Não é novidade que o estado do Rio de Janeiro vem batendo recordes no turismo internacional. No último ano, chegou a 2,1 milhões de visitantes estrangeiros, um aumento de 43,7% em comparação a 2024, segundo dados da Secretaria de Estado de Turismo do Rio de Janeiro (Setur-RJ). Entre os destinos mais visitados está Búzios, onde a taxa de ocupação hoteleira ultrapassa 70% em períodos de alta temporada. É por lá também que mulheres caiçaras, quilombolas e pescadoras estão construindo um outro modelo de receber visitantes: com outro ritmo, comunitário e conectado ao território.
“O nosso turismo de vivência faz a rememoração da cultura local. A cultura da mulher pescadora, da arte e que busca aumentar a renda da sua família”, explica Cleusa dos Remédios, presidente da Cooperativa de Trabalho Mulheres Pescadoras, Aquicultoras e Artesãs da Prainha (MUPAAP) e pescadora tradicional de Arraial do Cabo. Descendente de mulheres que, desde o período da escravidão, preparavam ervas e chás para curar moradores da comunidade, Cleusa carrega no sobrenome “dos Remédios”, essa herança ancestral de cuidado. Para ela, a participação no Projeto Educação Ambiental foi a oportunidade para estruturar as atividades da associação, reconhecendo os saberes tradicionais da comunidade.
O Projeto Educação Ambiental faz parte das medidas compensatórias do TAC Frade, um Termo de Ajustamento de Conduta firmado entre o Ministério Público Federal (MPF) e a empresa PRIO para compensar impactos ambientais por acidentes envolvendo vazamentos de óleo decorrentes de atividade de exploração de petróleo na Bacia de Campos em 2011. Gerida pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), a iniciativa desenvolveu dezessete roteiros de Turismo de Base Comunitária (TBC) na Costa Fluminense. Um dos objetivos desses roteiros é desafiar a lógica do turismo de massa e ensinar o turista a “respeitar o local que está pisando”, defende Cleusa ao destacar que a maioria dos visitantes não sabe que Arraial do Cabo abriga uma Reserva Extrativista Marinha (Resex).
Ao transformar cultura, ancestralidade e conservação ambiental em experiência, o Turismo de Base Comunitária (TBC) permite que o visitante não encontre apenas praias paradisíacas: ele mergulha em vivências conduzidas por quem nasceu e cresceu nesses territórios.
“Espero que os turistas saiam daqui divulgando nossa cooperativa como um lugar de conhecimento cultural”, declara, Cleusa.
O projeto Sol Salga e Arte, o qual Cleusa coordenou, oferece três roteiros de TBC: “Vivência de Maretório”, “Salga do peixe” e “Batuques do território”, em que os visitantes mergulham em experiências ligadas à ancestralidade caiçara e quilombola. As vivências incluem rodas de jongo, preparação de receitas tradicionais, demonstrações e muita história. Na salga artesanal do peixe, por exemplo, além de ensinar a técnica passada entre gerações para conservação do alimento, Cleusa resgata identidade e conexão com o mar. “Em cada prato que a gente apresenta, nós contamos história da comunidade local, da cultura dos batuques e receitas ancestrais” conta Cleusa.
Turismo ancestral para que as mulheres contem sua própria história

Hoje, as mulheres representam 43,7% da força de trabalho do turismo fluminense, segundo dados da Setur-RJ. Para Luciana Passos, da Associação Bonecas Negras, apoiada pelo Projeto Educação Ambiental, o TBC também representa autonomia financeira e reconhecimento para mulheres das comunidades tradicionais que historicamente ocuparam posições invisíveis dentro da cadeia produtiva da pesca artesanal. “É, sem dúvidas, uma sensação de empoderamento para mulheres de povos tradicionais. Essa possiblidade lhes dá orgulho de suas origens e o fato de gerarem renda com isso, além de favorecer suas famílias, as incentiva passar para as próximas gerações seus costumes e tradições”, celebra.
