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De onças e de ariranhas no Pantanal

Predadores por natureza, onças e ariranhas não escaparam das ameaças impostas pela mão humana. Com a ajuda da lei e de São Pedro, espécies parecem se recuperar no Pantanal.

23 de setembro de 2008 · 14 anos atrás
  • Peter G. Crawshaw Jr.

    Formado em Ciências Biológicas em 1977 pela Unisinos, RS, com mestrado e doutorado pela Universidade da Florida. Trabalhou no...

Foto: Caroline Leuchtenberger
Foto: Caroline Leuchtenberger

Por muitos anos, onças-pintadas e ariranhas foram perseguidas por caçadores para o comércio de suas peles. Mesmo depois da publicação da Lei 5.197/1967 (Lei de Proteção à Fauna), a caça dessas espécies continuou a diminuir suas populações.

O famoso zoólogo George Schaller teve dificuldade em encontrar uma área com uma população adequada quando veio para o Pantanal realizar o primeiro estudo da onça-pintada, isso em 1977.  Da mesma forma, o médico-conservacionista Jorge Schweizer, em seu livro Ariranhas no Pantanal, relata a dificuldade de avistar uma ariranha nos rios do Pantanal, na década de 1980.

Atualmente, as populações dessas espécies parecem ter se recuperado no Pantanal, a julgar pelos relatos de encontros com esses grandes predadores, tanto por moradores da região, quanto por turistas.

Na verdade, aparentemente, a recuperação dessas espécies não aconteceu como fruto de um programa bem-sucedido de conservação, mas como conseqüência de vários fatores associados. Certamente, a Lei de Proteção à Fauna teve um impacto positivo, embora tenha tido seu efeito retardado pela liberação dos estoques de peles acumulados na época. Em segundo lugar, a proibição do comércio internacional de peles, associado à Cites – Convenção Internacional sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas, teve efeito decisivo em aumentar as dificuldades para a comercialização de peles.

Durante a primeira metade da década de 1980, o combate ferrenho pelo então INAMB – Instituto de Preservação e Controle Ambiental de Mato Grosso do Sul e pela Polícia Florestal com os coureiros reduziram drasticamente a caça aos jacarés e, por extensão, a muitas outras espécies da fauna pantaneira.  Além dessas medidas, a estação de cheia no ano de 1974 inundou vastas áreas da região mais baixa do Pantanal, depois de mais de duas décadas de estações de secas pronunciadas, em que as fazendas povoaram de gado mesmo as partes mais baixas. Com essa enchente, 2/3 do rebanho bovino no município de Poconé, por exemplo, morreu afogado, e as fazendas tiveram que retrair suas atividades, muitas delas decretando falência.

Com o despovoamento de moradores e até de comunidades inteiras de uma grande área central do Pantanal, juntamente com uma pressão muito menor da caça, mesmo acidental ou de subsistência, as onças puderam se recuperar, predando principalmente jacarés e capivaras, cujas populações também aumentaram. A partir daí, a onça-pintada pôde voltar a ocupar áreas onde ela tinha sido localmente extinta. Para as ariranhas em particular, o volume muito maior de água, durante o ano todo, resultante do novo ciclo de enchentes altas, e o aumento provável na disponibilidade de peixes, seu alimento principal, certamente propiciou a recuperação das populações e a re-colonização de áreas.

A rara foto acima foi registrada durante observações de campo pela bióloga Caroline Leuchtenberger no Rio Vermelho, no Pantanal do Mato Grosso do Sul, onde ela estudava o comportamento social de ariranhas, tema de sua tese de mestrado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.  Como se não bastassem o tema e a espécie extremamente interessantes, a bióloga ficou conhecida entre seus colegas por sua sorte inquestionável para ver, além de sua espécie de estudo, também onças-pintadas. 

No dia 20 de setembro de 2007, quando fazia observações de ariranhas, deparou-se com um casal de onças-pintadas na margem do Rio Vermelho.  Parando o barco na outra margem, ela começou a anotar o comportamento do casal, ficando evidente que o macho cortejava a fêmea, que, no entanto, ainda não estava muito receptiva às suas tentativas. Em um dado momento, quando o macho se encontrava à beira d’água, uma ariranha, que Caroline imediatamente reconheceu como um dos seus animais de estudo, de nome Pinta (as ariranhas podem ser reconhecidas individualmente pelas manchas esbranquiçadas características que tem na garganta e às vezes se estendem até o peito), emergiu a poucos metros da onça.  Talvez pressentindo perigo, ela rapidamente mergulhou e desapareceu. Embora o evento tenha durado poucos segundos, ele trouxe à tona várias perguntas sobre o possível relacionamento entre essas duas espécies de predadores. 

