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Caminhos para o abandono: rezai por nós pecadores

A Capela Nossa Senhora da Cabeça, no Jardim Botânico, será reformada. Enquanto isso, a trilha do rio Cabeça, uma das mais belas da cidade, continua abandonada.

14 de julho de 2005 · 16 anos atrás

Na rua Faro, número 80, dentro do terreno da Casa Maternal Mello Santos, em pleno bairro carioca do Jardim Botânico, esconde-se uma das maiores pérolas do patrimônio arquitetônico religioso do Rio de Janeiro. Trata-se da Capela Nossa Senhora da Cabeça. Ela foi edificada por Martim Corrêa de Sá, em 1603, na sesmaria que recebeu em 1594 do pai, o então governador do Rio de Janeiro, Salvador Corrêa de Sá (como se vê, o deputado Severino está longe de ter inaugurado o nepotismo no Brasil).

Tombada desde 1965, a capela é a única em todo o estado do Rio dotada de um alpendre. Toda em espessas paredes de pedra e cal, a capelinha tem uma abóboda de berço em alvenaria. Durante muitos anos, esteve abandonada e esquecida; sua última reforma deu-se em 1943. Não foi sempre assim. Durante o século XVII, acolheu as orações da fina flor da sociedade carioca. Afinal, diversos membros da família Corrêa de Sá governaram o Rio de Janeiro durante a maior parte dos séculos XVI e XVII.

Seu imenso poder foi sintetizado pelo historiador britânico Charles Boxer: “A história da Inglaterra nos anos 1600 não pode ser compreendida sem que se estude a história de Portugal. Essa por sua vez não pode ser compreendida sem que se conheça o Brasil; e o Brasil no século XVI é a dinastia dos Corrêa de Sá”. Não se tratava de figura de retórica. Boxer dedicou um livro inteiro à saga dos Sá. Nesse sentido, não é despido de significado que a outra capela mais significativa do Rio de Janeiro seiscentista tenha sido levantada pelo irmão de Martim, Gonçalo. Trata-se da capela de São Gonçalo do Amarante, construída em 1625 em Camorim, Jacarepaguá. Mas essa é outra história.

Martim Corrêa de Sá, respeitados os anacronismos, era um dedicado excursionista. Em 1597, à frente de 700 portugueses e 2 mil índios, desbravou as matas do Rio de Janeiro, percorrendo o interior, desde a capital até Cunha e daí até Pindamonhangaba. Também deve ter passeado muito pelas vertentes do terreno da Cabeça que, com sua morte, passou por vários donos: Fagundes Varela, Rodrigo de Freitas e, por fim, no início do século passado, a Coroa Portuguesa.

A partir da vinda da Família Real para o Brasil, a região do Jardim Botânico tornou-se um passeio comum para os cidadãos mais ricos da cidade. Um pouco como a Angra dos Reis ou a Búzios de nossos tempos. Um dos destinos preferidos eram os arredores da Capela de Nossa Senhora da Cabeça, cujo rio adjacente refrescava os viajantes. O privilegiado panorama foi assim descrito por Maria Graham em 1821: “Uma vista encantadora da Lagoa, com as montanhas e as matas, o oceano com três ilhotas ao largo, e no primeiro plano, uma capelinha e um vilarejo na extremidade de uma pequena e suave planície verde. A cerca de um arremesso de pedra, atrás da capela, um claro riacho (o Cabeça) despenha-se montanha abaixo, saltando de pedra em pedra, em mil cascatas pequenas, e formando cá e lá excelentes locais para banhos.”

Como se vê, não há falta de justificativas históricas para elogiar a decisão de, passados 60 e poucos anos da última guaribada, se reformar novamente a Capela de Nossa Senhora da Cabeça. Está de parabéns o Departamento Geral de Patrimônio Cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro, que em parceria com empresas privadas e com o Governo Federal está finalmente reabilitando esse importante marco histórico do Brasil.

