O Brasil poderá enfrentar, entre 2026 e 2027, um período de maior ocorrência de eventos climáticos extremos associados ao fenômeno El Niño, porem extremos climáticos podem acontecer na ausência de El Nino também. Embora ainda existam incertezas sobre sua intensidade do fenômeno e sobre as regiões mais afetadas, especialistas e instituições de pesquisa já alertam para a necessidade de o país agir de forma preventiva. Esperar que os desastres gerados pelos extremos de chuva aconteçam para só então responder aumenta os prejuízos econômicos, sociais e ambientais.
De forma geral, estudos anteriores indicam que o El Niño tende a reduzir as chuvas no Norte, Nordeste, enquanto aumenta as precipitações na Região Sul. Por outro lado, El Nino tende a aumentar as temperaturas em todo o Brasil tropical, particularmente no verão e outono. Isso significa que diferentes regiões enfrentarão desafios distintos, exigindo planejamento específico para cada realidade.
Na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal, a combinação de temperaturas elevadas e redução das chuvas poderá favorecer secas prolongadas, queda no nível dos rios e aumento das queimadas. Além dos impactos sobre a biodiversidade, esses eventos comprometem o abastecimento de água, a produção agropecuária, a navegação fluvial, a geração de energia e a saúde da população, principalmente pela piora da qualidade do ar causada pela fumaça.
Já a Região Sul poderá registrar chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes e deslizamentos. A experiência das grandes inundações de maio 2024 mostrou que os impactos desses eventos podem se prolongar por anos, afetando moradias, infraestrutura, serviços públicos e a economia.
Os efeitos do El Niño, porém, não atingem todos da mesma maneira. As populações de baixa renda são as mais vulneráveis porque, em muitos casos, vivem em áreas sujeitas a enchentes, deslizamentos ou falta de infraestrutura. Além disso, possuem menos recursos para reconstruir suas vidas, proteger suas famílias ou se deslocar diante de situações de emergência. Por isso, reduzir a vulnerabilidade social deve fazer parte da estratégia de adaptação climática.
Outro setor fortemente afetado é a agricultura. Secas prolongadas, excesso de chuvas e ondas de calor comprometem a produção, elevam custos, afetam o transporte, reduzem a oferta de alimentos e geram reflexos na economia brasileira, tanto no mercado interno quanto nas exportações.
Diante desse cenário, a preparação precisa ser tratada como prioridade nacional. A gestão dos riscos climáticos deve ser baseada em planejamento e em evidências científicas, e não em percepções pessoais ou decisões tomadas apenas após o desastre acontecer.
Entre as principais medidas estão a elaboração de planos de contingência específicos para cada região, o monitoramento permanente das condições climáticas e elaboração de previsões climáticas, o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce e o investimento em infraestrutura capaz de reduzir os impactos de enchentes, secas e incêndios florestais.
A ciência oferece hoje informações cada vez mais precisas para antecipar riscos e orientar políticas públicas. Transformar esse conhecimento em ações concretas depende da capacidade dos gestores públicos e de seus assessores de incorporar as evidências científicas ao processo de tomada de decisão.
Esse desafio torna-se ainda mais importante em um período de preparação para as eleições. Independentemente de partidos, ideologias ou preferências pessoais, candidatos e suas equipes precisam compreender que a adaptação às mudanças climáticas deixou de ser apenas uma questão ambiental. Trata-se de um tema que envolve segurança da população, desenvolvimento econômico, saúde pública e proteção da infraestrutura nacional.
Algumas prioridades merecem atenção imediata:
- Planejamento antecipado:estados e municípios devem revisar e atualizar seus planos de prevenção e resposta para secas, enchentes e incêndios.
- Proteção das populações vulneráveis: ampliar ações voltadas às comunidades mais expostas aos riscos climáticos, garantindo acesso à informação, abrigos e serviços essenciais.
- Decisões baseadas na ciência: utilizar dados produzidos por instituições de pesquisa e sistemas oficiais de monitoramento para orientar políticas públicas.
- Integração entre governos: fortalecer a coordenação entre União, estados e municípios para ampliar a capacidade de resposta.
- Investimento em resiliência: ampliar obras de prevenção, sistemas de alerta, infraestrutura urbana e ações de adaptação às mudanças climáticas.
- Fomentar na população a cultura de percepção de risco de desastres: No Brasil os desastres são de origem climático, assim, quando alertas de risco de desastres são emitidos a Defesa Civil deve proceder a evacuações de população em risco morando em áreas vulneráveis e exposta, para isso precisa de definir rotas de furas e áreas seguras para a população se descolar até lá antes do desastre acontecer.
Ainda que extremos climáticos aconteçam regularmente, com ou sem El Niño, os eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos e os seus impactos são potencializados pela ocorrência de El Niño. Quanto mais cedo o Brasil investir em prevenção, planejamento e ciência, menores serão as perdas humanas, sociais e econômicas nos próximos anos.
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