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O todo é maior do que a soma das partes

Podemos ter excelentes protocolos, uma equipe treinada, equipamentos adequados e as melhores medidas preventivas. Mas há algo que não cabe no checklist: a construção da relação

2 de setembro de 2026
  • Yara de Melo Barros

    Doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil, coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu e pesquisadora Associada do Instituto Pró Carnívoros.

Entre os dias 26 e 28 de agosto, realizamos o I Simpósio Internacional de Coexistência (SICOEX), primeiro evento no Brasil dedicado exclusivamente ao tema. Foi organizado pelo Projeto Onças do Iguaçu, no âmbito da Rede Trinacional de Coexistência. O evento reuniu cerca de 200 pessoas no Parque Nacional do Iguaçu para falar sobre coexistência entre pessoas e fauna silvestre.

Vieram pesquisadores, gestores de áreas protegidas, profissionais de campo, organizações da sociedade civil e pessoas que trabalham diretamente com comunidades, principalmente do Brasil, Argentina, Paraguai, México, Chile e Peru.

Para nós, do Projeto Onças do Iguaçu, o desafio foi bem maior do que organizar um evento desse porte: ao mesmo tempo em que dentro do auditório discutíamos atendimento a predações, medidas preventivas, monitoramento, relacionamento e confiança, recebíamos notícias de um conflito real acontecendo naquele exato momento: um caso particularmente complicado de predação de um potro por uma onça-parda. Tudo “ao mesmo tempo agora”.

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I Simpósio Internacional de Coexistência (SICOEX). Crédito: Projeto Onças do Iguaçu

Uma discussão que vem se ampliando

Conflitos entre pessoas e animais silvestres evidentemente não são novos. O que está mudando é a maneira como a conservação começa a olhar para eles.

Nos últimos anos, coexistência vem deixando de ser um assunto periférico. Grupos se formam, experiências começam a se conectar e redes vão nascendo.

Uma das iniciativas pioneiras no Brasil foi a CoPCoex (Comunidade de Prática em Coexistência Humano-Fauna), criada em 2019 a partir de um grupo ligado ao Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação de Fauna Silvestre da ESALQ-USP. Depois vieram outras articulações, como a Rede Pantaneira de Coexistência e, na região da Tríplice Fronteira, a Rede Trinacional de Coexistência, reunindo instituições do Brasil, Argentina e Paraguai.

Acho que a criação desses fóruns de discussão e trabalho sobre o tema reflete uma mudança na forma como entendemos o desafio de conservar fauna em paisagens ocupadas por pessoas.

Em 2026, o Grupo Especialista em Conflito e Coexistência Humano-Fauna da IUCN publicou uma definição específica para coexistência.

Em tradução livre, coexistência humano-fauna é um estado dinâmico no qual pessoas e animais silvestres coexistem em comunidades resilientes e populações ecologicamente viáveis, sustentadas de maneiras socialmente aceitáveis, por meio de instituições justas e processos equitativos que permitam adaptação, manejo e soluções negociadas, mantendo impactos negativos e conflitos em níveis aceitáveis.

Duas palavras dessa definição me parecem especialmente importantes: dinâmico e aceitáveis.

Coexistência não é um estado perfeito que alcançamos um dia e pronto. Não é rápido nem é simples. E tampouco significa ausência de conflito.

Pode haver coexistência onde existem predações, prejuízos, medo, discordâncias e outros impactos. O desafio é encontrar maneiras de manter esses impactos em níveis que permitam que pessoas e fauna continuem compartilhando aquela paisagem.

E isso é muito mais difícil do que parece.

Coexistência não cabe em um protocolo

Temos aqui no projeto um protocolo para atender uma predação: receber a ocorrência, ir até o local, avaliar o que aconteceu, identificar o predador, compreender as vulnerabilidades da propriedade, propor mudanças de manejo, instalar medidas para reduzir o risco de novos ataques e monitorar o que acontece depois. Tudo isso é fundamental.

Mas… executar corretamente essa sequência não garante a coexistência entre pessoas e onças.

Especialmente porque diferentes pessoas respondem de forma distinta a eventos de predação.

Perder um animal pode significar prejuízo financeiro, medo, raiva, tristeza ou sensação de impotência. Aquele animal pode representar renda, anos de criação ou simplesmente ser um companheiro pelo qual havia afeto.

Onça pintada predando animal de produção em propriedade rural. Crédito: Câmera Trap/Projeto Onças do Iguaçu

Há quem queira conversar, quem queira uma solução imediata, quem esteja disposto a mudar o manejo e há quem, naquele primeiro momento, não queira ouvir proposta alguma. Nenhum fluxograma prevê isso, porque a abordagem não pode ser simplista.

Eu adoro a ideia de que “o todo é maior do que a soma das partes”. Essa frase costuma ser associada ao pensamento aristotélico (mas, para ser sincera, eu ouvi em um filme!).

Um atendimento a uma predação é exatamente assim, sabe. Podemos ter excelentes protocolos, uma equipe treinada, equipamentos adequados e as melhores medidas preventivas disponíveis. Precisamos de tudo isso.

Mas existe algo que não aparece no checklist, que é a construção da relação.

Compreender o que aquela perda representa, não chegar com uma solução pronta antes de entender o problema, perceber (e acolher) o medo por trás da raiva. Voltar depois que a emergência passou. É importante cumprir aquilo que foi combinado e ter flexibilidade para reconhecer que uma solução tecnicamente perfeita pode simplesmente não funcionar para aquela pessoa ou naquela realidade.

