Colunas

De casa dos loucos a colônia de espertos

A promessa de um “novo bairro”, projeto do PAC para a urbanização da colônia Juliano Moreira no Rio de Janeiro, acaba com as esperanças de conservar a última grande área verde da Zona Oeste carioca.

20 de agosto de 2009 · 17 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

Foto: Fiocruz
Foto: Fiocruz

A prefeitura do Rio de Janeiro anuncia o primeiro choque de desordem da gestão Eduardo Paes. Mas más notícias nem sempre se apresentam nos jornais com nomes próprios. E esta se chama de urbanização da colônia psiquiátrica Juliano Moreira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

É projeto do PAC, o que lhe garante o selo de projeto leviano, populista e eleitoreiro. Começa no mês que vem. Estará a pleno vapor na campanha do ano que vem, para espetar “um novo bairro carioca”, com 1.665 casas populares, numa conta de R$ 200 milhões. Para saber o que a prefeitura entende na prática por “bairro carioca”, basta dar uma volta ao redor dos muros que até agora mantiveram a Juliano Moreira mais ou menos a salvo da normalidade vigente.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Internos e moradores

Foto: Fiocruz
Foto: Fiocruz

A colônia – ou o que sobrou dela – é um dos últimos oásis da Zona Oeste. A loucura conservou-a, enquanto o senso-comum ia estragando irremediavelmente a cidade. Seus antigos hospitais psiquiátricos têm hoje pouco mais de 500 internos. E hospedam 900 sãos que, por terem idéias claras demais, vivem em seus pavilhões arruinados ou seus espaços baldios.

Como sempre que alguém embolsa o que era do governo no Brasil, o projeto consagrará a sagacidade infalível de quem apostou contra a lei para ganhar na certa. Lei é para sem-vereador, sem-deputado ou sem-Ong. No caso, a prefeitura quer premiar funcionários públicos que um dia foram pagos para cuidar daquilo, e preferiram cuidar sobretudo de si mesmos, beneficiando seus descendentes. Um desses herdeiros, aos 35 anos, declarou-se outro dia indignado com a lenga-lenga do governo. Ele quer já, de uma vez por todas, a casa que foi de sua avó. Ela sim foi um dia funcionária do hospício.

Cinco anos atrás, roçou as copas da Juliano Moreira um sopro de razão. Iria para lá o campus Jacarepaguá 1 da Fundação Oswaldo Cruz. Tomaria conta de 5 milhões de metros quadrados, com matas nativas, aos pés do Parque Estadual da Pedra Branca. Deixaria 75% para “preservação, proteção e recuperação florestal”. Tudo isso dentro do Rio de Janeiro. Numa reserva natural regada por nascentes e cachoeiras, com árvores com 30 metros de altura, 200 espécies de pássaros, 80 de mamíferos, 38 de répteis e 12 de anfíbios. Argumentos de sobra para romper a maldição que reduz todo subúrbio carioca a deserto superpovoado, violento e decrépito, marca registrada do modelo que todos os prefeitos acabam, mais cedo ou mais tarde, implantando nos calcanhares da expansão desordenada.

Butim para todos

Fonte: Fiocruz
Fonte: Fiocruz

Venceu a boa e velha política do cada um por si e butim para todos. E “todos”, ali, são indiferentemente pobres ou, pelo menos, remediados. Quando a Fundação Oswaldo Cruz levantou, de porta em porta, a situação dos invasores, encontrou desde miseráveis empilhados em ruínas infectas a moradias clandestinas com asfalto no portão, carro na garagem e renda familiar de cinco salários mínimos (Para conferir a íntegra do estudo preliminar, clique aqui). Ao urbanizar as seis favelas com urgência eleitoral, a prefeitura dificilmente terá a pachorra de refazer cadastros. Mas não custa ouvir o que a vizinhança anda dizendo nos jornais.

O secretário municipal de Habitação Jorge Bittar garantiu na semana passada que seu “novo bairro carioca” preservará a mata e o patrimônio histórico da Juliano Moreira, sucessora de um engenho que pertenceu ao camareiro de Pedro II. Na mesma página, uma aposentada fazia contraponto ao secretário: “Quanto mais moradores tivermos aqui, maior o risco de invasões e queimadas”. Ela pode morar em casa de loucos. Mas o que diz faz sentido.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Análises
20 de maio de 2026

As tentativas de desmonte do monitoramento remoto capazes de frear o combate ao desmatamento no Brasil

Iniciativas recentes buscam minar a confiança construída ao longo de anos nos sistemas de verificação de ilícitos à distância

Notícias
19 de maio de 2026

Bancada ruralista acelera ‘pacote agro’ na Câmara dos Deputados

Proposta aprovada em urgência retira do Ministério do Meio Ambiente parte da competência sobre biodiversidade e fiscalização

Reportagens
19 de maio de 2026

Pernambuco foca em carbono e ignora a urgência das áreas de risco

Enquanto o governo foca no mercado de carbono, o estado acumula 291 mortes e 545 mil desabrigados por desastres desde 1991, com prejuízos que superam os R$ 34 bilhões

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.