Eduardo Pegurier
Vivi quatro anos nos EUA, país que admiro em muitos aspectos, com uma exceção gritante: a vida nos subúrbios, destino da maioria da classe média americana através do país. Esses bairros são exemplo de como a busca por conforto pode tornar a vida árida. Quem duvidar, dê um pulo na locadora e veja o filme Beleza Americana. Ele explicará o meu ponto de vista.
Os EUA, como nenhum outro lugar, sofre do chamado urban sprawl: o avanço da área urbana sobre as áreas rurais ou intocadas em torno da cidade. Por que o fenômeno é tão radical por lá? Não tenho uma resposta completa, mas algumas dicas. O carro e a gasolina baratos são os principais suspeitos. Outra causa são os impostos. Em geral ao se mudar da área central muda-se também de município. E os municípios menores costumam ter impostos mais baixos. No caso de Washington D.C., o distrito federal, a mudança não é só de município, é de estado. Até comida tem impostos mais baixos na Virginia em comparação à capital.
Morar no subúrbio é uma forma de pegar carona nos benefícios da cidade sem ter que pagar o preço. A densidade urbana de uma cidade média ou grande é o que sustenta uma economia geradora de muitos empregos e de serviços variados, incluindo aí restaurantes, bares, cinemas, teatros, shows, etc. O problema é que do ponto de vista do indivíduo é muito melhor usufruir dessas vantagens junto com aquelas de morar no subúrbio. Não há razão para habitar uma residência urbana apertada se você pode morar numa espaçosa casa e dirigir para o emprego ou as atrações urbanas. Mas o resultado final é triste. Se boa parte das pessoas deixa o centro urbano, a sua base de impostos diminui e, em seguida, ele decai. Do outro lado, o campo é invadido por casas e prédios baixos homogêneos num avanço inclemente do conforto medíocre.
Portland, maior cidade do Oregon, está tentando escapar dessa maldição. Desde 1973, o estado e a cidade vêm implementando políticas de green belt. Ou seja, criar uma linha que restringe o avanço da cidade sobre o campo. Os resultados até agora são mistos. A área central de Portland é mais densa do que a maioria das outras cidades americanas. Também foi considerada pela revista Grist como a cidade mais verde dos Eua e a segunda do mundo, perdendo apenas para a capital da Islândia Reykjavik. Aliás, nessa lista, o terceiro lugar ficou com a nossa Curitiba.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
IDS lança Bússola 2026 para pautar debate socioambiental nas eleições
Documento reúne diretrizes e propostas para a agenda socioambiental brasileira no período de 2027 a 2030 e apresenta questionamentos a candidatos aos cargos do Executivo e Legislativo →
Ultrapassar 1,5°C não pode ser normalizado
Mesmo que a temperatura global possa ser reduzida no futuro, os danos produzidos durante o período de maior aquecimento não serão automaticamente revertidos →
Registros inéditos revelam área-chave para reprodução de tubarões no litoral do RJ
Pesquisa identifica fêmeas grávidas e mapeia potencial berçário de três espécies de tubarão, duas dela ameaçadas, no complexo estuarino de Ilha Grande-Sepetiba →

