Desde que eu soube que o bioma mais ameaçado do Brasil, e paradoxalmente um dos maiores berços de biodiversidade do planeta, está com menos de 8% de sua distribuição original, comecei a me referir a ele como Floresta Atlântica. Vai que esta história de chamá-la de Mata empolga o pessoal a continuar sua matança…
Mas na contramão dos que levam “o nome ao pé da letra”, em 27 de maio foi celebrado, em São Paulo, o Dia Nacional da Mata Atlântica , com uma série de eventos, palestras, debates, livros e outras atividades, juntando as milhares de pessoas que acreditam ser possível reverter a situação minguada desta floresta que margeava toda a costa brasileira. Sua situação é polêmica e muitos apregoam sua devastação aos colonizadores portugueses; já Evaristo de Miranda cita, no livro “Natureza, Conservação e Cultura: ensaio sobre a relação do homem com a natureza no Brasil” e no qual fui autor fotográfico, diversos estudos que apontam o desmatamento da Mata Atlântica como um fenômeno do século XX. Ressalta ainda que entre 1985 e 1995 este bioma perdeu mais de 1 milhão de hectares, 11% de seus remanescentes e mais do que toda a área explorada ao longo do período colonial. O fato é que esta floresta fantasticamente cênica para se fotografar esteve no caminho do desenvolvimento urbano desde a época do achamento do Brasil: beira-mar, solo fértil, madeiras nobres, vistas grossas, descaso, animais e plantas raras, e no local propício para a expansão agrícola da cana-de-açúcar e do cacau. Deu no que deu!
A Floresta Atlântica é um dos palcos mais fascinantes para ‘olhos-através-das-lentes’, e um dos lugares mais difíceis de se fotografar, pois tudo é mistério. A pouca luz entre a vegetação densa se dispersa na fina névoa que envolve as árvores, cipós e arbustos – doce respiração da vida; uma monocromia verde confunde a tridimensionalidade da cena, os (poucos) macacos curiosos na copa das árvores dão sinais de existência, mas protegidos pelo contra-luz do céu esparso entre as folhas, e que ofusca o olhar do visitante, reinam imponentes nas alturas.
Pássaros minúsculos estão ali, endêmicos; surgem do nada, cantam escandalosamente durante alguns minutos e somem sem deixar vestígios. E você ansiosamente, arma um torcicolo de tanto olhar para cima. Insetos, anfíbios, fungos e liquens criam um verdadeiro e enigmático mundo menor, um fractal do grande cenário. A temperatura sempre constante acolhe e umedece. O silêncio acorda os pensamentos e as revelações. Os sussurros das brisas caminham sobre os córregos e anunciam a grande cachoeira. Mamíferos terrestres, num golpe de sorte, são vistos cruzando alguma estrada, na beira de uma lagoa no alcançar da madrugada, ou descansando sob o sol fraco da manhã; por isto não se iludam com longas histórias justificando fotografias fantásticas e luzes perfeitas em retratos de animais raros. Como tudo que é mistério, na Floresta Atlântica deve-se pedir permissão para entrar, ver por aquela fresta dos olhos, quando deixamos de olhar, e agir pela intuição. Afinal, o que é a fotografia senão o não-olhar, mas ver com a janela da alma?
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Clima avança no papel, mas estados falham na execução, aponta estudo
Anuário mostra que, apesar de progressos, desigualdades entre estados, gargalos institucionais e falta de adaptação ampliam riscos e prejuízos diante de eventos extremos →
Conferência sobre fim dos fósseis aposta em “coalizão de ação” fora da ONU
Fora do formato das COPs, encontro aposta em coalizão de países para avançar na implementação da agenda climática →
Destinação inadequada de lixo freia meta de biometano prevista para 2026
Com 3 mil lixões ativos, Brasil desperdiça 28 milhões de toneladas de lixo por dia que poderiam virar biometano se fossem corretamente destinados →
