Colunas

Onisciência e Onipotência

O que a gerência do Parque Nacional da Tijuca vai fazer com os US$ 250 mil de seu sistema de monitoramento, se ali o que falta não é informação, mas ação?

21 de julho de 2005 · 16 anos atrás

Desculpe-me o leitor se volto a comentar tema sobre o qual já escrevi em coluna anterior aqui em OECO, chamada A distância entre saber e agir, mas não pude me conter. Chegou ontem às minhas mãos, com atraso de um mês, reportagem de Túlio Brandão intitulada O Big Brother da Floresta. Nela o competente repórter de meio ambiente de O Globo, escreve sobre convênio assinado entre o IBAMA e o Fundo Francês de Cooperação Técnica para Atividades de Consultoria e Treinamento. Infelizmente a ditadura do (pouco) espaço que a imprensa impõe à substância da informação não permite que muitas dúvidas sejam esclarecidas pelo texto.

Sabe-se, contudo que, com valor de US$ 250 mil (duzentos e cinqüenta mil dólares!), o acordo vai prover o Parque Nacional da Floresta da Tijuca com um moderno sistema de monitoramento ambiental com imagens de satélite. Segundo a matéria, “a tecnologia possibilitará analisar a região num detalhamento de até 25 metros quadrados – suficiente para flagrar um acampamento de caçadores na mata”. Estranho! Em meus mais de 20 anos de caminhadas pela Floresta da Tijuca, nunca vi sequer um acampamento de caçadores associado a desmatamento. Imagino que o satélite seja capaz de fotografar acampamentos de caçadores localizados embaixo da copada das árvores.

A reportagem continua: “Será possível saber qual é a área mais crítica para reflorestamento, onde há o maior desmatamento do entorno e outros dados que apenas com a fiscalização de campo são difíceis de controlar, sobretudo numa unidade urbana como a Tijuca”. Gostaria de acreditar que as informações do satélite hão de virar ações de manejo. Se assim fosse, por que o mapeamento ambiental feito por satélite pelo Governo Estado do Rio de Janeiro em 2000, e que identificou o corredor ecológico entre a Pedra Branca e a Floresta da Tijuca como prioridade máxima para implementação, até hoje não foi reflorestado?

Sou um entusiasta da adoção de equipamentos modernos e revolucionários. Mas nesse caso, consigo imaginar pelo menos uma dezena de empregos melhores para a quantia de 250 mil dólares. Para citar apenas uma, esse dinheiro daria de sobra para construir um quartel do batalhão florestal da PM na tão desguarnecida área da Represa dos Ciganos. Os resultados do investimento, certamente, resultariam em mais informação e mais fiscalização do que mil fotos de satélite serão jamais capaz de prover.

Será preciso um sistema de monitoramento por satélite para resolver os problemas da Tijuca? O problema do parque não é de falta de informação; é de falta de ação. Informação já há de sobra. O Parque Nacional da Tijuca é pequeno e bem mapeado. Dispõe de equipe de fiscalização e tem acesso rápido ao Grupamento de Socorro Florestal e Meio Ambiente do Corpo de Bombeiros e ao Batalhão Florestal da Polícia Militar. O Grupo de Defesa Ambiental da Guarda Municipal tem seu quartel dentro dos limites da unidade. Tropas das Forças Armadas brasileiras usam diuturnamente o Parque como área de treinamento e exercício. A integridade de sua área verde e a inviolabilidade de seus limites pode ser monitorada mais do que a contento com sobrevôos de helicóptero quinzenais a que o Parque tem direito, por força do contrato de concessão do heliponto do Mirante Dona Marta.

Estes vôos estão sendo utilizados? Onde está a fiscalização de campo? Como está a coordenação com a PM, os Bombeiros e as Forças Armadas? É minha convicção, desculpem a franqueza que, com tantos recursos à mão, o Parque tem a obrigação de saber o que está acontecendo dentro de seus limites em tempo real- sem necessidade de um serviço de monitoramento por satélite.