Louvável iniciativa que, para ser completa, contudo, deveria incluir a recuperação da trilha que passa junto à capela e sobe o vale do rio que leva seu nome, galgando as vertentes outrora exploradas pelo intrépido Martim de Sá e hoje partes integrantes do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. O caminho histórico do vale do rio Cabeça é uma das trilhas mais bonitas do Brasil. Começa junto à capela e, em sua parte baixa, após quinhentos metros, passa junto a uma histórica e majestosa caixa d’água construída toda em pedra, em 1892. Dali serpenteia pelas margens coalhadas de cachoeiras e pocinhos límpidos do rio Cabeça.

Um pouco acima da caixa-d’água já é possível ver o rico calçamento em pé de moleque da trilha histórica. Em seus primeiros duzentos e cinqüenta metros, a falta de manutenção e o processo destruidor das águas desfiguraram o que um dia foi uma portentosa estrada colonial. Seixos deslocados, árvores caídas e profundos sulcos de erosão tornaram a trilha intransitável. A seu lado, foi aberta uma variante por onde passam os montanhistas e os devotos de umbanda que buscam as águas da Cabeça para fazer suas oferendas. Também nesse trecho, várias represas artesanais roubam ilegalmente as águas do Parque Nacional, ressecando a Floresta e reduzindo os pontos de aguada da fauna nativa.

Mais a frente, a estrada histórica sai do vale e ganha a serrilha. Ao optar por esse traçado, os engenheiros portugueses sabiam o que faziam. Só se contruía caminhos na parte de dentro dos vales quando não havia outra escolha. O intuito era evitar a erosão provocada pelas forças da natureza. A trilha, que a partir daí fica um pouco encoberta por uma Mata Atlântica vigorosa e luxuriante, segue subindo pelo divisor de águas, com o rio Cabeça lá embaixo, no fundo do vale. Vez por outra, o excursionista tem que descer para trocar de vertente. Nessa hora, o trabalho das estradas ganha relevo todo especial. Em pelo menos uma travessia há uma belíssima ponte feita com duas lages de pedra.

Depois de uma hora de caminhada, surge um enorme jequitibá. Em todas as minhas explorações pela Floresta da Tijuca só me lembro de ter visto mais dois de dimensões similares. Desse ponto até quase seu final, a estrada segue toda em ziguezague, que põe à mostra a magnitude das pedras bem arranjadas de um caminho histórico por onde já passaram inúmeras tropas de animais de carga e cavaleiros.

Após duas horas de subida pesada, a trilha finalmente desemboca na estrada do Redentor junto ao Hotel das Paineiras, que também é dotado de relevância histórica. Construído em 1884, personagem de Machado de Assis e concentração da seleção brasileira tricampeã do mundo em 1970, o hotel, apesar de deter o título de patrimônio histórico, também encontra-se abandonado há muitos anos. Agora, Sávio Neves, presidente do Trem do Corcovado, tem falado em reformá-lo.

Como se vê, em ambos os limites da trilha centenária do vale do rio Cabeça há bens tombados de grande importância histórica para a cidade do Rio de Janeiro. Mais ainda, o caminho passa em quase toda sua extensão por terreno do Parque Nacional da Tijuca. No trajeto, há profusão de tucanos, macacos, orquídeas e quaresmas. Reformada e bem manejada, a trilha do Cabeça poderia se constituir em acesso para os amantes da natureza e do excursionismo ao monumento do Cristo Redentor.

Estivéssemos no Peru da Trilha Inca, na Espanha do Caminho de Santiago, na Austrália de caminhos mais singelos e nem tão antigos ou em qualquer outro país que prese minimamente, seu patrimônio histórico e ambiental, a trilha do vale do Rio Cabeça seria uma das maiores atrações turísticas da cidade. Afinal, reúne história, natureza, vista panorâmica, e religião. Infelizmente, estamos no Brasil. A trilha permanece abandonada à própria sorte. Fechada, inacessível e desconhecida da vasta maioria dos cariocas (dos turistas, nem vale a pena comentar!). Resta-nos orar para que Nossa Senhora da Cabeça interceda por nós pecadores incorrigíveis, que insistimos em amar o Rio de Janeiro e sua natureza fabulosa.

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