Análises

Como um projeto vem sendo capaz de incentivar a produção da biodiversidade em pequenas propriedades rurais

Pequenos proprietários no Paraná colaboram com a manutenção da biodiversidade na Floresta com Araucária, combatendo mudanças climáticas e gerando valor às suas produções

Vitória Yamada · Patrícia Feldmann ·
11 de março de 2022

O Projeto Produção de Biodiversidade, uma iniciativa da Japan Tobacco International (JTI) em parceria com a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), busca transformar a visão antagônica e retrógrada de que a natureza é empecilho para a agricultura, e reverter a perspectiva que considera os remanescentes de vegetação nativa como áreas improdutivas.

O projeto, conhecido como JTIBio, apoia proprietários rurais na implementação de medidas para o incremento da biodiversidade em suas terras. Neste contexto, o que era considerado “mato” passa a ter valor, ganhando espaço e cuidados, ao mesmo tempo em que os conceitos de biodiversidade e serviços ecossistêmicos são disseminados na área rural. Esses serviços, gerados pelas áreas nativas em bom estado de conservação, são fundamentais para a sobrevivência de todas as espécies do planeta – incluindo os seres humanos –, pois abrandam os efeitos das mudanças climáticas e mantêm a riqueza dos negócios que dependem de água, fertilidade do solo e polinização, como a agricultura, por exemplo.

A partir da experiência da SPVS, em mais de três décadas de trabalho com conservação, constatou-se a necessidade de adequação ambiental das pequenas propriedades na região sudeste e centro-sul do Paraná, em área de Floresta Ombrófila Mista, comumente chamada de Floresta com Araucária. Atualmente essa formação florestal é bastante ameaçada, restando menos de 3% de sua cobertura original. Essas poucas parcelas que ainda sobrevivem, encontram-se em áreas particulares, bem como as porções que ainda permitem a formação de corredores ecológicos. Segundo estudos do MapBiomas de 2020, cerca de 62% do território de todo o bioma Mata Atlântica encontra-se distribuído em áreas privadas. O que significa que o trabalho em propriedades privadas era mais que urgente; era necessário para que a Floresta com Araucária resistisse às ameaças, como desmatamento, presença de espécies exóticas invasoras, e utilização das Áreas de Preservação Permanentes (APP) hídricas por animais.

O projeto Produção de Biodiversidade, baseado em um protocolo específico de monitoramento de pequenas propriedades, é um instrumento de educação e adequação ambiental que procura mudar cenários com uma série de recomendações de melhores práticas, que são implementadas aos poucos pelos produtores, de maneira voluntária e com recursos próprios.

Em uma primeira análise na região, constatou-se que mais de 50% dos proprietários utilizam a APP para finalidades de criação de bovinos, suínos, ovinos ou equinos, as quais, mesmo em pequena escala, causam compactação e exposição do solo, assoreamento e a contaminação da água. Praticamente 100% das propriedades analisadas têm grande quantidade de espécies vegetais exóticas invasoras – que já são apontadas como a principal causa de perda de biodiversidade em todo o mundo.

Para avaliar as propriedades, foram escolhidos indicadores que podem promover mudanças, como a situação da vegetação nas áreas de preservação permanentes (APP), erradicação de exóticas invasoras, realocação de animais domésticos para fora da APP e da reserva legal, suspensão do corte de madeira nativa, redução do assoreamento dos rios e focos de erosão. Em paralelo, o proprietário rural aprende sobre a importância dos serviços ecossistêmicos, valoriza as inter-relações entre flora e fauna nativos e observa se há a presença de algumas espécies de animais selecionados, como os dispersores de sementes e/ou sensíveis que só sobrevivem em áreas naturais bem conservadas. Nesse processo, o produtor anota suas observações periódicas com base nos indicadores e ações que ele pretende implementar orientadas pelos técnicos e que visam a melhoria da qualidade ambiental de sua propriedade.

Contexto sociopolítico

Propriedade é no município de Piên-PR. Imagem: Acervo SPVS.

Com a repercussão da crise ambiental brasileira, e, principalmente, com a severa estiagem enfrentada no Paraná desde 2019, os pequenos proprietários na área de enfoque do projeto estão mais abertos ao diálogo e, aos poucos, vão compreendendo seu papel para o bem comum, da mesma forma que um morador da área urbana.

