Análises

Comendo a Galinha de Ovos de Ouro

Turistas pagam caro para ter uma chance na vida de ver animais selvagens soltos de perto. Mas no Brasil isso é cada vez mais raro. É mais fácil vê-los na panela.

Fabio Olmos ·
23 de fevereiro de 2006 · 16 anos atrás
Foto: Fábio Olmos.
Foto: Fábio Olmos.

Sou um entre milhões de ecoturistas que são atraídos primariamente pela vida selvagem. Somos um grupo heterogêneo que inclui observadores de aves que querem adicionar a espécie de número 9 mil à sua “life-list”, fotógrafos com pretensões mais ou menos profissionais e todos aqueles que querem ver ao vivo o que faz boa parte da programação do Discovery Channel. Ter aquela sensação de descoberta que, se eu pudesse engarrafar, me faria milionário.

Este não é o tipo de ecoturista habitual no Brasil. Aqui, ecoturismo quase sempre acaba em cachoeira, topo de morro ou praia. Há poucos lugares onde a vida selvagem é o maior atrativo. O Pantanal certamente é o principal destino de quem quer ver bicho. Os parques nacionais de Emas e Bonito também, com a ênfase na fauna aquática do último. Os pontos onde baleias jubartes e francas se concentram, em Abrolhos e Santa Catarina, podem ser incluídos nessa categoria.

Eu poderia acrescentar vários destinos habituais que atraem observadores de aves, como Itatiaia, Iguaçu e a Serra da Canastra, mas, realisticamente, o que atrai o grosso dos visitantes a esses lugares é cachoeira. Ou o visual do alto de uma serra. Os bichos são coadjuvantes, em geral como acessórios dos jardins de hotéis e pousadas, como podemos ver em Itatiaia ou Foz do Iguaçu.

Essa situação é o oposto do que ocorre em países que têm no turismo o ponto forte de sua economia, como África do Sul, Botsuana, Tanzânia e Quênia. Cachoeiras, praias e mesmo a beleza e cultura dos povos locais estão bem abaixo na lista do que atrai turistas. A fauna selvagem, tanto os grandes animais da savana africana como a espetacular fauna marinha (tubarões-brancos na África do Sul, recifes de coral na Tanzânia e no Quênia), é que sustenta boa parte da economia.

Bom exemplo

Cheguei há pouco das ilhas Falklands e descobri que naquele arquipélago de 2.400 habitantes (quase o mesmo que a entupida Fernando de Noronha) o turismo é a indústria que mais cresce. Mais que a pesca e certamente muito mais que a centenária, mas estagnada, ovinocultura. Turismo nas Falklands significa 30 mil pessoas chegando em navios de cruzeiro ou por avião ao longo de quatro meses para ver colônias de albatrozes, pingüins, biguás e elefantes marinhos, entre outros. Não há cachoeiras e as praias têm águas frias demais. Propriedades que se dedicavam a criar ovelhas estão derrubando suas cercas enquanto seus donos se tornam empresários de pingüins.

As Falklands têm um passado negro com relação à fauna. Mais de meio milhão de pingüins foram mortos e fervidos para extrair seu óleo. O único mamífero terrestre nativo, a raposa warrah, foi extinto. É uma revolução que o mesmo pingüim que só servia como fonte de óleo hoje tenha mais valor vivo como atração turística. E que a indústria pesqueira seja controlada para permitir que as populações de aves marinhas se recuperem.

Das cinco espécies de pingüins que nidificam nas Falklands, minha favorita é o rockhopper. Por alguma razão essa espécie estabelece suas colônias próximas a falésias e precipícios que despencam no mar, o que faz as aves terem que saltar de rocha em rocha (daí o nome) para descer ao mar e para retornar aos ninhos. Os pingüins não se abalam com o perigo nem com a distância. Um dos espetáculos mais impressionantes é o retorno dos pingüins vencendo ondas enormes que os martelam contra as rochas até se agarrar e escalar paredão acima. Se Nietzsche conhecesse os rockhoppers, eles seriam o modelo de seu super-homem.

Na panela

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Tartaruga virou almoço. Foto Fabio Olmos.

Infelizmente, aqui no Brasil a fauna silvestre é encarada antes como fonte de proteína para determinadas parcelas da população do que como fonte de inspiração, ou como um ativo financeiro que pode ser explorado sem que seja consumido. O pior é que há quem defenda com unhas e dentes esta exploração, que além de economicamente burra (compare o preço de 1 kg de carne ou frango com o de um cartucho de espingarda), não tem nada de sustentável.

