Análises

Nos parques da Flórida, esportes aquáticos arrasam

Uso recreativo dos milhares de quilômetros nas águas da Flórida promove a conservação e gera renda para a população e os parques.

Thiago Beraldo Souza ·
13 de maio de 2015 · 6 anos atrás

Caiaque de acrílico usado nos passeios pelo Santuário Nacional Marinho Florida Keys- Archer Key, onde está localizado o Parque Nacional de Dry Tortugas. Foto: Thiago Beraldo
Caiaque de acrílico usado nos passeios pelo Santuário Nacional Marinho Florida Keys- Archer Key, onde está localizado o Parque Nacional de Dry Tortugas. Foto: Thiago Beraldo

Atividades a remo como caiaque, canoagem, stand up paddle (SUP) e rafting oferecerem pontos de vista privilegiados para se fazer ecoturismo. Seja navegando de caiaque em um lago, descendo um rio de canoa, fazendo rafting em uma cachoeira ou remando em pé pelo mar, as atividades aquáticas em embarcações não motorizadas se popularizam cada vez mais pelo mundo. Segundo estudo realizado nos Estados Unidos pela Outdoor Foundation, mais de 19 milhões de pessoas (6% da população) participaram de alguma dessas atividades em 2012. Em média, cada pessoa fez sete passeios, ou 133 milhões ao ano. Nas unidades de conservação dos EUA, essas atividades recreativas e esportivas são levadas a sério e estudadas. De 2000 a 2009, as Florestas Nacionais tiveram a média de 23 milhões de praticantes de canoagem por ano, segundo o estudo Recreação ao Ar Livre – Tendência e Futuros (Outdoor Recreation Trends and Futures) realizado pelo Serviço Florestal Americano em 2010.

A Flórida merece destaque nesse segmento recreativo. O estado tem bem mais a oferecer dos que os parques temáticos de Orlando. Os Encantos Naturais da Flórida estão na água com seus mais de 1.600 quilômetros de litoral e 2.700 quilômetros de rios e nascentes.

Área de acesso e banho na nascente do Rio Ichetucknee - Parque Estadual Ichetucknee Springs. Foto: Thiago Beraldo
Área de acesso e banho na nascente do Rio Ichetucknee – Parque Estadual Ichetucknee Springs. Foto: Thiago Beraldo

A Flórida possui a terceira maior barreira de corais do mundo, na região das Floridas Keys, onde fica o deslumbrante Parque Nacional de Dry Tortugas. Possui também o Parque Nacional de Biscayne, na região de Miami, além do Parque Nacional do Everglades, que já mereceu uma matéria exclusiva aqui no ((o))eco.

Mas a costa não é detentora exclusiva dos tesouros naturais locais. As florestas nacionais e parque estaduais guardam uma rara beleza por muitos desconhecida: as springs. O norte da Florida possui formação geológica rica em calcário, parecida com a região do Parque Nacional da Serra da Bodoquena e a região de Bonito, no Mato Grosso do Sul. A Floresta Nacional de Ocala, localizada no centro do estado, possui áreas recreativas com essas nascentes e os Parques Estaduais (muito bem manejados!) como o Ichetucknee Springs e Manatee Springs guardam centenas delas.

Em todas estas áreas protegidas são permitidos e apoiadas atividades a remo. Caiaques, botes e barcos são alugados para serem usados em trilhas aquáticas que podem durar diversos dias.

Visitantes nadam na nascente de Alexander Springs - Floresta Nacional de Ocala. Foto: Thiago Beraldo
Visitantes nadam na nascente de Alexander Springs – Floresta Nacional de Ocala. Foto: Thiago Beraldo

Os EUA levam tão a sério o tema que, em 2012, o país implementou o Sistema Nacional de Trilhas Aquáticas. Esse sistema vem compor o já antigo Sistema Nacional de Trilhas, criado pelo Governo Federal Americano há quase 50 anos, em 1968.

Importância Econômica

“[relatório] revela que os mais de 700 mil visitantes do Suwannee River State Park em 2011, tiveram um impacto econômico direto de mais de US$ 30 milhões de dólares.”