Para os pequenos proprietários, principalmente agricultores familiares, qualquer faixa de terra é significativa para a produção e renda, mas isso não pode ser justificativa para assorear córregos e nascentes e não manter a vegetação nativa em boas condições, ao menos na APP e na reserva legal. Isso porque, no longo prazo, as áreas com ausência de vegetação sofrem prejuízos como perda do solo, escassez de água nas nascentes e rios, entre outros.

Partindo dessa premissa, o projeto usa uma narrativa que traduz a ciência para o dia-a-dia do produtor, da mesma forma que se alimenta do conhecimento da população rural para entender os desafios e garantir biodiversidade nas áreas exigidas por lei, prevendo também adicionalidades com espécies nativas, inclusive aquelas que podem trazer renda complementar, como no caso da erva-mate, frutíferas e medicinais.

Para que esses benefícios sejam factíveis, é indispensável a implementação de mecanismos financeiros de apoio a conservação da biodiversidade, que ainda são embrionários no país, além de um planejamento territorial que envolva esforços privados e públicos. Um exemplo bem-sucedido é o ICMS Ecológico que, apesar de não beneficiar diretamente os proprietários rurais, destina recursos para os municípios que detém Unidades de Conservação ou mananciais de abastecimento. Ele foi criado no Paraná em 1991 (Lei Complementar 59) e replicado pelo país. Em contraponto do mencionado sucesso, vê-se que o proprietário que mantém área nativa encontra pouco ou nada de respaldo financeiro, o que também é repercutido com a desídia de implementação do mais promissor mecanismo de apoio, o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), discutido desde a década de 90 e que ainda não tomou corpo no Brasil, sendo poucas as iniciativas e frequentemente descontinuado ao longo dos anos.

Por outro lado, os investimentos estatais destinados à produção agrícola e sua infraestrutura necessária nunca foram escassos. As políticas públicas e os tomadores de decisões do agronegócio devem incorporar mecanismos financeiros que apoiem os proprietários na conservação da natureza e na restauração ecológica de áreas degradadas, para que seus negócios tenham longevidade e custos mais baixos, para nossa segurança alimentar e para conter as mudanças climáticas. É urgente e possível delinear um novo cenário, e os governos, a iniciativa privada e o consumidor, têm o poder e o dever de provocar essa mudança.

 JTI e SPVS como produtoras de futuro

O JTIBio é um projeto que já existe desde 2014 e que, em 2022, ganhou novas ações, com o objetivo de reforçar o compromisso entre a SPVS, a JTI e proprietários comprometidos em produzir futuro a partir da conservação da biodiversidade. Hoje já contamos com mais de 70 proprietários envolvidos.

Nesta fase, os técnicos de agropecuária da JTI e produtores integrados serão capacitados para serem multiplicadores das ações. Assim, o projeto investe na comunicação qualificada para diferentes públicos e na disseminação de conteúdos que mostram a importância da biodiversidade, do fortalecimento de pequenos proprietários e da valorização de negócios que consideram a gestão do patrimônio natural como parte de suas atividades empresariais.

Como declara Sir David Attenborough, em seu livro A Life on Our Planet, “Nossas florestas são o maior motivo para termos esperanças”. “Proteger a biodiversidade exige mudanças como nunca antes empreendidas e não temos mais tempo para errar nas estratégias”, alerta esse incrível ambientalista.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Vitória Yamada

    Bióloga formada na PUC-PR, Mestre em Zoologia pela Universidade Federal do Paraná. Colaboradora da SPVS na gestão de projetos de “produção de biodiversidade”, restauração ecológica e mecanismos financeiros para a conservação, atuando em áreas privadas e unidades de conservação na Floresta com Araucária no Paraná.

  • Patrícia Feldmann

    Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal do Paraná no ano de 2017, desde então atua nas áreas de conservação da natureza, produção de biodiversidade, socioambiental, restauração ecológica e na área de geoprocessamento. Já trabalhou com povos indígenas, quilombolas, faxinalenses e pequenas propriedades rurais inseridas no Bioma Mata Atlântica. Atualmente é consultora na SPVS, exercendo função de técnica de campo no projeto JTIBio - “Produção de Biodiversidade”.

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Comentários 2

  1. Guenji Yamazoe diz:

    Como faço para contatar Vitória Yamada e/ou Patrícia Feldman?.Tenho interesse no Projeto desenvolvido por elas.
    Guenji Yamazoe


    1. Patricia Feldmann diz:

      Boa tarde Guenji,

      Obrigada pelo interesse no projeto, o senhor pode entrar em contato com a coordenadora do projeto pelo seguinte e-mail: [email protected]

      Um abraço.