É preciso um serviço de monitoramento por satélite para saber que os traficantes do Morro da Formiga estão abrindo uma trilha iluminada em pleno Parque? Quem suja as botas nas trilhas da Tijuca não tem acesso a satélite, mas sabe que os caçadores se concentram na parte alta dos vales do Perdido e do Ciganos, nas encostas do Thedim e do Cochrane. Sabe também que os incêndios que lambem anualmente o Morro do Elefante e as partes contíguas à estrada Grajau-Jacarepaguá coincidem com intensa atividade prévia dos criadores de vacas e cabras. Sabe também que não há fiscalização feita pelo Parque nos limites demarcatórios colocados pela Prefeitura nas comunidades faveladas do Alto e da Vila Verde, na Rocinha. Tampouco há fiscalização ou articulação com as lideranças do Borel, Dr. Catrambi, Morro do Banco e outras comunidades para monitorar o avanço dos barracos sobre a floresta. Sabe ainda que rouba-se água a rodo das nascentes do Parque, com prejuízo claro para a fauna e flora. Há necessidade de satélite para saber que há ocupação irregular na rua Senador Simonsen?

Desculpe a franqueza, mais helvética que tupiniquim, mas não creio que haja problema de informação. Parece-me que falta manejo! Quando assumi a direção da Floresta, em 1999, descobri estarrecido que dos 14 agentes lotados na unidade, apenas dois haviam subido a Pedra da Gávea-um dos picos mais procurados do Parque- nos 20 anos precedentes! Não havia patrulha sistemática no mato. Alguns fiscais sequer sabiam chegar a alguns locais prenhes de caçadores.

Para solucionar o caos, entre 1999 e 2000, o Parque Nacional da Tijuca foi dividido em gomos que eram sistematicamente patrulhados por equipes de campo. Ao final de cada mês toda sua área era coberta pela fiscalização. Resultados? 71 acampamentos de caçadores desativados. Nenhum registro de assalto em todo o biênio na Pedra da Gávea ou na Trilha Parque Lage- Corcovado.

Outras medidas adotadas trouxeram excelentes resultados. Os Bombeiros passaram a patrulhar a Pedra da Gávea todos os fins de semana, a PM participava de patrulhas quinzenais anti-caça, as Forças Armadas concordaram em fazer seus treinamentos nas áreas que a Direção do Parque considerava críticas. Os limites do Parque eram monitorados a pé e de helicóptero com freqüência que permitia pronta resposta.

Infelizmente, parece que todos esses programas foram descontinuados. Voltaram os assaltos, aumentou o desmatamento das bordas do Parque, a captação ilegal de água segue sendo feita em locais conhecidos por todos. Quem suja as botas nas trilhas do Parque tem verificado que os caçadores voltaram a agir impunemente.

Mas não devemos nos preocupar! O satélite de 250 mil dólares há de resolver isso tudo.

Leia também

Salada Verde
3 de dezembro de 2021

Paraná pretende reativar trecho brasileiro de trilha histórica que liga o Atlântico ao Pacífico

Chamada de Caminhos do Peabiru, trilha tem 1.550 no trecho paranaense, que vai de Paranaguá a Guaíra. Caminho era usado por incas e guaranis, antes da colonização

Notícias
3 de dezembro de 2021

Amapá vende terras públicas invadidas a R$ 46 o hectare

Estado possui mais de 2,5 milhões de hectares de áreas ainda não destinadas. Cerca de 50% deste total é classificado como de importância biológica extremamente alta

Reportagens
3 de dezembro de 2021

Novo Código de Mineração propõe aprovação automática de milhares de processos parados na ANM

Proposta pode afetar mais de 90 mil requerimentos que aguardam aprovações técnicas e ambientais; medida ainda interfere na criação de unidades de conservação e dificulta demarcação de terras indígenas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta