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As espetaculares e mal cuidadas paisagens da Serra da Canastra

Trilhas do Parque Nacional na parte sul vivem abandonadas e sem a presença do ICMBio. Apesar dos problemas, beleza da paisagem persiste

15 de janeiro de 2018 · 7 anos atrás
  • Marc Dourojeanni

    Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interam...

As paisagens da Serra da Canastra são um espetáculo à parte. Foto: Marc Dourojeanni.
As paisagens da Serra da Canastra são um espetáculo à parte. Foto: Marc Dourojeanni.

Como todos sabem, a Serra da Canastra é um lugar espetacular. E neste caso me refiro apenas ao setor sul, também conhecido como Serra Negra. O lugar oferece vistas únicas e, quando o visitante se afasta um pouco das estradinhas mais frequentadas, se tem o privilégio de ver amostras muito bem preservadas da vegetação natural, incluindo cerrado, matas ciliares, campos e campos rupestres, tanto secos como úmidos, além de setores rochosos. Nesta última visita, não fomos beneficiados com a presença de fauna particularmente interessante, exceto um distante Urubu-rei (Sarcoramphus papa). Mas as paisagens, em especial as que exibem a denominada Serra Branca, são magníficas. É disso, das paisagens, que quero falar nesta nota.

Foto: Marc Dourojeanni.
Foto: Marc Dourojeanni.

Sendo as paisagens um dos atrativos mais importantes da Serra da Canastra, elas deveriam ser muito bem preservadas. No entanto, o que se observa é exatamente o oposto: desmatamentos nas pastagens, que estão em mau estado ou francamente degradadas, e gado por toda parte. Se veem estradas e estradinhas pessimamente desenhadas e construídas que, transformadas em cursos de água, terminam sendo voçorocas que mostram as entranhas das montanhas. Essas “feridas” são vistas por todo lado.

Há também os motoqueiros que, para radicalizar seu esporte, sobem pelas ladeiras mais empinadas das montanhas sem respeitar nada. Muitas vezes, parecem escolher os locais mais visíveis na paisagem, como para garantir que todos vejam suas proezas. E, claro, elas são percebidas a quilômetros de distância, de um lado ao outro dos vales. Essas subidas e descidas, reiteradas inúmeras vezes, terminam tirando toda a vegetação sobre áreas consideráveis e provocam erosões violentas e deslizamentos de terra. Também há outros que entram na mata por qualquer lugar, criando trilhas novas e espantando os bichos. Em resumo, os motoqueiros fazem lá tudo o que é proibido num parque nacional. Não se discute o direito legítimo de praticar esportes radicais, para isso o país tem muito espaço. Porém, é luxo demais fazer isso num dos parques mais lindos do país, apesar dessa parte dele não estar desapropriada.

Rastros deixados por motoqueiros que não respeitam a beleza do lugar. Foto: Marc Dourojeanni.
Rastros deixados por motoqueiros que não respeitam a beleza do lugar. Foto: Marc Dourojeanni.

Parque nacional? Qual parque nacional? Sim, tudo o que foi relatado até agora ocorreu dentro de um parque nacional. Mas, durante os dois dias de travessia de trilhas, não se viu sequer um cartaz oficial informando que esse território pertence a uma área protegida, e muito menos se viu um funcionário ou uma viatura dessa instituição federal que tem o nome de um seringueiro muito famoso. A autoridade ambiental brilha pela sua ausência.

Dizem por lá que o pessoal do parque está concentrado no lado norte e, obviamente, se está informado de que a maior parte da área do parque não foi desapropriada e que continua nas mãos de proprietários rurais. Estes, ao que parece, não foram informados do real valor do que ainda está no seu poder. Alguém deveria, por exemplo, lhes dizer que, quanto mais degradam ou permitem degradar as suas posses, menos receberão do Estado por elas, no dia em que finalmente este se decida a pagar por elas o preço justo.Esses proprietários, no entanto, após décadas de expectativa estéril, não parecem esperar mais nada. E é impossível não sentir simpatia por eles ou, pelo menos, compreender as suas atitudes.

Caminhos rurais mal desenhados se convertem em torrentes com alto poder erosivo. Foto: Marc Dourojeanni.
Caminhos rurais mal desenhados se convertem em torrentes com alto poder erosivo. Foto: Marc Dourojeanni.

