Análises

Lost e as espécies exóticas invasoras

Na ilha havaiana de Oahu, onde é filmado o seriado americano Lost, há vários invasores que passam desapercebidos pelos telespectadores mais atentos à trama.

André Jean Deberdt ·
22 de junho de 2006 · 20 anos atrás

Para quem não teve a oportunidade de acompanhar o seriado “Lost” na TV, já está disponível nas locadoras o DVD com a primeira temporada completa. Porém, o propósito deste texto não é fazer qualquer tipo de propaganda desta série, mas sim compartilhar a oportunidade de visualizar o impacto que as espécies exóticas invasoras causam no ambiente natural, especialmente nas ilhas oceânicas.

A série retrata o cotidiano de 40 sobreviventes de um desastre aéreo em uma ilha misteriosa no sul do Pacífico e foi praticamente toda gravada em Oahu, a terceira maior ilha do arquipélago havaiano, onde está localizada a capital Honolulu.

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Já no início do primeiro episódio, o protagonista da série desperta no meio de um bambuzal (Bambusa spp), espécie originária da Ásia e invasora no Havaí. Nos episódios seguintes, o que se pode observar, é uma amostra significativa de espécies exóticas invasoras e áreas invadidas. Na primeira incursão pela ilha, o grupo percorre uma extensa área tomada por uma espécie de capim africano (Panicum spp). Na praia, próximo aos destroços do avião, também são facilmente observados agrupamentos de casuarinas (Casuarina equisetifolia), uma árvore australiana parecida com um pinheiro, considerada invasora de áreas litorâneas em boa parte do mundo. Outra espécie que aparece com freqüência nas cenas de ação é a falsa seringueira (Ficus elastica), com suas enormes raízes aéreas utilizadas pelos personagens como esconderijo. Algumas cenas também mostram a personagem Kate coletando maracujás (Passiflora spp) e plantando suas sementes em uma pequena horta comunitária. A mamona (Ricinus communis), espécie originária da África tropical e bastante conhecida aqui no Brasil, também pode ser observada em alguns episódios. Ainda desconfio de algumas agaváceas, poáceas e outras “áceas” que aparecem ao longo dos episódios, mas meus modestos conhecimentos de botânica e biogeografia impedem uma análise mais aprofundada.

Em relação às espécies da fauna exótica invasora, o espetáculo fica por conta das hordas de javalis que atormentam a vida dos sobreviventes do desastre. Introduzidos no arquipélago havaiano já durante a ocupação por polinésios e posteriormente por colonizadores europeus, os porcos selvagens (javalis) representam um grave problema para o meio ambiente, causando estragos na vegetação nativa, assoreamento de corpos d´água e dispersão de sementes de plantas daninhas. Para as cenas noturnas foram utilizados os javalis comuns que ocorrem na ilha, devidamente adestrados. Já no confronto de um dos personagens com um desses animais durante o dia, um enorme e ameaçador javali puro foi trazido do continente para o set de filmagens. Uma lista detalhada com as espécies exóticas invasoras no Havaí pode ser encontrada na internet.

A invasão silenciosa de insetos, organismos patogênicos, serpentes, caramujos, plantas daninhas e por outras pragas exóticas é considerada uma das maiores ameaças à economia, ao ambiente natural, à saúde e ao modo de vida das populações nativas do Havaí. A introdução de espécies exóticas invasoras já resulta em prejuízos da ordem de milhões de dólares como conseqüência das perdas em colheitas, extinção de espécies nativas, destruição de florestas nativas e propagação de doenças.

Apesar dos esforços de instituições privadas e estatais, espécies exóticas invasoras estão entrando no Havaí a uma taxa alarmante: aproximadamente 2 milhões de vezes mais rápida do que a taxa natural. O isolamento evolutivo do Havaí em relação ao continente e seu papel atual como centro comercial do Pacífico tornam o arquipélago particularmente vulnerável aos impactos negativos causados pela introdução de espécies exóticas invasoras. Falhas nos atuais sistemas de prevenção contra a entrada de pragas e a falta de consciência de boa parte da população são apenas mais alguns agravantes para este sério problema.

Para nós brasileiros, fica registrado o alerta, uma vez que todas as espécies que aparecem no seriado também foram introduzidas em nosso país, exceção feita ao maracujá que é nativo da América tropical.

Quanto aos ursos polares, prefiro não comentar o assunto e deixar por conta da licença poética.

  • André Jean Deberdt

    Biólogo, Diretor Técnico do Centro Excursionista Mineiro (CEM) e membro do movimento Trilha de Longo Curso Transespinhaço

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