Não estou falando aqui da caça esportiva manejada de forma científica. Sabemos muito bem que sem ela os banhados no Rio Grande do Sul, por exemplo, já teriam sido totalmente transformados em anti-econômicos arrozais. O problema é a caça de subsistência, encarada como direito das populações rurais pobres, e que alguns grupos “tradicionais” defendem como sua prerrogativa cultural. Embora teoricamente seja permitida apenas sob autorização especial e seguindo um manejo tecnicamente elaborado, na prática ela ocorre de forma ampla, geral e irrestrita. Como publicado este ano, a maior parte das apreensões de animais feitas pelo Ibama no Amazonas é de bichos destinados à panela, não aos “biopiratas” que nossa ministra do Meio Ambiente gosta de demonizar.

A ineficaz Lei Ambiental de 1998, ao extinguir o dispositivo que considerava a caça ilegal como crime inafiançável, ajudou a piorar uma situação que já era ruim. Mas que poderia melhorar com a simples proibição do comércio de pólvora e espoletas, já que o grosso da caça (e boa parte dos assassinatos no campo) é feito com armas de soca ou munição recarregada. Mas ninguém se importa com isso nos ministérios do Meio Ambiente e da Justiça.

O fato é que grande parte das florestas brasileiras está vazia. Vazia de bichos. Nossos bosques tinham mais vida. Você pode caminhar por dias em florestas na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga ou na Mata Atlântica sem ver nenhum animal de médio ou grande porte. A maioria já foi para a panela ou abasteceu o mercado de peles, couros, banha e bichos de estimação. Menos visível que o escândalo do desmatamento que deixa a terra nua, essa catástrofe não é menos importante, pois afeta também áreas supostamente protegidas.

O Parque Nacional do Iguaçu, uma das grandes arrecadações dentre o sistema brasileiro de Unidades de Conservação, teve suas queixadas extintas pelos caçadores locais. Que assim eliminaram o prato principal das ameaçadas onças-pintadas, que agora procuram comida nas fazendas próximas, gerando conflitos que sempre acabam mal para os gatos. Expedição recente ao longo de 52 km do rio Floriano, no coração selvagem do parque, achou 26 acampamentos com restos de animais. E isso acontece no parque mais rico do país.

Amazônia vazia

É da Amazônia que vem as melhores estimativas do tamanho do estrago. Estudo feito pelo biólogo Carlos Peres, publicado em 2000 (Conservation Biology 14: 240-253), sugere que a população rural da floresta amazônica brasileira (na época estimada em 8,1 milhões de pessoas) consumia algo como 23,5 MILHÕES de mamíferos, aves e répteis por ano. Não é surpresa que seja muito incomum achar uma localidade amazônica com concentrações de araras, capivaras, cervos, queixadas, mutuns e ariranhas como as facilmente encontradas em locais protegidos no Pantanal.

Quando morei em Rondônia tive a oportunidade de visitar a Reserva Extrativista Estadual Pedras Negras. Para chegar lá foram necessárias oito horas de voadeira rio Guaporé acima a partir de Costa Marques, famosa pelo Forte Príncipe da Beira. Pedras Negras estava iniciando um projeto de ecoturismo de base comunitária com apoio do WWF que visava atrair turistas estrangeiros interessados em experimentar a Amazônia selvagem. Fui à reserva a convite da coordenadora do projeto para palpitar.

A viagem foi interessante, com várias aves aquáticas nas brancas praias do Guaporé e ocasionais araras atravessando entre o Brasil e a Bolívia. Mas vi um único jacaré que rapidamente sumiu de vista. Foi o único animal maior de toda a viagem. Na reserva extrativista, onde o plano de utilização feito segundo os modernos métodos de consenso e participação dos atores sociais proíbe a caça de animais ameaçados e quelônios, as primeiras fotos que fiz foi de uma família consumindo um cervo-do-pantanal para o jantar (ganhei o crânio como presente. A espécie é globalmente ameaçada) e de uma tartaruga-da-amazônia sendo retalhada viva como preparação para ir para a panela. Meu lado turista não considerou nenhuma visão muito inspiradora.

Conversando com os moradores sobre o que existia para me mostrar decidimos fazer uma observação noturna de jacarés-açus, que seriam especialmente grandes e confinados na região. Vimos apenas um pequenino e apavorado jacaré-tinga que não permitiu aproximação.

No dia seguinte saímos de canoa pelo grande pantanal do Guaporé. Esta grande planície de inundação ocupa milhares de quilômetros quadrados tanto no Brasil como na Bolívia e é em tudo similar ao Pantanal Matogrossense, mais ao Sul. Exceto que não vi jacaré ou mamífero algum. Apenas algumas poucas garças e araras à distância.

O problema é que a caça de subsistência realizada pelos moradores locais, pescadores profissionais que exploram o rio e toda a sorte de predador bípede sem penas que freqüenta a região, eliminou uma fauna que já foi extremamente exuberante. Não havia muito o que ver além da cara do povo local. Como turista me senti muito decepcionado. Mas a experiência foi muito educativa, pois presenciei um fenômeno generalizado.

Praticamente todos os estudos sobre a sustentabilidade da caça de subsistência realizados na Amazônia, tanto com grupos indígenas como com seringueiros, caboclos ou ribeirinhos, mostrou que a caça retira mais animais do que as populações animais podem repor. Ou seja, não é sustentável. Isso ocorre em terras indígenas, reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentado. Em geral é necessária a intervenção de biólogos para que os sapientes povos da floresta passem a ter padrões de exploração sustentável. O que por sinal contraria o paradigma que diz que estes povos são conservacionistas natos para os quais podemos entregar nossas florestas sem pestanejar.

Para a fauna, a tal “etnogestão da biodiversidade” (será que quem criou o termo tem senso do ridículo?),entusiasticamente vendida pelo MMA, significa ser massacrada para ir para a panela ou para virar matéria-prima de balangandãs. Não é novidade que os pacotes destinados à Amazônia incluem a “focagem noturna de jacarés” e a “pesca de piranha” exatamente para mostrar alguma fauna a turistas decepcionados que acreditavam que encontrariam uma floresta onde árvores se curvam sob o peso de macacos e araras e uma onça pode ser vista a cada curva de rio.

Outra estratégia para diminuir a frustração é manter animais semidomesticados junto aos alojamentos, o que alimenta o comércio ilegal de animais silvestres, como já vi em Marajó. Ou fazer passeios em locais onde animais apreendidos pela fiscalização são recuperados, o que é mais decente. Nenhum desses expedientes seria necessário se boa parte da Amazônia não fosse de florestas vazias. Claro que há exceções, em geral em áreas militares de acesso restrito como a Serra do Cachimbo (com fauna espetacular graças ao campo de provas da Aeronáutica) ou alojamentos isolados e bem protegidos, como no rio Cristalino. Mas você tem que saber onde procurar.

Espingardas em punho

Na Caatinga há uma guerra de extermínio contra tudo que se move em curso desde que Garcia D’Ávila construiu seu castelo e começou a queimar o sertão para criar gado. Seu melhor símbolo é a facilidade com que se vê dezenas de pessoas com espingardas em punho que caminham despreocupadas nas estradas, coisa rara ou inexistente em outras regiões. Lembro de estar trabalhando com colegas do Ceará no sul daquele estado e encontrarmos um grupo de pombas asa-branca. Este é um bicho peba com ampla distribuição que pode ser visto às dezenas nos jardins do Plano Piloto de Brasília, no campus da UNICAMP e mesmo na minha cidade natal, Santos.

Meus colegas tiveram orgasmos ornitológicos múltiplos ao verem os pombos. Porque o bicho, vagabundo em outros lugares, foi praticamente extinto no Ceará devido à caça persistente com espingardas, estilingues e arapucas. Caça que eliminou praticamente todas as espécies de maior porte e interesse gastronômico, transformou a tarefa de determinar a fauna original do estado (e de toda a Caatinga) num exercício que demanda arqueologia. Ou seções espíritas.

O Parque Nacional Serra da Capivara é um dos melhores exemplos que conheço sobre o impacto da caça sobre a fauna da Caatinga. Em 1991 trabalhei no parque, que ainda era uma entidade virtual, existindo apenas no papel. Como é normal no sertão nordestino, parte significativa da população masculina da região estava engajada em matar qualquer animal silvestre que encontrasse. Ver um reles mocó, cotia, veado ou jacu era como acertar na loteria. Devo ter visto cinco ou seis jacus em um ano.

Como muitos devem saber, a ong gestora do parque, a Fundação Museu do Homem Americano, conseguiu fazer o Parque da Serra da Capivara ser uma das melhores unidades de conservação da América Latina , apesar das resistências de setores do IBAMA e do MMA, incomodados por uma ong que consegue fazer o que o governo tem sido notoriamente incapaz. Hoje, graças a um plano de fiscalização eficiente, é possível ver 50-60 jacus juntos nas fontes de água manejadas pelo parque, com cotias, mocós, tatus, veados e macacos ao seu redor. A nota triste é a extinção local das queixadas, das quais talvez 20 ainda existiam em 1991. A proteção chegou muito tarde para elas.

