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Pobres pombos

Caso do pombo enforcado inspira reflexão sobre a vida nos centros urbanos. Os bichos que consideramos pragas às vezes têm comportamento parecido com o nosso.

1 de julho de 2005 · 21 anos atrás

O Eco noticiou há cerca de um mês:

“Pendurada pelo pescoço em um poste de luz na Praça XV, uma das mais movimentadas do Rio de Janeiro, balança, morta, ao sabor do vento há meses. Não se sabe exatamente desde quando, nem como ela foi parar ali. Fato é que quase ninguém repara. Uma das hipóteses é que o bicho tenha se enroscado em uma das linhas de pipa que ambulantes costumam vender no local. Tem gente que arrisca dizer, sarcasticamente, que ela resolveu acabar com a própria vida diante do desprezo dos transeuntes”

Trata-se de uma pomba. Essa ave de origem asiática, que convive há mais de 10 mil anos com o homem e ocupa hoje, o quarto lugar em números de chamadas para combate a pragas da Divisão de Controle de Animais Sinantrópicos (aqueles que vivem próximos aos humanos e prejudicam-nos de alguma maneira). Só perdem para ratos, escorpiões e pulgas.

Entraram para a categoria de pragas miseráveis, sem qualquer glamour. São considerados transmissores de doenças e já perderam o título de símbolo da paz há muito tempo. Em Veneza, por exemplo, repelentes específicos e sistema de eletrificação nos monumentos e prédios evitam a aproximação da espécie.

Ao contrário do que muita gente pensa, a abundância de alimentos não é a principal causa da proliferação da ave nas cidades e seu conseqüente rebaixamento à condição de peste urbana. Segundo a bióloga Mônica Schüller, que estuda o comportamento dos pombos em São Paulo, uma espécie – animal ou vegetal – passa a ser uma praga, em um dado ecossistema, quando o número de animais que se alimentam dessa espécie diminui, permitindo sua proliferação exagerada.

“Nas cidades, esse desequilíbrio ocorre porque alguns animais conseguem se adaptar a vida urbana, mas seus predadores não. Longe de riscos, a espécie encontra condições de se reproduzir descontroladamente, tornando-se uma praga”, explica. Além de não ter sérias ameaças pairando sobre suas asas, o pombo achou nas cidades outro grande agente para sua proliferação: buracos que viabilizam a formação de ninhos aos milhares.

Como uma série de outros animais, incluindo o homem, eles constroem ninhos em qualquer canto, ou melhor, buraco. Como o que não falta nos grandes centros são buracos, os pombais se reproduzem quase que infinitamente.

De todos as pestes da cidade, a mais esperta é o rato, que anda escondido, passa por tubulações que circulam debaixo, por cima e ao lado dos que se consideram decentes. Ratos comem o lixo que o homem dispensa e prefere acreditar que evaporou. O pombo ainda não desenvolveu habilidades subterrâneas, não percebeu que para sair da mira, basta se esconder.

O homem se sai bem em qualquer lugar. Produz e come lixo em cima e debaixo da terra, invade e devasta todos os campos, se mete em todos os cantos, briga por um pedaço de terra, sonha em construir seu ninho, se multiplica de forma descontrolada, destrói seus predadores (avanços da medicina), se aglomera em grandes centros porque ali é que sobram mais migalhas (dinheiro). Enfim, o homem também age como praga, faz exatamente o que fazem os pombos.

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Comentários 1

  1. Willians diz:

    Os pombos e os ratos descritos como pragas, retratam de forma fidedigna o comportamento do ser humano. Todavia, são pragas menos perniciosas, pois não têm capacidade de raciocínio, não pensam (ou pensam que pensam), não falam, ou seja, a existência se baseia no instinto. Já o ser humano? Bem…