O Estado da Flórida possui também a Florida Circumnavigational Saltwater Paddling Trail (Trilha de Circunavegação a Remo pelas Águas Salgadas da Flórida). Se você achou o nome comprido, imagine remar 2.438 quilômetros nela! Ela é considerada a Appalachian Trail aquática e dá a volta em todo no Estado, começando em Big Lagoon State Park, passando por toda a península e terminando em Fort Clinch State Park, perto da fronteira da Geórgia. Possui grande importância para a conservação, conectando 20 áreas protegidas federais, 37 áreas de preservação aquática estaduais e 47 parques estaduais. É dividida em 26 segmentos e gerida por um conjunto de agências federais e associações de voluntários.

Todo esse esforço tem gerado bons dividendos para as áreas protegidas do estado. Para se ter uma ideia, o Relatório Econômico de Recreação ao Ar Livre da Flórida revela que os mais de 700 mil visitantes do Suwannee River State Park em 2011, tiveram um impacto econômico direto de mais de US$ 30 milhões de dólares. Para efeito de comparação, a arrecadação total do ICMBio com visitação no mesmo ano foi de aproximadamente US$ 8 milhões de dólares.

Caiaque e banho no Parque Estadual Rainbow Springs. Foto: Thiago Beraldo
Caiaque e banho no Parque Estadual Rainbow Springs. Foto: Thiago Beraldo

Potencial Brasileiro

“O potencial é altíssimo e a logística de implementação, ao contrário, muito simples. É uma atividade que praticamente todas as unidades de conservação têm para oferecer e que é de baixo impacto.”

O Brasil tem um imenso potencial nessa área, com 8.500 quilômetros de litoral e cerca de 35.000 quilômetros de vias internas navegáveis, segundo o Ministério do Turismo. O segmento de esportes e atividades de recreação a remo tem crescido no Brasil. Entretanto, ainda pode-se considerar incipiente dentro das unidades de conservação federais em vista do enorme potencial que elas possuem. A maioria dos pequenos córregos, rios, lagos e a costa podem ser utilizados para as mais diversas atividades. Os passeios podem durar de algumas horas a vários dias e serem praticados tanto por indivíduos quanto por grupos organizados.

Diversas modalidades de embarcações, condições naturais e tempo podem atender a praticamente todos os perfis de visitantes; de crianças a terceira idade, incluindo pessoas com necessidades especiais. As motivações podem ser as mais diversas: estar perto da natureza, contemplar belezas cênicas, melhorar condicionamento físico, dar um tempo das demandas do dia a dia, aproveitar momentos com família e amigos ou apenas ficar sozinho.

O potencial é altíssimo e a logística de implementação, ao contrário, muito simples. É uma atividade que praticamente todas as unidades de conservação têm para oferecer e que é de baixo impacto. Algumas práticas como rafting em águas brancas, ou corredeiras, necessitam ser operadas por agências e guias credenciados. Entretanto, a grande maioria do segmento é realizada em águas calmas e pode oferecer opções para iniciantes com mínima prática e habilidade.

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Economicamente falando, a atividade oferece boas oportunidades de arrecadação com o aluguel de equipamentos tanto por pequenas terceirizações dentro da UC como por microempresários no entorno, favorecendo a economia local.

Um exemplo positivo aconteceu recentemente nas terras canarinhas. O ICMBio publicou dia 30 de março a portaria que estabeleceu normas para o ordenamento de atividades náuticas no Parque Nacional de Ilha Grande (PR/MS). Logo após a publicação, a unidade concedeu a primeira autorização para uso turístico a uma família que trabalha com turismo rural na beira da lagoa Xambrê, dentro do parque. A autorização foi emitida em 30 de março, após a publicação da portaria que estabeleceu normas para o ordenamento de atividades náuticas na lagoa.

Os passeios em canoas, caiaques e pranchas possuem também um alto potencial de interação com a natureza e podem ser grandes ferramentas de envolvimento e interpretação ambiental. A modalidade é uma das atividades recreativas ao ar livre preferidas das minhas filhas e proporciona momentos inesquecíveis que ficarão registrados na memória delas.

Minha esperança, como de muitos outros, é que os pequenos de hoje tornem-se conservacionistas amanhã e, para tal, as vivências que tiveram na infância e juventude são deveras importante.

 

 

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  • Thiago Beraldo Souza

    Trabalha na Coordenação Geral de Uso Público e Negócios do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). ...

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