Análises

A madrugada traz melancolia aos beija-flores

Para sobreviver ao frio, a técnica é mergulhar em profundo torpor, com funções motoras e psicomotoras inibidas economiza-se 60% de energia.

Marcos Rodrigues ·
21 de maio de 2014 · 7 anos atrás

Foto:
Foto:

É quase inverno, fim de maio, começo de junho, os dias mais curtos do ano, e muitas vezes os mais frios. Mais uma segunda feira onde tenho que acordar antes mesmo do Sol. Aproveito a oportunidade para observar o céu e escutar os sons desse momento do dia, que dura tão pouco. É mágico ver as últimas estrelas se apagando no céu azul petróleo. As aves já gorjeiam, ainda que timidamente no inverno, não necessariamente nas palmeiras como no poema.

O problema é que meu termômetro, localizado na varanda, marca 13 graus Celsius. Isso mesmo: está frio. Sinto a umidade da neblina que sobe pelo vale, penetra por entre as frestas da minha roupa e congela os meus ossos. Estou todo encasacado. Sei também que por volta das três da tarde estaremos sofrendo de calor, e geralmente chega-se a 25 graus. A diferença de temperatura entre a madrugada e o meio do dia é radical: doze, às vezes quinze graus. Pode parecer pouco, mas isso acontece de repente. Essa é uma das características do inverno nas savanas tropicais. Nos desertos é muito pior.

Por curiosidade vou visitar o ninho do beija-flor eremita, construído dentro da casinha de madeira onde dormia minha cachorra (ela já nos deixou e agora a casinha jaz solitária no jardim). Miro a lanterna acesa e lá está ela, a fêmea do eremita sobre os ovos, ainda firme e forte. Como estas aves tão pequenas sobrevivem a este frio?

É uma pergunta pertinente, pois animais endotérmicos, que produzem calor corpóreo a partir da queima de energia retirada do alimento, também perdem esse mesmo calor através da pele. O problema é que essa perda de calor é proporcional ao tamanho do animal. Isso precisa ser explicado, pois se trata de um princípio matemático muito pouco intuitivo. Este princípio mostra que à medida que um objeto ou corpo aumenta em tamanho, o seu volume cresce mais rápido do que a sua superfície. Isso significa que pequenos objetos ou corpos têm uma grande área de superfície em relação ao seu volume. Isto lhes dá uma grande proporção da superfície para o volume. Objetos ou corpos maiores têm pequena área de superfície em relação ao seu volume.

O problema é que o aumento da área de superfície, a pele, significa mais contato com o meio ambiente o que gera maior perda de água e calor. Logo, um elefante perde proporcionalmente menos calor para o meio do que um minúsculo beija-flor.

Além de estarem entre os menores animais endotérmicos, os beija-flores também não possuem as felpudas penas de isolamento, chamadas plúmulas, espalhadas pelo corpo, debaixo das penas de voo. Tamanho do corpo pequeno e falta de isolamento térmico levam os beija-flores a perder calor para o meio ambiente rapidamente. Por isso que durante o dia os beija-flores são extremamente ativos, nunca param de se alimentar de néctar, um alimento rico em açúcares, fácil de ser queimado dentro das células e transformado em energia para a vida.

Mas e durante a noite, neste frio da madrugada?

Torpor nas madrugadas

“Beija-flores tornam-se hipotérmicos, ou seja, diminuem drasticamente a temperatura do seu corpo. Este estado fisiológico é chamado pelos biólogos de torpor”

Mesmo dormindo, os beija-flores têm enormes demandas metabólicas que devem ser atendidas simplesmente para sobreviver à noite, quando eles não podem se alimentar. Para enfrentar este desafio energético, essas pequenas aves precisam economizar energia suficiente para sobreviver durante as noites frias. Como elas fazem isso?

Beija-flores tornam-se hipotérmicos, ou seja, diminuem drasticamente a temperatura do seu corpo. Este estado fisiológico é chamado pelos biólogos de torpor. Sabe-se hoje que mais de 100 espécies de aves praticam o torpor, entre eles os bacuraus, os andorinhões e as andorinhas.

Torpor é um tipo de sono profundo, onde o animal diminui a sua taxa metabólica. Taxa metabólica é a quantidade de energia utilizada pelo animal num determinado tempo. Esta taxa metabólica reduzida também faz com que a sua temperatura corporal fique baixa. Em geral, a temperatura corpórea de um beija-flor tropical gira em torno de 37 graus. Assim, durante a noite fria, a temperatura corpórea destas aves cai para 19 ou 23 graus. É uma temperatura de cerca de 3 graus acima da temperatura ambiente, em um patamar que é apenas suficiente para manter a pequena ave viva. É como viver numa espécie de melancolia, quando nossas funções motoras e psicomotoras são inibidas. Um período de torpor de 10 horas confere uma economia de energia da ordem de 50 a 60%.

Um beija-flor leva aproximadamente 20 minutos para despertar do torpor. Frequências cardíaca e respiratória aumentam e o beija-flor vibra os músculos das asas durante o acordar. O calor gerado por essa vibração aumenta a circulação do sangue, e voilá: hora de voar e começar um novo dia de trabalho pesado. Ele deve passar o dia todo procurando flores com néctar, caçando pequenos insetos. Não há tempo para refletir sobre as vicissitudes da vida.

Não posso mais reclamar da minha segunda-feira, quando acordo já de mau humor querendo jogar o despertador pela janela. Tenho a sorte ainda de contemplar o brilho das últimas estrelas neste céu azul petróleo, ir até a cozinha e preparar uma bela e quente xícara de café.

Figura 1. Aves que praticam o torpor (a) beija-flores, (b) bacuraus, (c) andorinhas. Fotos: C. Komesu
Figura 1. Aves que praticam o torpor (a) beija-flores, (b) bacuraus, (c) andorinhas. Fotos: C. Komesu

 

Figura 2. Princípio do volume X área. Fonte:
Figura 2. Princípio do volume X área. Fonte:

 

Leia também
Minhocas barulhentas acabam levadas no bico
Beija-flores déspotas, paineiras e baobás
O efeito do equinócio sobre o canto dos sabiás

 

 

 

  • Marcos Rodrigues

    Doutor em zoologia pela Universidade de Oxford (UK). Hoje, é professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais.

Leia também

Notícias
20 de outubro de 2021

Desmatamento na Amazônia já chega a quase 9 mil km² em 2021, mostra Imazon

Somente em setembro foram destruídos 1.224 km² de floresta, área equivalente a mais de 4 mil campos de futebol por dia. Números sãos os maiores em 10 anos

Salada Verde
20 de outubro de 2021

Em comemoração de seus 10 anos, Onçafari lança concurso de fotografia

Fotógrafos profissionais e amadores podem se inscrever até o dia 14 de novembro. Vencedores terão a oportunidade de fotografar a fauna e flora existentes na sede da Onçafari, no Pantanal

Notícias
20 de outubro de 2021

INPE não tem recursos garantidos para pagamento de água e luz até final do ano

Destinação de R$ 5 milhões pela AEB deu um respiro ao Instituto, mas órgão ainda aguarda verba de outras fontes para honrar despesas de funcionamento até dezembro

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta