Análises

Tubarões: vítimas do maior predador do planeta

Estudo inédito aponta para o declínio das populações de tubarões no Oceano Atlântico

Gualter Santana Pedrini ·
7 de maio de 2019 · 3 anos atrás
Tubarão Tigre a venda no Litoral Carioca: Foto: Gualter Pedrini.

Benedita equilibra-se sobre um pequeno banquinho de madeira enquanto escreve no quadro negro preso à porta do seu restaurante. Sorridente, ela antecipa que teremos tainha assada no cardápio.

Filha e neta de pescadores, Benedita madruga todos os dias para acompanhar a chegada dos primeiros barcos de pesca e conseguir melhores preços antes do tumulto formado por donos de pousadas e restaurantes refinados. Essa estação sempre foi propícia para a pesca da tainha no litoral paulista, mas a cada ano a produtividade tem caído, elevando os preços. Sentada em um banquinho improvisado, ela acompanha o desembarque de caixas e mais caixas com camarão. Nenhum peixe aproveitável.

Ao lado, um senhor de seus 70 anos manuseia uma faca com a mesma habilidade com a qual equilibra e traga um cigarro no canto da boca. Ele rapidamente disseca a cabeça de um peixe corpulento que, mesmo com quase um metro de comprimento, ainda não atingiu a idade adulta. Um tubarão martelo.

A carne de tubarão custa menos da metade do que a senhora Benedita pagaria pela tainha. Cortada em postas, pode ser preparada frita ou assada sob o nome de “cação anjo”.

Os Condrictes, ou peixes cartilaginosos, representados pelos Elasmobrânquios (tubarões e raias) e pelos Holocefálicos  (quimeras), surgiram no Período Devoniano, há 400 milhões de anos. Estão entre os mais antigos vertebrados da Terra ainda vivos, tendo sobrevivido a 4 grandes eventos de extinção em massa no nosso planeta.

Ao longo da sua evolução, eles adquiriram características cada vez mais sofisticadas, como as ampolas de Lorenzini, que detectam campos elétricos e alterações ínfimas nos parâmetros físicos e químicos da água. Mas centenas de milhões de anos de sobrevivência não prepararam os grandes predadores dos oceanos para o homem: o grande predador do planeta.

Pescador carrega um tubarão-martelo. Foto: Foto: Gualter Pedrini.

No início do século XX, os tubarões eram abatidos por conta do seu coro e fígado rico em óleo, mas em quantidades módicas. No final do mesmo século, com o advento da pesca industrial, grandes frotas pesqueiras com barcos maiores e mais rápidos propiciaram a exploração de espécies de águas profundas, criando novos mercados para peixes que até então eram descartados em detrimento de outros com maior apelo comercial. Dessa forma, tubarões e raias começaram a ser vendidos como especiarias culinárias sob outros nomes.

O Brasil atualmente é o 11º produtor e o 1º importador de carne de elasmobrânquios  em todo o mundo. Assim como no México, ela é vendida sob o nome de “cação”, para não assustar o consumidor. Um estudo realizado em 2015 por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, demonstrou que 70% dos entrevistados desconheciam que o termo “cação” refere-se a tubarão ou raia. Além disso, mais da metade dos entrevistados afirmou que já comeu “cação”, mas que nunca consumiu tubarões ou raias.

Nosso litoral abriga 168 espécies de peixes cartilaginosos e estas representam a maior porcentagem dentre todas as espécies ameaçadas contidas na Lista Vermelha do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A elaboração desta lista envolveu dezenas de especialistas brasileiros e alertou para o fato de que cerca de 40% dos elasmobrânquios encontram-se ameaçados, juntamente com outros 34% classificados como “dados insuficientes” (não existem informações suficientes para caracterizar risco ou não).

A pesca excessiva e desordenada ainda é a principal ameaça à existência de 90% destes peixes. Mesmo o Brasil sendo um dos maiores produtores mundiais de pescado, a última vez que o governo publicou dados oficiais sobre a pesca foi em 2011, usando dados de 2008. Informações básicas, como volume de pescado desembarcado, espécies capturadas e números de barcos em operação, são na prática inexistentes.  Atualmente, todas as pesquisas que abordam as populações de tubarões e raias usam números fornecidos por pescadores e são raras as instituições governamentais que ainda produzem dados confiáveis.