Devo notar que o sucesso da Serra da Capivara acontece apesar do Piauí ser um país com leis diferentes. No Brasil o portador de uma arma não registrada e/ou sem porte está cometendo um crime inafiançável. Mas no Piauí os delegados nem registram boletins de ocorrência sobre isso, nem os juízes mantém os infratores engaiolados até o julgamento.

O sucesso do controle da caça na Capivara me lembra o que vi no Chile alguns anos atrás. Surpreendido pelo número e mansidão de coscorobas, curicacas e cisnes-de-pescoço-preto na região de Valdívia, perguntei a razão a um colega local. A resposta foi que o governo militar havia retirado a maior parte das armas de circulação a fim de reprimir a oposição armada. O resultado foi uma dramática redução da caça, uma nova geração que cresceu sem a cultura do uso de armas e a recuperação das populações de animais que estavam à beira da extinção. Imagino que a violência urbana também deve ter diminuído. Pena que nossos generais não seguiram o exemplo chileno.

Quando um visitante estrangeiro me pergunta onde pode ver mamíferos na Mata Atlântica eu recomendo que faça a trilha da Pedra Grande, no Parque Estadual da Cantareira. Isso fica dentro da cidade de São Paulo, e de lá posso ver os arredores de meu apartamento no Centrão. Mas também é possível ver cotias, pelo menos três espécies de macacos, bichos-preguiça, jacus, macucos, tucanos e esquilos com facilidade. Facilidade muito maior do que é possível encontrar essas espécies em locais como a Estação Ecológica Juréia-Itatins, ícone das áreas protegidas da Mata Atlântica, ou o Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar. Ou no Parque Estadual da Ilha do Cardoso. A caça crônica realizada pelas “populações tradicionais” que ocupam essas áreas teoricamente protegidas se encarregou de dizimar as populações animais.

Estado lamentável

Os melhores dados sobre a situação da fauna na Mata Atlântica de São Paulo estão sendo obtidos pela equipe de Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da UNESP de Rio Claro. Parte das conclusões, apresentadas no Congresso da Sociedade de Biologia da Conservação em julho passado, mostra o lamentável estado da fauna da Mata Atlântica paulista [link artigo Aline desta semana].

Isto é triste porque São Paulo já foi uma referência como sistema estadual de meio ambiente e de unidades de conservação. Certamente o fato do estado mais rico e populoso da federação ter ainda 13% de cobertura por habitats naturais, que inclui boa parte da Mata Atlântica que resta no planeta, é extremamente positivo. Mas algo de podre acontece sob as árvores. O panorama geral é deprimente, com a grande maioria das reservas mostrando extinções locais, populações animais muito reduzidas e com os palmitos eliminados. Essa detonação está associada às atividades de caça e extrativismo realizadas por comunidades que vivem tanto no interior como no entorno das reservas. Estas incluem de bairros inteiros a aldeias indígenas, algumas das últimas fruto de invasões recentes (a moda atual começou em São Paulo) apoiadas pela Procuradoria da República.

Enquanto até o início da década de 1980 a forma de criação das unidades de conservação era a tradicional (desapropriar e retirar os ocupantes), a redemocratização foi acompanhada pela popularização das lorotas antropológicas sobre povos tradicionais como mantenedores e geradores da biodiversidade e melhores conservacionistas do que os imperialistas eurodescendentes. Essa pseudociência politicamente correta encontrou eco na Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo. O resultado são unidades de conservação que, ao invés de estarem cheias de bichos e turistas apreciando-os, estão cheias de gente detonando-as e são um verdadeiro programa de índio para visitar.

A grande exceção ao padrão de detonação encontrado por Galetti e seu grupo é um parque criado nos velhos tempos. Embora o Parque Estadual de Carlos Botelho tenha sofrido extração seletiva de madeira e retirada de carvão antes de virar uma reserva, hoje tem a fauna mais exuberante da Mata Atlântica paulista. Ou talvez do planeta. Por dois motivos. Não tem moradores no seu interior (embora os Guaranis invasores do vizinho Parque Intervales agora o assediem para caçar e furtar palmito) e teve um diretor que por mais de 30 anos levou seu trabalho a sério. O imortal Dr. Bento é autor de uma das minhas verdades politicamente incorretas favoritas. Em suas palavras: “Educação ambiental??? O que funciona é o cacete ambiental!!!”. As robustas populações de muriquis e jacutingas do parque, as maiores do planeta, são um dos resultados.

