Mamãe urso cuida dos dois filhotinhos de um jeito quase humano. Brinca, limpa, acaricia. Não fosse o sangue de coelho sujando os focinhos dos bichos, que acabam de devorar animadamente a presa, dava até para recordar alguns momentos da sua infância. As imagens de “O Planeta Branco”, que estréia nesta sexta-feira, dia 5 de janeiro, nas telas brasileiras, têm um quê de “A marcha dos pingüins”, mas agora é hora de darmos uma olhada na vida selvagem do outro pólo terrestre: e nesse filme o que não falta é vida, revelada nas imagens grandiosas de um Ártico surpreendente.
Ao contrário do que acontece no documentário-sensação de 2005 sobre os pingüins imperadores, aqui não há foco em uma só espécie. São muitos os bichos diferentes mostrados. É como se os diretores dissessem: “Olha quanta coisa bonita tem aqui! E está tudo ameaçado!”. Essa ameaça é o único elemento que dá unidade ao filme, que tem estrutura bastante simples: perfilam-se imagens gravadas na região enfeitadas por um texto lido em voz over e música. Alguns dirão que isso não é suficiente para amarrar a fita. Pode ser. Mas o fato é que o filme aparece num momento mais que oportuno, e talvez seja isso que lhe dê maior valor.
Se é para comparar com a leva recente de filmes sobre o meio ambiente, a definição mais fácil de “La Planète Blanche” (no original) é que ele é uma mistura do filme dos pingüins com “Uma verdade inconveniente” – a palestra filmada de Al Gore sobre aquecimento global. Os diretores fraceses Jean Lemire, Thierry Ragobert e Thierry Piantanida tiraram de um as imagens de bichos capturadas com esmero e de outro a vontade de protestar contra as mudanças climáticas. O resultado é um documentário que estimula a conscientização pelo conhecimento. Não é necessário presenciar a riqueza natural do Ártico para se importar com ele – mas ver um urso polar tentando se equilibrar sobre finos pedaços de gelo ajuda a querer protegê-lo, isso ajuda. Também não é a proposta do filme ser uma exposição didática sobre a vida nas imediações do Pólo Norte, se vestindo de programa do Discovery Channel. Longe disso. O interesse maior dos cineastas está na beleza estética dos animais em suas migrações, nados, descansos, vôos. O texto lido pelo médico e explorador Jean-Louis Étienne complementa as imagens com informações interessantes. Mas a aposta é mesmo na força das imagens, acompanhadas de uma trilha sonora grandiosa, quase épica: milhares de renas migrando juntas, com seus chifres esquisitos, em busca de comida; pássaros mergulhadores, voando debaixo d’água; uma briga de búfalos; morsas, muitas, tomando sol numa praia, empilhadas.
Atualidade
As sombrias previsões sobre o futuro do Ártico têm aparecido com freqüência no noticiário ambiental. O último grande estudo, publicado no início de dezembro, revelou que todo o gelo pode desaparecer de lá, durante o verão, em 2040. E semana passada mesmo noticiou-se o desprendimento de uma enorme plataforma de gelo de uma ilha ao norte do Canadá. O bloco não resistiu ao forte calor na região em 2005 e se soltou completamente em apenas uma hora. Ela tem o tamanho de Manhatan e, depois de 3 mil anos fixada no mesmo lugar, agora flutua pelo Oceano.
Também há alguns dias noticiou-se a proposta norte-americana de incluir os ursos polares em sua lista de animais ameaçados. A idéia não condiz muito com a atual política dos Estados Unidos no combate ao aquecimento global. Mas tem o mérito de botar os mamíferos no centro das atenções do mundo selvagem. E se há um protagonista em “O Planeta Branco”, ele é o urso polar. Os únicos “personagens” mais ou menos individualizados, que voltam a aparecer várias vezes em diferentes momentos do filme, são a mamãe urso e seus dois filhotes.
O urso é quem mais provoca simpatia no espectador, talvez porque seja o mais urgentemente ameaçado. Ele caça nas banquisas – imensos campos de gelo flutuante –, que a cada ano são menores devido ao calor mais intenso. Segundo uma reportagem publicada há alguns dias no The New York Times, a população total de ursos polares está entre 20 e 25 mil animais divididos em 19 grupos na Rússia, Dinamarca, Noruega, Canadá e Estados Unidos. Estudos já indicam uma queda nesse número: a população mais estudada até agora, no Canadá, caiu 22% entre 1987 e 2004. E cientistas dizem que todas devem despencar daqui para frente.
De boca abertaO documentário, de 86 minutos, não se preocupa em explicar nem resumidamente o que é o fenômeno do aquecimento global e por que o homem é causa preponderante no derretimento do gelo no Ártico. Ele só aponta isso, muito rapidamente, em duas curtas passagens na segunda metade do longa, quando diz que a vida na região está ameaçada. A platéia precisa ter certo conhecimento anterior sobre as mudanças climáticas para entender a complexidade do que se passa na tela. Em todo o caso, explicação é o que menos se encontra em “O Planeta Branco”. Nem é o que o filme se propõe a fazer. O que ele quer, consegue: deixar todo mundo de queixo caído com a diversidade da vida no Ártico, sensibilizado com o fato de que, se o homem continuar levando as coisas da forma como tem feito hoje, pode tudo simplesmente sumir do mapa.
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