Tubarão Tigre a venda no Litoral Paulista. Foto: Gualter Pedrini.

O professor Edris Queiroz, do Instituto de Biologia Marinha e Meio Ambiente (IBIMM), reforça a precariedade de informações e da fiscalização e lembra que esses animais são decapitados e eviscerados antes mesmo do desembarque dos barcos pesqueiros nos portos, o que impossibilita a identificação das espécies e torna esse pescado mais atrativo para a população:

“Quando tem algum acidente no litoral eles chamam de tubarão, mas na hora de vender eles chamam de cação. Mas é tudo igual. Cação é tubarão e raia, independente do tamanho. Alguns possuem sua pesca e venda proibida, como é o caso do tubarão martelo, mas a fiscalização inexiste e os pescadores cortam a cabeça do animal o que dificulta muito a identificação da espécie na peixaria. Ele é vendido como ‘cação fresco’, mas é um tubarão que estava congelados por semanas em grandes barcos pesqueiros”.

Preenchendo lacunas

Em 2015 e 2017, pesquisadores de cinco instituições brasileiras (UNESP, UNIFESP, UFPE, DIMAR, DEPAq), publicaram um estarrecedor trabalho sobre a pesca oceânica de tubarões no Brasil e em todo oceano Atlântico Sul. Eles montaram uma grande base de dados sobre a captura com espinhel (pesca que utiliza uma extensa trama de linhas e anzóis) e outros mecanismos registrados nos diários de bordo de 21 frotas pesqueiras em operação por 33 anos (1979-2011).

Após os anos 90, a redução de algumas espécies do Atlântico Norte como o atum-rabilho e o peixe-espada levaram comissões de gestão pesqueira na América do Norte e da Europa a impor restrições e regulamentações mais severas para a pesca industrial. Isto fez com que a pesca praticada pelos países desses continentes se deslocasse em parte para o sul do Atlântico.

No mesmo período, a ascensão do mercado global de barbatanas de tubarão e a introdução de novas tecnologias extrativistas em águas profundas, impulsionaram a pesca dirigida aos elasmobrânquios. Como resultado, a taxa de captura de quase todas as espécies diminuiu mais de 85% já no final daquela década. Assumindo a ausência de ações de fiscalização ou de conservação desses peixes, o declínio observado nas capturas indicam uma diminuição da abundância do animal no Atlântico Sul.

Cortado, limpo, embalado, descaracterizado. Foto: Gualter Pedrini.

De 1979 a 2011, 871.177 tubarões de 13 espécies foram registrados como captura em 86.492 conjuntos de espinhel. Estes conjuntos foram implantados por 339 embarcações de 20 frotas diferentes, usando um total de mais de 142 milhões de ganchos.

O tubarão-azul provavelmente é a única espécie que aparentemente ainda não entrou em colapso nas águas do Atlântico.  Atualmente ele serve de base para as exportações de barbatanas destinadas ao mercado chinês e consiste em um dos pescados mais baratos que invade a seção de congelados dos hipermercados, com rótulos como: “cação azul”, “cação anjo” ou apenas “cação”. Embora esta espécie não tenha restrições de captura na nossa região, é atualmente o principal alvo das pescarias oceânicas, especialmente nos períodos em que as capturas de outros peixes comerciais são menores.

Mais um título para o Brasil: campeão em consumo de carne de tubarão

  • O Brasil atualmente é o 11º produtor e o 1º importador de carne de tubarão em todo o mundo
  • Desde 2007 o país não recolhe dados sobre a pesca (salvo raras exceções)
  • Apesar de todas as leis e normativas, diversas espécies ameaçadas de tubarões são pescadas e desembarcadas nos portos sem qualquer fiscalização
  • O Brasil contribuiu substancialmente para a consolidação do mercado global de produtos de tubarão.
  • México e Brasil são os únicos países em que são vendidas postas de tubarão, sempre com o nome genérico de ‘cação’
  • A pesca ilegal cresce diante a falta de fiscalização e coleta de dados. Na melhor das hipóteses, o Brasil ocupa a 17ª posição entre os maiores exportadores de barbatanas.
  • Em pesquisas realizadas no sudeste do Brasil 62% dos peixes vendidos ,como garoupa em pedaços ou postas, eram tubarões (após análises laboratoriais).