O interessante em São Paulo é que algumas das reservas mais defaunadas, como Juréia e Picinguaba, são considerados “exemplos” de gestão moderna que leva em consideração os interesses das “populações tradicionais” e onde foram enterrados milhões, vindos de projetos como o PPMA-KfW, em reuniões participativas, planos de gestão e a tradicional dobradinha evento social-produção de papel que caracteriza projetos “modernos” de conservação da natureza, que pouco se importam com resultados objetivos.

É claro que se as populações animais fossem usadas como indicadores de sucesso destes projetos (aumentaram ou diminuíram? houve extinções?) os gestores passariam a gastar o dinheiro naquilo que importa e não em fingir que algo foi feito. Mas quem pergunta para os bichos se um projeto ambiental está funcionando?

Não deixa de ser irônico que macacos, cotias e tatus estejam mais seguros na capital paulistana do que na Juréia. Um novo projeto de estímulo ao ecoturismo nos parques paulistas está se iniciando. Espero que este inclua a proteção das áreas e acabem as cenas deprimentes como a venda de palmito e aves silvestres no estacionamento da Caverna do Diabo, em pleno Parque Estadual de Jacupiranga. A Polícia Ambiental paulista seria muito mais útil se tivesse destacamentos fixos patrulhando o interior dos parques do que checando a origem da lenha das pizzarias.

Por conta própria

Ver um animal de perto muda tudo. Foto Fabio Olmos.
Ver um animal de perto muda tudo. Foto Fabio Olmos.

O ecoturismo tem sido vendido como a solução para a economia estagnada ou decadente de várias regiões. E seu foco em geral são parques e outras áreas protegidas onde visitantes podem não apenas nadar em belas cachoeiras ou caminhar em praias relativamente desertas, mas também ter seu “momento Discovery Channel” ao ver um grupo de muriquis, ou descobrir jacarés tomando sol. Ou ver aquela ave especial que só ocorre ali. Ou uma árvore milenar coberta de orquídeas.

Mas qual o potencial turístico da favela em meio a árvores na qual parte do Parque Estadual Intervales se transformou após a invasão por índios Guarani? Qual o estímulo para que um visitante retorne a uma Amazônia onde só verá animais semidomesticados? A troco de quê alguém visitará um Pantanal transformado em carvoarias e pastagens? A destruição contínua da fauna e da natureza brasileira é a destruição de algumas das melhores razões para que o país seja visitado. A menos que queiramos continuar como paraíso do turismo sexual. Ou talvez do turismo de aventura baseado na fuga de balas perdidas.

Infelizmente o ônus de parte dos problemas sociais brasileiros é sempre lançado sobre a natureza, em um processo de degradação estúpida. Populações eternamente presas na armadilha da pobreza gerada pela falta de educação e alta natalidade, que não conseguem colocação em um mercado de trabalho cronicamente deprimido, mas sempre exigente de qualificação, têm na extração não sustentável de recursos naturais sua fonte de sobrevivência. O resultado é destruição ambiental e de um patrimônio que poderia gerar renda sem ser consumido.

Graças à recusa governamental em fugir do paternalismo barato de dar esmolas, à aversão ao cumprimento da lei e à inércia endógena de alguns grupos sociais, resta à natureza arcar com sua sobrevivência. E não faltam os ecoburocratas que acham que a função das unidades de conservação é fornecer proteína para os parques antropológicos que pululam no país.

Este processo não acabará bem nem para seringueiros e caboclos da Amazônia nem para os caiçaras e Guaranis que exterminam a fauna dos parques paulistas. Comer o último muriqui e cortar o último palmito podem matar a fome do momento, mas não tirará ninguém da miséria nem trará a dignidade de ser membro de uma cultura vencedora e auto-suficiente, e não mendicante. Mas as extinções são para sempre.

PS – Em meu artigo anterior uma de minhas conclusões é que a reforma agrária é uma falsa solução para o excedente populacional resultante da falta de empregos, falta de educação e falta de planejamento familiar. Esses fatores criam uma demanda que não pode ser suprida pelo aumento da oferta de terras. Em reportagem do OESP de 22/01/06 José Rainha Júnior diz que os filhos dos assentados viram novos sem-terra por falta de opção. Em suas palavras: “Se ele pudesse escolher estaria numa escola técnica ou na agroindústria. Mas onde há empregos?”. Eu e o MST concordamos plenamente neste ponto.

  • Fabio Olmos

    Biólogo, doutor em zoologia, observador de aves e viajante com gosto pela relação entre ecologia, história, economia e antropologia.

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