Visto assim do alto, como já disse o compositor Paulinho da Viola sobre o morro da Mangueira, The Palm Jumeirah mais parece um céu no chão. Desenhada como uma tamareira no Golfo Pérsico por 80 milhões de metros cúbicos de aterros, a suntuosa ilha artificial de Dubai surgiu do mar disposta a ser a “oitava maravilha do mundo”.
E ela é só o começo. Em seu tronco de areia e pedra já desponta o broto de outra palmeira imobiliária, a The Palm Jebel Ali. Juntas, as duas ilhas expandirão em 120 quilômetros o contorno desse minúsculo país do Golfo Pérsico, cuja população total não passa de 1,5 milhão de pessoas – logo, cabe numa cidade do porte de Goiania.
Como se tudo isso fosse pouco, no fim do ano passado o xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum anunciou a construção de mais uma ilha. The Palm Deira, como não poderia deixar de ser, foi concebida para pôr no chinelo as irmãs mais velhas, com seus 14 quilômetros de comprimento e 8 mil residências de dois andares. E mais tarde – ou seja, lá pelo fim da década – um arquipélago de 200 ilhas, abraçadas por uma barreira circular, fará na água a reprodução do globo terrestre, com os cinco continentes transformados em condomínios fechados.
Só as duas ilhas somadas já são uma vez e meia maiores que o território original de Dubai. Nelas, a Nakheel Corporation semeará 60 hotéis, 4 mil mansões, mil casas de praia e cinco mil apartamentos, sem falar em marinas, restaurantes, shopping-centers, spas, cinemas e clubes de mergulho. Tudo de alto luxo, como manda o figurino de um paraíso petrolífero que aposta seu futuro menos nos tesouros fósseis do subsolo do que nos dólares vivos do turismo internacional.
Aliás, quem falou em dólares? No The Palm, a opulência é tamanha que os negócios são cotados em euros, cuja cotação só este ano se afastou mais 7% da moeda norte-americana. Assim, uma casa de 350 metros quadrados no The Palm sai, na planta, pela bagatela de 400 mil euros, o que em bom português se traduz por R$ 1,4 milhão e quebrados. Para mansão de 650 metros quadrados, o cacique sobe a um milhão e meio de euros – ou, trocados em miúdos, R$ 5,3 milhões.
Não é para qualquer um reservar uma cota nesse oásis de mar azul, clima sub-tropical e sol o ano inteiro, mesmo porque ele está orçado em 11 bilhões de euros – ou, sorry, periferia, R$ 39 bilhões. Em compensação, como tudo lá é desmesurado, os investidores puderam desde o começo do empreendimento acompanhar passo a passo, de qualquer lugar do mundo, o avanço de seus terrenos mar adentro, por imagens do satélite Ikonos.
Mas a verdadeira riqueza do projeto, além do clima, desde o começo estava submersa, nos recifes de corais povoados por peixes e tartarugas, que deram ao mar do golfo a reputação turística de um verdadeiro aquário oceânico. Pois é justamente ali, segundo a agência alemã DPA, que mora o perigo. Sob o título “Paraíso turístico ou pesadelo ecológico”, ela acaba de espalhar pelo mundo uma reportagem, dizendo que os aterros do The Palm estão transformando o belo fundo do mar no litoral de Dubai numa paisagem de “lama e gosma”. Isso, às vésperas da inauguração do Jumeirah, é o que se poderia chamar de má notícia.
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