Galeria

Cação a venda em peixaria em Paraty-RJ. Foto: Gualter Pedrini.
Pescadores preparam rede na Comunidade no Bonete – Ilhabela-SP. Foto: Gualter Pedrini.
Cabeça de Tubarão Martelo, que será vendido como “Cação anjo”. Foto: Gualter Pedrini.
As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

Leia Também 

Tubarão bom, é tubarão morto

Apesar de ameaçados, tubarões e raias são consumidos no Brasil

Cites: aprovada proteção de 5 espécies de tubarões

 

 

 

 

  • Gualter Santana Pedrini

    Professor Universitário, escritor, fotógrafo e mergulhador. Fundador do Projeto Antrópica, que divulga ONGs e pesquisas em prol dos oceanos.

Leia também

Notícias
11 de março de 2013

Cites: aprovada proteção de 5 espécies de tubarões

Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites) incluiu espécies na sua lista de controle de comercialização.

Notícias
28 de novembro de 2016

Apesar de ameaçados, tubarões e raias são consumidos no Brasil

Pesquisa identificou 16 espécies sendo comercializadas. Raia-viola e tubarão-martelo-entalhado são exemplos de espécies vendidas como cação nos supermercados

Reportagens
13 de abril de 2006

Tubarão bom, é tubarão morto

Em Recife, a solução encontrada para se evitar ataque de tubarão a banhistas foi matar todos os exemplares de espécies agressivas. Com aval de órgãos ambientais.

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 11

  1. Cesar diz:

    Infelizmente e um absurdo a pesca desordenada desta especie de animal


  2. W. Nisa-Castro-Neto diz:

    Caro Gualter!
    Bom dia! Gostaria da(s) referência(s) sobre a pesquisa que coloca sobre: "Em 2015 e 2017, pesquisadores de cinco instituições brasileiras (UNESP, UNIFESP, UFPE, DIMAR, DEPAq), publicaram um estarrecedor trabalho sobre a pesca oceânica de tubarões no Brasil e em todo oceano Atlântico Sul."
    Esta seria muito enriquecedora para meu trabalho.
    Saudações, Prof. Walter


    1. Bom dia professor, por favor me mande um email para: [email protected] . Próxima matéria colocarei as referências junto.


  3. Paulo diz:

    Cadê o Ibama, cadê os fiscais do MAPA.

    Cadê a fiscalização ministros da agricultura e meio ambiente. Vamos trabalhar, se escondem como os ministros dos governos passados.


  4. PEREIRA diz:

    O cação acumula metais pesados, o que aponta impróprio para consumo em qualquer quantidade. Entendo que Tubarão, por condições próprias do seu modo de vida, deva ser bem mais impróprio para consumo.
    Em havendo como evidenciar tal entendimento, na certa teremos, de forma clara e compreensível, MAIS UM motivo para mostrar porque tbm não consumir o mesmo.
    Faz sentido tal ponderação?


  5. Gualter Pedrini diz:

    Por lei Cação já define como tubarão. O problema é que não sabemos qual tubarão está sendo vendido. Outra pesquisa feita mostra que 40% do robalo vê sido nos supermercados era na verdade cáção.


  6. Fabiana diz:

    Gente como sempre cação pois acho gostoso, mas agora que sei a verdade não comprarei mas! Obrigada pela informação.


  7. Cezar diz:

    Fora o fato de que o "cação" e improprio para o consumo humano pois acumula metais pesados como mercúrio em sua carne,não comam tubarão!


  8. João diz:

    Eu sempre fui ignorante no assunto. Mas já faz algum tempo que eu NÃO consumo. E não vou mais consumir. Vamos divulgar.😍😍😍


  9. Maria diz:

    Muito esclarecedor! É de extrema importância um projeto de lei que obrigue as indústrias de pesca e comércio de peixes a identificar o produto como carne de tubarão.