobrevivência do bicho na natureza. Quantos tirar, de qual localidade, em qual idade e em qual época os pesquisadores só saberão responder com mais dados. Por enquanto, o levantamento populacional segue no topo da prioridade, já que essa informação precede toda decisão sobre o manejo.  

“O importante é você ter subsídios para planejar isso [retirada de animais da natureza]. Se for fazer, qual a melhor forma de se fazer, para ser menos impactante na natureza”, explica a especialista. 

Ação conjunta pela conservação dos primatas

A tarefa de avaliar, reavaliar e acompanhar o animal faz parte do Plano de Ação Nacional (PAN) de conservação, uma prerrogativa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), através do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB). Reavaliar a espécie e acompanhar sua área de ocorrência é uma das tarefas mais importantes do plano. 

“Um dos principais objetivos do PAN é garantir áreas para manter o mínimo de população viável na natureza para garantir que espécies vão continuar existindo pelos próximos 50, 100 anos no mínimo”, explica a coordenadora do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica e da Preguiça-de-coleira, Mônica Montenegro, analista ambiental do ICMBio. O PAN abrange 14 espécies de primatas – entre elas todos os quatro micos – além da preguiça.

De acordo com Mônica, o grande desafio da Mata Atlântica continua sendo o de compatibilizar a urbanização ainda crescente e a proteção dos poucos fragmentos que sobraram. “É onde estão as nossas grandes cidades, onde vive 70% da população, onde estão os grandes parques brasileiros… A maioria das espécies de primatas ameaçados são da Mata Atlântica e o desafio para as espécies que sobraram no bioma é ter que viver ao lado das pessoas, da urbanização. E a destruição não parou. Todo ano ainda tem desmatamento, por mais que numa taxa menor do que nos outros biomas, mas agravado pelo fato de que a Mata Atlântica já teve uma perda gigantesca no passado”, pondera.

A coordenadora reforça que para garantir a conservação dos primatas é fundamental garantir e conectar o seu habitat. “O primeiro objetivo da maioria dos planos de ação é sempre o habitat, que é a grande ameaça para os primatas, porque são bichos de floresta. Eles precisam da mata em pé e que tenham caminhos entre as matas, já que não temos mais grandes contínuos florestais. Eles precisam ir de uma área para outra, trocar indivíduos, trocar genes e a gente precisa proporcionar – já que a gente tirou – essa conectividade”, aponta Mônica.

O projeto Mata Atlântica: novas histórias é apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

  • Daniele Bragança

    Repórter e editora do site ((o))eco, especializada na cobertura de legislação e política ambiental.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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Comentários 1

  1. Primatólogo diz:

    Falaram de primatas e não chamaram o Leandro Jeruzalinski pra falar??? Isso deveria ser crime contra a humanidade…