Colunas

Rios de areia

Praia nem parece natureza: um monte de areia que só serve pra sujar o pé. Mas essas micropedras coloridas são partes do continente em frágil equilíbrio.

17 de fevereiro de 2006 · 16 anos atrás
  • Frederico Brandini

    Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Trabalhou como Professor do C...

… meu braço espalhado em praia
e o mar na palma da mão
(Caetano Veloso)

Mar e praia freqüentemente se confundem na mente da maioria das pessoas. Definições e conceitos à parte, o fato é que o habitat costeiro que mais afeta o quotidiano do brasileiro “litorâneo” é, sem dúvida, a praia. Séculos após receberam os primeiros passos de nossos colonizadores, as praias continuam a ter papel fundamental na história, cultura e socioeconomia do Brasil. Talvez divida com as palavras amor, benzinho, morena e uábadábadá um destaque especial na MPB. A importância das praias para o turismo mundial dispensa comentários. E agora as praias são importantes até nas Olimpíadas.

Em determinados momentos no pico do verão algumas praias brasileiras chegam a ter a maior densidade demográfica do país, com até um, dois ou mais habitantes por metro quadrado. Exceto os pescadores artesanais de norte a sul, que necessitam delas para acesso ao mar com jangadas, botes e canoas, a praia é vista pela maioria dos brasileiros apenas como um ambiente de lazer. Existem aspectos do ambiente praial que passam totalmente despercebidos e nunca são processados pela mente humana, que continua achando que praia, mar, litoral e férias são quase que sinônimos.

As praias são na realidade ambientes extremamente dinâmicos. Só que tudo acontece em câmara hiperlenta. Nem monge budista teria paciência de observar e entender o que se passa com a areia da praia. Mas se fotografarmos o mesmo ângulo de uma determinada praia todos os dias durante um ano, focando sobretudo a faixa mais próxima ao mar, veremos toda a dinâmica praial em poucos segundos. Um processo contínuo de deposição e erosão de toneladas de grãos de areia, locomovendo-se paralelamente ao mar com maior ou menor velocidade em função da agitação das ondas, correntes litorâneas, ventos, ressacas e marés.

Podemos perceber facilmente as alterações anuais de praias que costumamos freqüentar. Nossas praias favoritas revelam mudanças cada vez que as visitamos, como resultado desse processo. Quanto mais demoramos em voltar ao mesmo local, mais percebemos a diferença entre o que é e o que foi. Uma mistura de mudanças naturais e detalhes perdidos na memória da nossa infância e juventude durante as férias de verão.

Entra e sai

Em praias desertas, sem interferência humana (o que é cada vez mais raro), a quantidade de areia que entra e sai de cada metro quadrado de praia está em equilíbrio. Mais especificamente, o balanço de sedimentos, isto é, a diferença entre o crédito e o débito de sedimentos na praia, é sempre igual. O que é momentaneamente retirado pela turbulência de uma determinada onda, e levado à jusante do sentido da corrente paralela a praia, volta na próxima onda trazido pela corrente à montante. Como num rio. Um rio de areia.

Infelizmente, as sociedades costeiras de todo o mundo, sobretudo as grandes cidades à beira-mar, tendem a interferir drasticamente no balanço de sedimentos das praias. O desequilíbrio dinâmico provoca erosão de um lado e assoreamento de outro. Erosão e assoreamento são, respectivamente, débitos e créditos em excesso que modificam completamente a paisagem praial. Isso pode ser ruim ou bom, dependendo da magnitude do processo. Se for pouco, pode formar uma piscininha ou uma ilhota de areia. Turista adora essas coisas. Mas isso pode ser o começo de uma ameaça à integridade da linha da costa da região.

A erosão de praias, devido a obras marinhas mal planejadas, provoca graves problemas no litoral. Na melhor das hipóteses prejudica o turismo, desvaloriza propriedades e enfeia a paisagem. Na pior das hipóteses destrói a vegetação costeira e os ninhos de tartarugas marinhas, que são expostos na maré baixa, e arriscam vidas humanas quando prédios da orla marítima caem por falta de apoio. Ao longo da costa brasileira existem exemplos vergonhosos como conseqüência da ignorância total desses processos por pessoas que deveriam saber. Turistas não são obrigados a saber. Mas engenheiros, que se arvoram a construir à beira-mar, deveriam.

Claro que o problema não ocorre só no Brasil. Estima-se que 70% da linha de costa arenosa de todo o mundo esteja comprometida com esse desequilíbrio. Obras e dragagens na zona costeira sem planejamento técnico alteram não apenas o fluxo natural das correntes locais como também a quantidade de areia que antes fazia parte do processo.

Restos de continente

Saiba mais sobre erosão no site http://www.cpgg.ufba.br/lec/BEeros.htm

Leia também

Reportagens
23 de maio de 2022

Governo não fechou 645 lixões, como afirma Bolsonaro

Cruzamento de dados oficiais e consulta direta a prefeituras mostram ser falso principal anúncio da “agenda ambiental urbana” do governo

Notícias
20 de maio de 2022

Alto custo é principal barreira para visitação de parques

De acordo com estudo, alto custo da viagem, distância e falta de informações disponíveis são os principais obstáculos para visitação de parques naturais

Notícias
20 de maio de 2022

Presidenciáveis recebem plano para reverter boiadas ambientais de Bolsonaro

Estratégia ‘Brasil 2045’ propõe medidas para reconstruir política ambiental brasileira e fazer país retomar posição de liderança global em meio ambiente

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta