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Índios Xavantes, desterrados e esquecidos

A história dos Xavantes é de expulsão de suas terras originais pelo próprio governo, e a luta para reavê-las há 20 anos, desde a Rio92.

20 de junho de 2012 · 9 anos atrás
  • Adriano Gambarini

    É geólogo de formação, com especialização em Espeleologia. É fotografo profissional desde 92 e autor de 14 livros fotográfico...

Esta história que lhes conto é sobre luta. É sobre a busca por direitos humanos. É a história de um povo que há 20 anos vive sob a sombra de uma promessa. É sobre a ganância dos brancos.

Esta história é sobre a ECO92 ou Rio92 e sua sósia, a Rio+20.

E para tanto, pego as palavras de Andréia Fanzeres, que durante tantos anos escreveu e editou as páginas de ((o))eco, agora rege a comunicação da Organização Operação Amazônia Nativa – OPAN, que entre outros povos indígenas, busca soluções para os Xavante.

Em 1966, os Xavante de Marãiwatsédé foram retirados de sua terra à força pelo governo brasileiro e levados para a Missão Salesiana São Marcos, onde foram catequizados e escolarizados. A intenção do governo militar na época era liberar o espaço para permitir o avanço das frentes de ocupação do Centro Oeste e da Amazônia.

Durante a Eco 92, proprietários da empresa italiana Agip Petroli, que haviam comprado um latifúndio dentro do território indígena, prometeram, por pressão internacional, devolver a área aos seus verdadeiros e legítimos donos.

Hoje, mesmo com o território reconhecido, demarcado e homologado desde 1998, e tendo vencido as batalhas judiciais pela retirada dos fazendeiros e políticos que incentivaram a invasão à terra indígena, as ameaças à integridade física, cultural e territorial Xavante continuam. Nenhum invasor foi retirado pelo governo, mesmo depois de dois anos da decisão da Justiça reconhecendo que o território foi invadido de má fé, e que os indígenas têm o pleno direito aos 165 mil hectares homologados e que os ocupantes não podem pleitear indenização.

Mesmo ao conseguir entrar na sua terra demarcada em 2004 com apoio da Polícia Federal, a hostilidade dos fazendeiros vizinhos, entre os quais prefeitos e políticos importantes da região, faz com que os indígenas sofram constantemente ameaças de morte. Por este motivo, os Xavante se mantém unidos em 1 única aldeia com 800 pessoas, das quais 300 são crianças, exercendo grande pressão ambiental sobre os parcos recursos florestais que restaram em seu território depois de décadas de intensa devastação.

Apoiando os ocupantes ilegais de Marãiwatsédé, o governo de Mato Grosso pressiona pela possibilidade de troca do território indígena pela área de um parque estadual, para onde os índios seriam novamente retirados a fim de permitir a consolidação da ocupação ilegal, que rende ao estado divisas provenientes da soja e da pecuária. Também com apoio do estado de MT, políticos pressionam pela criação da sede de um município no coração de Marãiwatsédé, onde existe hoje uma vila conhecida como Posto da Mata, aberta pelos invasores com hotel, escola, comércio, posto de gasolina e até uma unidade da polícia militar estadual.

Os Xavante se autodenominam A’uwê Uptabi (“gente verdadeira”). Pertencem ao tronco lingüístico macro-jê e à família lingüística jê. São um povo tradicionalmente coletor, caçador e pescador. Seus principais rituais incluem: oi’ó, dahono, darini, wa’ía, entre outros. Produzem artesanato com o buriti, algodão, madeira e algumas sementes. Apesar das ameaças à sua soberania territorial, a cultura Xavante continua a se manifestar com extrema vitalidade, sendo retransmitida de geração em geração através da língua, dos rituais e cerimoniais. Entre suas práticas esportivas estão o uiwede (“corrida de tora de buriti”), uma corrida de revezamento em que duas equipes de gerações diferentes correm cerca de 8 km, passando uma tora de palmeira de buriti de cerca de 80 kg de um ombro para o outro até chegarem ao pátio da aldeia.

Agora, na Rio+20, os Xavantes estão lá, na Cúpula dos Povos, buscando a solução para os 20 anos de promessas infundadas. Estão lá, para mostrar que existem, que Marãiwatsédé existe, que sua cultura e tradições existem. E se existem, devem ser respeitadas.

Saiba mais: maraiwatsede.wordpress.com

Leia também
Nossa página de Rio+20

Veja outros ensaios de Adriano Gambarini sobre a Amazônia:

Aventura, arqueologia e um novo mundo em Marajó
As expedições à ‘Calha Norte’

 

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