Protocolos são fundamentais. Mas são só o ponto de partida, porque coexistência não é uma receita. É uma construção.

Quando a relação também conserva

Há uma abordagem desenvolvida originalmente a partir do trabalho com leopardos-das-neves que reflete muito a maneira como pensamos nosso trabalho no Projeto Onças do Iguaçu: os PARTNERS Principles.

PARTNERS reúne oito princípios: Presence, Aptness, Respect, Transparency, Negotiations, Empathy, Responsiveness e Strategic Support, ou seja, presença, adequação ao contexto, respeito, transparência, negociação, empatia, capacidade de resposta e apoio estratégico.

Esses princípios falam sobre como construir a relação necessária para que uma solução tenha chance de funcionar.

Estar presente. Conhecer o contexto. Respeitar conhecimentos e decisões. Ser transparente sobre aquilo que podemos e não podemos fazer. Negociar soluções em vez de simplesmente prescrevê-las. Ter empatia diante de uma perda. Responder quando alguém pede ajuda. Sustentar relações no tempo.

É assim que procuramos trabalhar, e isso exige tempo, dedicação e honestidade na aproximação.

E, convenhamos, o tempo dessa construção é uma variável difícil de colocar nas planilhas da conservação, né não?

É fácil contabilizar quantas cercas foram instaladas, quantos equipamentos foram distribuídos, quantas propriedades foram atendidas. Medir o valor de uma relação construída durante anos já não é tão simples.

Durante muito tempo, conservar grandes carnívoros significou principalmente proteger habitats, combater a caça, garantir populações de presas, produzir conhecimento e recuperar populações ameaçadas.

E aí temos mais um desafio: queremos que as populações de grandes carnívoros se recuperem, mas precisamos estar preparados para coexistir com eles quando isso acontece.

As pessoas também fazem parte da paisagem e, mesmo conhecendo profundamente a ecologia de uma espécie, podemos fracassar em conservá-la se ignorarmos a paisagem humana.

Talvez por isso coexistência seja um campo que transpõe as divisões tradicionais do conhecimento. Ela exige ecologia e comportamento animal, mas também comunicação, psicologia, sociologia, educação, economia, políticas públicas e muitas outras áreas.

Ninguém faz coexistência sozinho

Foi por isso que olhar para cerca de 200 pessoas reunidas no SICOEX me pareceu tão significativo. E talvez as próprias redes sejam outra expressão da ideia que dá título a este texto.

Tem vários “saberes” envolvidos na coexistência: o do pesquisador que conhece a espécie, o da comunidade que entende de seu território, o das pessoas que por experiência prática de campo conhecem muito bem os conflitos. Quando esses conhecimentos se encontram, não temos apenas uma coleção maior de informações, mas material para construir algo que nenhuma dessas partes conseguiria produzir sozinha.

Foi isso que vi durante aqueles três dias no Iguaçu: gente compartilhando pesquisas, ferramentas, estratégias, erros, acertos e, principalmente, dúvidas.

Não saímos de lá com uma fórmula para coexistir, porque ela provavelmente não existe.

Talvez o mais importante no SICOEX não tenha sido encontrar respostas, mas reunir tanta gente disposta a fazer as mesmas perguntas.

Como conservar animais que vivem em paisagens cada vez mais compartilhadas conosco? Como reduzir os impactos dessa convivência para as pessoas? Como impedir que um conflito termine com a morte de um animal silvestre? Como construir soluções que sejam possíveis para as pessoas e para a fauna?

Pegada de onça. Crédito: Projeto Onças do Iguaçu

E enquanto fazíamos essas perguntas dentro de um auditório no Parque Nacional do Iguaçu, uma onça-parda nos lembrava, do lado de fora, que nenhuma delas era abstrata.

A coexistência acontece quando conhecimento científico, prevenção, manejo, presença, respeito, negociação, empatia, adaptação e confiança se encontram com algo muito mais difícil de colocar em um protocolo: Gente….pessoas de verdade, vidas distintas, realidades diferentes.

É nesse encontro que pode surgir a possibilidade de pessoas e animais silvestres continuarem compartilhando a mesma paisagem.

E talvez tenha sido essa a principal sensação que ficou depois do SICOEX. Não saímos de lá com respostas para tudo, mas saímos com mais gente pensando junto.

Foram tantas experiências compartilhadas! Um monte de ideias, gente se conhecendo e criando conexões, insights. Pudemos, cada um, ampliar nosso olhar para além da nossa realidade, e ter contato com outros “universos”.  Bacana demais, né não?

O SICOEX deve se tornar um encontro anual. Em 2027, será a vez do Paraguai receber a segunda edição. Acho bonito que seja assim: um evento sobre coexistência que também atravessa fronteiras, muda de território e vai sendo construído por muitas mãos.

Aula prática sobre técnicas de coexistência na I Simpósio Internacional de Coexistência (SICOEX). Crédito: Projeto Onças do Iguaçu

Chegaremos ao próximo encontro sabendo um pouco mais. Levando o que aprendemos no Iguaçu, somando outras experiências, outros erros, outros acertos, outras pessoas e outras formas de olhar para os mesmos problemas.

E assim vamos construindo possibilidades de coexistência entre pessoas e fauna silvestre, não pela descoberta de uma grande solução, mas pela soma de muitos conhecimentos, relações, tentativas, adaptações e aprendizados.

E quando tudo isso se encontra, já não é apenas uma soma.

O todo é maior do que a soma das partes.

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