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Porque ela está lá!

Existem montanhistas velhos e existem montanhistas ousados. Mas não existem montanhistas velhos e ousados, diz um ditado do aplinismo. Eu quero ser uma montanhista velha.

7 de maio de 2007 · 14 anos atrás
  • Helena Artmann

    Montanhista e balonista há mais de 16 anos, tendo feito mais de 15 expedições para alta montanha. É formada em Comunicação So...

George Mallory respondeu, certa vez, o motivo de escalar uma montanha com o título desta coluna: porque ela está lá.

Enquanto espero meu filho nascer, leio mais um livro de montanha: Breaking Trail – A Climbing Life, da montanhista americana Arlene Blum. As histórias, sempre parecidas, são recheadas de tragédias, avalanches, tempestades, nevascas, mortes. Talvez mesmo por isso estes livros vendem tanto. Eu os compro, mas não é por isso e sim pela fascinação que o assunto exerce sobre mim.

Arlene nasceu em 1945, começou a escalar nos anos 60 e sempre fez coisas ousadas para sua época, principalmente sendo mulher. Foi rejeitada em muitas expedições justamente por isso. Acabou formando suas próprias expedições compostas só de mulheres e ficou famosa pela primeira expedição feminina ao Annapurna, usando o sugestivo slogan ‘o lugar de uma mulher é no topo… Annapurna’ para conseguir fundos e custear a viagem (ela conseguiu cerca de 80 mil dólares com a venda das camisetas. E as vende até hoje, 27 anos depois!).

De família judia, morava com a mãe e os avós maternos, que achavam que ela devia achar um marido judeu e se casar, ao invés de viajar pelo mundo escalando montanhas ou se dedicar aos estudos – quando decidiu fazer o doutorado, a família comentou que era estudo demais para uma mulher. Contrária a todos, viajou pelo mundo escalando montanhas muitas vezes sendo a única mulher do grupo e hoje é uma importante bioquímica, dedicando parte de sua vida à pesquisa em universidades da Califórnia.

Uma de suas mais importantes expedições foi a primeira feminina ao McKinley (Denali), no Alasca, considerada a montanha mais fria do mundo. Sempre interessada em formar times de mulheres escaladoras, Arlene botava anúncio em jornais de associações e clubes de escalada para encontrá-las. E sempre recebia respostas. No Denali, as seis integrantes da expedição chegaram ao cume, juntas, e desceram, sendo obrigadas a resgatar a chefe da expedição em uma noite passada quase ao relento com temperaturas beirando os –40oC! Arlene tinha cerca de 25 anos e, assim, foi aprendendo os truques e necessidades de uma chefe de expedição, papel que desempenhou com alguma frequência depois.

Ao terminar a graduação na Universidade de Berkeley, Califórnia (EUA), ela decidiu fazer uma viagem de 14 meses escalando montanhas, inspirada pelo filme de surfistas chamado Alegria de Verão (Endless Summer). A viagem ganhou o nome de Endless Winter e ela esteve na Etiópia, Uganda, Quênia, Congo e Tanzania (África), Índia, Afeganistão e Nepal (Ásia) e terminou a viagem na Austrália e Nova Zelândia. A partir desta viagem, conheceu montanhas de mais de sete mil metros de altitude e começou a sonhar com os gigantes da Terra, as 14 montanhas acima dos oito mil que existem. Conheceu a polaca Wanda Rutkiewicz, uma das mais fortes alpinistas que o mundo já viu e que morreu anos depois quando subia o Kanchenjunga (8.586m), seu quinto ou sexto oito mil, e começaram, juntas, a planejar expedições femininas a altas montanhas. Foi a partir deste encontro que saiu a expedição ao Annapurna (que não contou com a presença de Wanda).

