Colunas

Chegou a conta do uso sustentável

Foi mais que uma troca de funcionários a demissão do superintendente do Ibama em Rondônia. Com sorte, ela talvez anuncie o fim de uma política de populismo ambiental que fracassou.

30 de julho de 2008 · 18 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

O geógrafo Carlos Minc tomou posse duas vezes no Ministério do Meio Ambiente. A primeira foi em maio, quando substituiu a ministra Marina Silva, meio aos trancos e barrancos. A segunda, esta semana, quando demitiu o superintendente do Ibama Oswaldo Luiz Pittaluga, por contas de pecados funcionais, como doar a um assentamento rural na Amazônia 36 motosserras, duas serrarias e os geradores para tocá-las.

Não que medidas purgativas como essa não acontecessem antes. Ali mesmo, na jurisdição de Pittaluga, seus afilhados do assentamento Joana d’Arc, em Porto Velho, foram multados em R$ 3 milhões, quatro meses atrás – portanto, ainda na gestão de Marina Silva – por desmatar 600 hectares, escancarar as reservas legais para o gado e traficar madeira nativa no mercado paralelo.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Desmatamento bom

Mas eram acidentes de percurso, que não abalavam a determinação de salvar a Amazônia pelas mãos dos assentados da reforma agrária, das populações tradicionais e dos índios. E Minc aproveitou a exoneração de Pittaluga como mecenas do Movimento Camponês Corumbiara, uma espécie de MST em estado feral, para revogar a política vigente no ministério desde 2003. “Dizem que o movimento é parceiro, aliado. Tipo assim: os latifundiários não podem desmatar, mas nossa turma pode. Isso é totalmente contraditório com minha gestão”.

Foi um pequeno passo para o ministro, mas grande para o ministério. Finalmente ele admitiu o que há muito tempo estava atravessado na goela dos ambientalistas que levam a sério a conservação da natureza. Quando entrou em voga, embalada nas utopias de meia confecção da Constituinte de 1988, a opção preferencial dos políticos pelo “uso sustentável” parecia boa demais para ser verdade. Na prática, mostrou-se francamente enganosa. Fora dos gabinetes, o tal do uso sustentável raramente agüentava um exame in loco, por pesquisadores de campo.

Sem falar que, há anos, institutos tecnicamente respeitáveis e politicamente neutros, como o Imazon, de Belém do Pará, passaram a medir seus paradoxos por satélite. Assentamentos, reservas extrativistas e territórios indígenas têm índices de devastação altos demais para se denominar “reservas”, inclusive porque as madeireiras costumam acampar em suas bordas, sabendo qual será o primeiro produto a sair de lá.

O biólogo Fábio Olmos enxergou o que estava acontecendo em Rondônia nos idos de 1998 – quer dizer, dez anos atrás, – quando escolheu a dedo, por imagens de satélite, uma floresta ideal para o estudo da fauna amazônica. No lugar, encontrou uma serra queimada pelas roças da reserva extrativista do rio Ouro Preto. Lá mesmo, viu mais tarde o parque nacional da Serra da Cutia perder 181 mil hectares para 39 moradores, agraciados pelos antropólogos do governo com o título nobiliárquico de população tradicional.

Agora, ratificadas pelos satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, esses dados entraram nas contas de Brasília. Mas, para que entrassem também na retórica do ministro do Meio Ambiente, foi preciso botar Carlos Minc na cadeira de Marina Silva. Ela tem fé. Acredita no extrativismo como verdade sacramentada pelo sangue de Chico Mendes. Duvida de qualquer argumento científico contra suas convicções mais profundas, inclusive de Charles Darwin, quando contraria a leitura textual da Bíblia. Com ela no ministério, a saída de Pittaluga seria, na melhor das hipóteses, um rodízio burocrático. Com Minc, tomara que indique o fim de uma política que fracassou.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
9 de abril de 2026

ATL: Indígenas tomam as ruas de Brasília pedido demarcação

Segunda marcha do Acampamento Terra Livre 2026 reuniu povos indígenas de todo o país nesta quinta-feira (09); Veja fotos

Colunas
9 de abril de 2026

O capitão Kirk e o papagaio engaiolado

A morte do cão Orelha causou indignação nacional. Estamos maduros para falar da morte e cativeiro de milhares de papagaios e outros bichos?

Salada Verde
9 de abril de 2026

Povos indígenas propõem plano global para eliminação dos combustíveis fósseis durante ATL

Documento apresentado durante mobilização em Brasília propõe zonas livres de exploração e coloca territórios tradicionais no centro da estratégia climática global

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.