Embora eu tenha já acumulado alguma experiência no estudo das onças, nos últimos 30 anos, experiência essa somada recentemente àquelas de vários colegas com projetos atualmente em curso, nunca ouvi falar de quaisquer interações, apesar de as duas espécies coexistirem e utilizarem intensamente os cursos d’água no Pantanal. 

Segundo a pesquisadora norte-americana Nicole Duplaix, que fez o primeiro estudo de ariranhas na natureza, no Suriname, na década de 1970, há relatos não-confirmados de predação de ariranhas por onças-pintadas, na Guiana e no Suriname. O mais provável é que, como elas não competem entre si por recursos, simplesmente se respeitem e se evitem quando acontecem encontros fortuitos, como parece ter sido o caso descrito acima.

Relações com gente

Como a onça-pintada, as ariranhas carregam o estigma de serem considerados animais ferozes. Vale lembra de um incidente ocorrido no Parque Zoológico de Brasília, em 1977.   No dia 27 de agosto daquele ano, o sargento do Exército Sílvio Delmar Holenbach pulou no recinto dos animais para tirar um menino de 13 anos que havia caído lá dentro. Infelizmente, o sargento veio a falecer no hospital, após o ataque das ariranhas. 

No entanto, há que se lembrar que, na verdade, os animais estavam defendendo o seu território, que havia sido invadido, com o agravante de os mesmos terem seu comportamento já alterado pelas condições de cativeiro em que viviam.  E, mais importante, a causa do óbito foi por infecção generalizada e não em decorrência dos ferimentos propriamente ditos.

Na verdade, conforme comprovado por Caroline em seu estudo, as ariranhas são criaturas curiosas por natureza e esta curiosidade pode, muitas vezes, assustar o observador.  É natural que ariranhas se aproximem de barcos ou pessoas que estejam em seu território. Elas erguem as cabeças para fora da água, como um periscópio, vocalizando com bufos que alertam os demais indivíduos do grupo de perigo em potencial. Este comportamento pode assustar as pessoas, associando com agressividade, quando o animal só quer saber “o quê” ou “quem” está entrando na sua área. Uma vez identificado o “intruso”, o grupo geralmente se afasta. No caso do Zoológico de Brasília, o grupo não pode se afastar, pelo recinto ser fechado, e o intruso teve que ser atacado, como forma de defesa.

Comportamento

Foto: Carlos Lehn
Foto: Carlos Lehn

A ariranha é a maior lontra do mundo e também a mais ameaçada de extinção. Vive em grupos familiares que podem chegar a até 20 indivíduos. O grupo é organizado em um sistema de cooperação, onde os jovens ajudam a cuidar dos filhotes do casal dominante, único que pode reproduzir dentro da comunidade. Quando um jovem decide abandonar o grupo, vagueia em busca de um parceiro ou parceira e é chamado de solitário ou transeunte.

Os grupos familiares defendem territórios ao longo dos rios, que podem chegar a aproximadamente 10 quilômetros de extensão. As ariranhas usam sinais químicos e vocalizações bem variadas para sinalizar sua presença e evitar que grupos vizinhos tentem invadir o seu território.

Para diminuir o risco de encontros agonísticos (que levem a brigas e disputas), o grupo todo se envolve em um ritual de marcação. São várias horas diárias destinadas a deixar odores pelo território, com urina e fezes, depositadas em latrinas comunais. Estas latrinas são visitadas periodicamente pelo grupo para refrescar a “informação”. O macho dominante lidera a prática, pois é ele quem mais se dedica a garantir que o território está bem informado sobre sua presença.

A marcação começa no início da manhã, assim que o grupo sai de sua toca. Geralmente, antes de sair para pescar, os indivíduos vão aos locais de marcação para deixar os seus sinais. São muitos minutos de dedicação. Enquanto isso, a fêmea dominante se dedica às demais atividades do grupo, como pescar, descansar e cuidar dos filhotes. Aliás, as atividades de educar os filhotes são quase que exclusivamente da mãe, conforme mostrado por um episódio filmado, em que o macho se mostrou completamente incompetente em se fazer seguir pela “horda” de seis irrequietos filhotes.  Bastou um assobio da mãe para restaurar a ordem na família!

Se depender da sorte de Caroline, esperamos que ela tenha outras oportunidades de aprender mais sobre o comportamento das ariranhas em terra de onça-pintada, pois os seus estudos devem continuar por pelo menos mais quatro anos.  Depois de concluir seu mestrado, em março passado, ela iniciará seu projeto de doutorado junto ao Programa de Pós-graduação em Ecologia do Inpa – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, onde irá aparelhar ariranhas com transmissores.

O monitoramento intensivo permitirá preencher uma lacuna no conhecimento da biologia das ariranhas, sobre onde elas vão quando somem dos cursos principais dos rios, durante o período de cheia no Pantanal.

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