É interessante ver nomes famosos em seu livro, gente como Reinhold Messner, Doug Scott e tantos outros. Era outra época, uma época onde todos se encontravam ou, mais cedo ou mais tarde, acabavam se conhecendo. A comunidade de montanhistas era ainda bem pequena comparada ao que temos hoje. Uma época onde o romantismo ainda estava presente e uma equipe enorme era recrutada para que poucos conseguissem chegar ao cume (normalmente, se faziam dois times de dois ou três que tentavam o cume em duas janelas de tempo bom diferentes). A vitória de um era a vitória da equipe, o egoísmo não estava tão presente quanto hoje em dia, onde o dinheiro (somas altíssimas!) vale mais e quem pagou para escalar uma montanha quer a possibilidade de pelo menos tentar chegar no cume

Outra coisa que me chamou a atenção foi a despreocupação em efetivamente se chegar ao cume – para Arlene, a vida vale mais e ela desistiu várias vezes a metros de cumes importantes e muito altos quando se viu no meio de uma tempestade. Não à toa, está viva ainda! E me lembrei de uma frase de montanha: “existem montanhistas velhos e existem montanhistas ousados. Mas não existem montanhistas velhos e ousados”. Quero ser uma montanhista velha… E lembro de ter comentado com um grande amigo que voltar inteira, com todos os dedos, sempre fez parte dos meus planos.

O cume é importante quando você tem patrocinadores te cobrando um resultado. Pressão. Para piorar, o Brasil está longe de todas as grandes montanhas, temos sempre uma viagem internacional para fazer, equipamentos caros para comprar, muito tempo longe do trabalho, dos amigos, da família. Se queremos continuar nesta vida, precisamos de algum sucesso e, aí, a pressão. Pressão interna para termos resultados positivos e algum sucesso. Pressão da mídia, que só se interessa em primeiros, únicos, exclusivos. Pressão do patrocinador, que está dando dinheiro para uma empreitada que tenha alguma chance de sucesso, que permita alguma exposição na mídia, sem ter de se pagar a mais para isso.

No caso de Arlene, isso pouco importava – e ela podia aproveitar a montanha em toda a sua extensão, sem precisar se matar para isso. É claro que existe prazer em se pisar no topo de um objetivo há muito sonhado, mas não é só isso que importa – o caminho conta, e muito. Eu diria até que é mais importante e mais intenso que os poucos minutos passados no topo. E, como sempre falei, o topo é apenas a metade do caminho… E é a metade mais ‘segura’, já que a maioria dos acidentes acontece na descida, o que faz sentido, já que o ‘objetivo’ pelo menos psicológico já foi cumprido. Me transporto para o livro dela e lembro de montanhas que deixei de subir, outras que deixei em determinado momento, voltando depois para conclui-las. E percebi, nestas mais de 15 expedições que fiz por aí, que aprendi mais quando não cheguei ao cume. Aprendi valiosas lições de humildade, auto-conhecimento, respeito e prazer, prazer em repetir um caminho exaustivamente, quando o que eu mais queria era terminar logo com aquele sofrimento. Prazer em descobrir prazer no sofrimento e na vida dura que a montanha nos proporciona.

Arlene fala no incansável processo de carregar material para acampamentos mais altos, neste ir e vir interminável, que permite não apenas ao corpo se aclimatar como também vai equipando a montanha para o objetivo final: o cume. No verão passado, voltei para uma montanha de gelo, no quintal de casa. Uma montanha de pouco mais de três mil metros de altitude, no coração das Rochosas Canadenses, com conforto suficiente para ser feita em apenas dois ou três dias, e um refúgio na base do glaciar, que nos serviu de abrigo nestas duas noites que lá passamos (é um luxo não ter de carregar barracas, fogareiros, panelas etc). E percebi, ali, como gosto deste ambiente, como sinto falta dele, como tenho, hoje, oportunidade de fazer isto em um final de semana qualquer e que pouco me importa o tamanho da montanha ou o estilo que vou usar para subi-la. Eu estou na montanha? Pois é lá que quero estar, sempre…

Visite www.arleneblum.com para saber mais sobre esta fantástica mulher.

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