A notícia mais importante do Balanço Energético Nacional para 2007, divulgado nesta última quinta-feira seria mesmo a que a cana superou a água como fonte de energia no Brasil? Não. A informação mais importante é que aumentou o consumo de combustíveis fósseis e que o uso de carvão mineral, o pior deles, cresceu quase 10%, apenas entre 2006 e 2007.
Mas imaginemos que as manchetes refletissem realmente o que há de mais importante nos dados constantes do release divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética. O que ele significa mesmo? Significa que o álcool acompanha mais rapidamente o crescimento da demanda que a energia hidrelétrica. O álcool tem regras claras. Já as hidrelétricas licenciadas pelas autoridades ambientais raramente saem do papel, por falta de regras e de capital e pela propensão do governo atual à estatização dos empreendimentos. Aí, só consegue atrair os de sempre, acostumados a viver encostados numa estatal da qual se nutrem com pouco esforço.
O que o release mostra, com toda clareza, é que a política energética brasileira anda na contramão da tendência global de busca de redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE). O Brasil acha que tem uma matriz energética de baixo carbono. Em parte tem mesmo. Uma parcela de nossas hidrelétricas foi construída do jeito certo e tem índices de emissões de GEE muito inferiores aos de qualquer termelétrica. Mas outra parte, não menos importante, emite mais que as termelétricas a gás natural e algumas conseguem até superar as termelétricas a carvão. No release, o que se vê é que o governo faz tudo para aumentar o componente fóssil de nossa matriz energética e, para esconder o despropósito, comemora o crescimento do álcool, como se fôssemos nos tornar o país totalmente movido a bioenergia, em algum ponto do futuro.
Mas são coisas totalmente diferentes. Não estamos avançando no uso de energias renováveis no setor elétrico. Nele, o carvão avança e a energia eólica patina, embora apresente crescimento aparentemente espantoso, mas que só engana a quem não olha a sua irrisória participação na matriz. Pior ainda, se olharmos o que temos de potência eólica instalada, em relação ao potencial do país, fica claro que a política do governo para o setor poderia ser considerada ridícula, não fossem os danos que contrata para o futuro do país. Temos tudo para ser uma das primeiras economias de baixo carbono do mundo, uma vantagem comparativa e competitiva de primeira grandeza no século XXI, mas o governo e as elites que dele não desgrudam – aí incluídas as novas e as que nunca desgrudam que governo algum – perseguem, como prioridade absoluta, reinventar o padrão industrial dos anos 30-50 do século passado.
Estamos perdendo tempo, desperdiçando recursos e perseguindo o passado, quando poderíamos estar usando nossas vantagens para dar um salto de qualidade e competitividade global ainda no primeiro terço do século XXI.
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