Salada Verde

Amazônia: jornalista que denunciou grilagem é condenado

Lúcio Flávio Pinto foi condenado por chamar empresário de “Pirata Fundiário” em uma história sobre grilagem que foi confirmada pela justiça.

Daniele Bragança ·
23 de fevereiro de 2012 · 14 anos atrás
Salada Verde
Sua porção fresquinha de informações sobre o meio ambiente

 

Lúcio Flávio, de óculos, na redação do Jornal Pessoal. Jornalista foi condenado pela justiça por ofender empresário. Foto: Jornal Pessoal
Lúcio Flávio, de óculos, na redação do Jornal Pessoal. Jornalista foi condenado pela justiça por ofender empresário. Foto: Jornal Pessoal

Parece um conto kafkiano, mas é real e está acontecendo no Brasil. Um jornalista escreve uma série de reportagens sobre um grande esquema de grilagem de terras na Amazônia. Através de sua denúncia, ficou comprovado o uso de registros falsos na tentativa de regularizar a posse de cinco milhões de hectares de terras públicas. Os registros são cancelados pela justiça. O dono da empresa denunciada pela grilagem processa o jornalista, não por um erro na matéria, mas porque se sentiu ofendido ao ser chamado de “pirata fundiário” em um artigo publicado em 1999. Passados 7 anos, o jornalista é condenado a indenizar a família do ofendido por dano moral.

O jornalista desta história é Lúcio Flávio Pinto, talvez o mais importante repórter da Amazônia. O implicado na grilagem é Cecílio Rego de Almeida, morto em 2008, dono da Construtora C. R. Almeida, uma das maiores empreiteiras do país. A história que Lúcio começou a apurar em 1996 é redonda, nenhum erro foi encontrado na sua denúncia. Com a fraude descoberta, a Justiça Federal determinou em 2007 que a Incenxil (Indústria, Comércio, Exportação Navegação do Xingu Ltda), uma das empresas do Grupo C. R. Almeida, se retirasse das terras registradas ilegalmente no vale no rio Xingu, no Pará. Em 2011, saiu a anulação final dos registros imobiliários fraudulentos. A outra consequência da denúncia foi a demissão por justa causa de todos os funcionários do cartório de Altamira envolvidos na fraude.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



A decisão definitiva do caso foi dada pelo juiz federal Hugo da Gama Filho em 14 de outubro de 2011, que além de cancelar os registros imobiliários, também determinou que parte da área ocupada ilegalmente fosse devolvidas às tribos indígenas que detêm a legítima posse da área. Para dar uma ideia, a área de 5 milhões de hectares é 150 vezes maior do que o município de Belo Horizonte.

Mas o processo por dano moral contra Lúcio Flávio, em paralelo, seguiu os trâmites da Justiça paraense e o jornalista foi condenado em 2006 a pagar 8 mil reais de indenização aos herdeiros de Cecílio Rego de Almeida, condenação que o réu considera ilegal: “Mesmo tendo provado tudo que afirmei na primeira matéria e nas que a seguiram, diante da gravidade do tema, fui condenado, graças a outro ardil, montado para que um juiz substituto, em interinidade de fim de semana, pela ausência circunstancial da titular da 1ª Vara Cível de Belém, sem as condições processuais para sentenciar uma ação de 400 páginas, me condenasse a pagar ao grileiro indenização de 8 mil reais (em valores de então, a serem dramaticamente majorados até a execução da sentença), por ofensa moral”, afirmou o jornalista em nota no seu Jornal Pessoal e reproduzido no site do Observatório de Imprensa.

Banner feito pelo cartunista Luiz Pinto, do Jornal Pessoal, para a campanha em favor de Lúcio Flávio
Banner feito pelo cartunista Luiz Pinto, do Jornal Pessoal, para a campanha em favor de Lúcio Flávio
  • Daniele Bragança

    Repórter e editora do site ((o))eco, especializada na cobertura de legislação e política ambiental.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
31 de março de 2026

Desmatamento cai em fevereiro e é o menor desde 2017

SAD registra menor índice para o mês em oito anos. Pará, Amazonas e Acre lideram o ranking no período. Degradação também diminuiu no período

Salada Verde
31 de março de 2026

Papa nomeia Carlos Nobre para conselho do Vaticano e reforça agenda climática

Cientista brasileiro reconhecido por estudos sobre a Amazônia, Carlos Nobre passa a integrar o órgão estratégico do Vaticano em meio ao avanço da crise climática global

English
30 de março de 2026

Sociobiodiversity as a stronghold that keeps the Cerrado standing

A network of cooperatives brings together different biomes to take small-scale rural products to big markets in Brazil and abroad

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.