O roteiro “Rota Cultural Afro Buziana”, conduzido pelo projeto Bonecas Negras, leva os visitantes até o Quilombo da Rasa, passando pela Praça Quilombola, Praia Gorda e pelo Mangue de Pedra, um ecossistema raro, com apenas três registros no mundo. Durante o trajeto, mulheres da comunidade compartilham histórias sobre os povos escravizados e seus descendentes, transformando o território em espaço vivo de memória e cultura afro-buziana. “As próximas gerações saberão que é possível trabalhar com artesanato e costumes tradicionais”, comenta Luciana.
Dados do Ministério do Turismo, estimam que cerca de 22% da receita nacional de turismo de janeiro de 2025 tenha relação com iniciativas ligadas ao TBC. Aplicando a estimativa para realidade do Rio de Janeiro, que segundo a Setur-RJ movimentou R$ 10,6 bilhões no ano de 2025, as iniciativas de teriam recebido em torno de R$ 2,33 bilhões, reforçando o peso econômico da atividade no estado.
Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de 2020, aponta que, em modelos convencionais de turismo, grande parte da renda costuma permanecer fora dos territórios. O estudo, pesquisa internacional realizada no Delta do Okavango, em Botswana, identificou que, embora 90,6% da mão de obra fosse formada por moradores locais, apenas 58,3% da remuneração permanecia com esses trabalhadores. Nos roteiros do Bonecas Negras, Luciana tem certeza: “o dinheiro fica 100% com as participantes que gastam no município”.
Contudo, não há dados oficiais sobre o TBC, refletindo o longo caminho para consolidação do turismo comunitário com um sistema capaz de medir quanto dessa riqueza chega efetivamente às comunidades tradicionais. Embora o estado já possua políticas como a Lei Estadual de Turismo de Base Comunitária, programas de artesanato, iniciativas de qualificação profissional e editais voltados ao setor, “Há uma profunda desinformação e baixa ação por parte dos agentes públicos de turismo”, ressalta Luciana.
Transmissão de saberes ancestrais para os mais jovens

Na Costa Verde, onde Ilha Grande concentra algumas das paisagens mais visitadas do litoral fluminense, comunidades tradicionais vêm construindo um outro jeito de receber visitantes, mais conectado à memória, aos modos de vida caiçaras e à preservação do território. Segundo o estudo “Turismo de base comunitária na Região da Costa Verde (RJ): refletindo sobre um turismo que se tem e um turismo que se quer”, publicado pela UFRJ em 2016, o avanço do turismo convencional após a construção da BR-101 intensificou pressões sobre comunidades tradicionais da região.
Nesse contexto, a Associação de Moradores e Pescadores da Enseada das Estrelas (AMPEE), apoiada pelo Projeto Educação Ambiental, desenvolveu roteiros de Turismo de Base Comunitária, promoveu oficinas de cartografia social e formou 25 mulheres como guias comunitárias na Ilha Grande. As experiências, “O Cerco flutuante e abelhas nativas no Saco do Céu”, “Vivência na Cachoeira da Feiticeira e Praia de Fora” e “Mariscagem no Saco do Céu”, unem pesca artesanal, mariscagem, culinária caiçara, trilhas e memórias locais, fortalecendo a geração de renda e a transmissão de saberes ancestrais entre gerações.
Para Jaísa Assis, integrante da iniciativa, o fortalecimento dos roteiros também despertou nas mulheres o desejo de manter vivos os conhecimentos herdados de mães, avós e bisavós. “A gente viu muito essa força das mulheres, delas reconhecerem o potencial que tinham de realmente passar isso pra frente e mostrar pro mundo”, relata.
A construção desses roteiros foi inspirada por oficinas de cartografia social realizadas durante o projeto que resultou em um livro. A metodologia ajudou moradores a registrar memórias, trajetórias e referências culturais das comunidades da Enseada das Estrelas. “Caminhamos por mares, rios, pedras e árvores, mas só entramos verdadeiramente nesses lugares ao ouvir as narrativas de quem os habita. São memórias do passado e do presente, conselhos para o futuro”, reflete Jaísa.
Hoje, as experiências conduzidas pelas mulheres da comunidade conectam visitantes aos saberes que atravessam gerações. “Têm mulheres hoje que dão continuidade à mariscagem. A gente já tem terceira geração de marisqueiras, mulheres que querem levar os filhos para aprender e dar continuidade nisso”, comemora Jaísa.
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