A maioria dos motoqueiros da Serra da Canastra é gente alegre, simpática e bem-educada. Nem se parecem aos horríveis motoqueiros bandidos vestidos de preto dos filmes norte-americanos. Muitos obedecem às regras não escritas que permitem não agredir demais o entorno, aproveitando as estradas e estradinhas. Mas, os mais “machos”, que nunca faltam, atravessam o campo ou, pior, sobem pelas ladeiras mais difíceis sem levar em consideração a pouca profundidade do solo, ocasionando as cicatrizes antes mencionadas. O mais estranho é que, se interrogados, todos eles se declaram ambientalistas. Como me foi comentado, se alguém der um tiro de espingarda em uma codorna na frente deles, eles poderiam crucificar o caçador, sem perceber que fazem muito mais danos, mais permanentes, ao ambiente com as suas motocicletas do que o caçador eventual. É o de sempre, “reparas no cisco no olho alheio, mas não percebes a viga que está no teu próprio olho”. Mas aqui não se trata de favorecer caçadores ou motoqueiros. Ambos desenvolvem atividades incompatíveis com uma unidade de conservação. Ponto final.

Oxalá o Estado finalmente se decida a fazer o que é sua obrigação, ou seja, desapropriar as terras que ainda são privadas e estar presente nessa parte do parque. Quando fazer isso, deverá ver como restaurar a destruição ocasionada por estradinhas malfeitas e, em especial, pelos motoqueiros. Por enquanto, não faria dano um mínimo de presença do tal de Chico Mendes no local, pelo menos educando aos donos de cachoeiras que albergam essas bandas de motoqueiros, sobre a necessidade de um pouco de respeito pela natureza que mantém o negócio deles. A Serra da Canastra bem merece isso em benefício de todos os cidadãos que realmente gostam da natureza e das suas paisagens.

Centenas de motocicletas, quadrimotos e outros veículos motorizados invadem o parque a cada fim de semana. Foto: Marc Dourojeanni.
Centenas de motocicletas, quadrimotos e outros veículos motorizados invadem o parque a cada fim de semana. Foto: Marc Dourojeanni.

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Comentários 6

  1. Wagner diz:

    A Serra da Canastra é muito bem Preservada e Era uma área Particular da minha família desde o século XVIII, os descendentes do Coronel Florêncio Rodrigues Nunes que recebeu do Império a incumbência de Explorar de Forma Legal e comprou Terras por lá. Só fala besteira quando fala em Ambientalismo e contra o Produtor Rural. Meu tataravô era mais Ambientalista que muitos. Meu Bisavô era assim, bem como meu avô.


  2. Alessandro diz:

    O Sr está muito mal informado sobre nossa região, visitou em sua maioria areas particulares onde o Icmbio não pode se quer vistoriar a propriedade sem autorização judicial(Movimento Canastra Livre). Já foram existiram em alguns locais placas falando sobre a area do parque, só que todas foram destruídas, IcmBio já fez operações já ouve aprensões de motocicletas, tentativas de conter os trilheiros já ouve. Antes de sair falando inverdades por ai da região volte a Serra da Canastra e procure conhecer a realidade da Unidade de conservação, vá até o escritório do parque ou contrate um guia local capacitado.


  3. Absalão diz:

    "…dessa instituição federal que tem o nome de um seringueiro muito famoso. A autoridade ambiental brilha pela sua ausência." Não sei quem leva a eleição esse ano, única certeza é que a tal instituição já era no próximo governo! (Não, Marina não será eleita).


  4. Mauricio Mercadante diz:

  5. Carlos L. Magalhães diz:

    Excelente texto – como sempre – do Marc.

    No entanto, se parte da área ainda não está desapropriada, esta não é na realidade parque, e sim propriedade particular, disponível para fruição do proprietário como bem entender, respeitadas, lógico, as postulações legais.

    Se no PN de Itatiaia, muitíssimo mais antigo, ainda tem gente morando DENTRO da UC, calculem o tempo que vai levar para a completa regularização do Parque da Canastra…


  6. Miguel Milano diz:

    Mais um belo texto de Marc, um desenho triste (muito triste) retratando a realidade mais ou menos padrão das unidades de conservação do nosso país. Mais uma lição de um grande mestre numa crítica simples mas não rasa, com base na observação direta e percepção de quem entende, como deveria ser o padrão para qualquer integrante do staff de uma organização como o ICMBio. Mas há avanços em curso nos campos de concessões à iniciativa privada (quiçá decolem ainda que tardiamente) e também na regulação do uso dos recursos de compensação ambiental (que podem desatar um dos nós que emperram a regularização fundiárias dessas áreas). Obrigado por ajudar a fazer ver coisas óbvias e evidentes mas que, de tão comuns ainda que irregulares ou inadequadas, passam desapercebidas por quem deveria agir coibindo-as.