Colunas

O Passado como Prioridade

Nada há a comemorar no Balanço Energético Nacional. Aparentemente, o aumento do álcool na matriz é coisa boa. Olhando de perto a política energética é um desastre.

9 de maio de 2008 · 16 anos atrás
  • Sérgio Abranches

    Mestre em Sociologia pela UnB e PhD em Ciência Política pela Universidade de Cornell

A notícia mais importante do Balanço Energético Nacional para 2007, divulgado nesta última quinta-feira seria mesmo a que a cana superou a água como fonte de energia no Brasil? Não. A informação mais importante é que aumentou o consumo de combustíveis fósseis e que o uso de carvão mineral, o pior deles, cresceu quase 10%, apenas entre 2006 e 2007.

Mas imaginemos que as manchetes refletissem realmente o que há de mais importante nos dados constantes do release divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética. O que ele significa mesmo? Significa que o álcool acompanha mais rapidamente o crescimento da demanda que a energia hidrelétrica. O álcool tem regras claras. Já as hidrelétricas licenciadas pelas autoridades ambientais raramente saem do papel, por falta de regras e de capital e pela propensão do governo atual à estatização dos empreendimentos. Aí, só consegue atrair os de sempre, acostumados a viver encostados numa estatal da qual se nutrem com pouco esforço.

O que o release mostra, com toda clareza, é que a política energética brasileira anda na contramão da tendência global de busca de redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE). O Brasil acha que tem uma matriz energética de baixo carbono. Em parte tem mesmo. Uma parcela de nossas hidrelétricas foi construída do jeito certo e tem índices de emissões de GEE muito inferiores aos de qualquer termelétrica. Mas outra parte, não menos importante, emite mais que as termelétricas a gás natural e algumas conseguem até superar as termelétricas a carvão. No release, o que se vê é que o governo faz tudo para aumentar o componente fóssil de nossa matriz energética e, para esconder o despropósito, comemora o crescimento do álcool, como se fôssemos nos tornar o país totalmente movido a bioenergia, em algum ponto do futuro.

Mas são coisas totalmente diferentes. Não estamos avançando no uso de energias renováveis no setor elétrico. Nele, o carvão avança e a energia eólica patina, embora apresente crescimento aparentemente espantoso, mas que só engana a quem não olha a sua irrisória participação na matriz. Pior ainda, se olharmos o que temos de potência eólica instalada, em relação ao potencial do país, fica claro que a política do governo para o setor poderia ser considerada ridícula, não fossem os danos que contrata para o futuro do país. Temos tudo para ser uma das primeiras economias de baixo carbono do mundo, uma vantagem comparativa e competitiva de primeira grandeza no século XXI, mas o governo e as elites que dele não desgrudam – aí incluídas as novas e as que nunca desgrudam que governo algum – perseguem, como prioridade absoluta, reinventar o padrão industrial dos anos 30-50 do século passado.

Estamos perdendo tempo, desperdiçando recursos e perseguindo o passado, quando poderíamos estar usando nossas vantagens para dar um salto de qualidade e competitividade global ainda no primeiro terço do século XXI.

Leia também

Notícias
17 de junho de 2024

Imagens mostram comboio do Exército ao lado de incêndio no Itatiaia

Câmera do parque nacional mostra momento em que veículos militares aparecem ao lado de foco de incêndio, ainda em estágio inicial. Dois dias depois, fogo já consumiu 160 hectares

Salada Verde
14 de junho de 2024

Palmeiras chama atenção para o desmatamento ilegal em partida do Brasileirão

Em ação com sua fornecedora de material esportivo, o clube jogou sua última partida com dois modelos de camisa: no primeiro tempo, mais verde; no segundo, espaços em branco

Salada Verde
14 de junho de 2024

Filhote de onça-pintada é registrado no Parque Nacional do Iguaçu

Novo filhote, batizado de Yasú, que significa "amor", em Tupi, tem pouco mais de um ano de vida

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.