É ano novo climático no Rio de Janeiro, os ternos e as credenciais já voltaram da lavanderia. Você anda pelo Píer Mauá com aquela sensação de que já começou a corrida da Conferência do Clima: diplomatas, cientistas, militantes, lobistas se escondem do sol embolados nos bares do Bafo da Prainha.
Domingo (31) começou com um pagode climático em Realengo. No meio da semana aconteceu o que parecia impossível depois da COP30, engatou o motor e ouvimos surpresos novas ideias – em formatos de palestras não tão novos – que nos tiraram da sensação de desespero com as últimas análises sobre um provável super El Niño. Mas ainda deixando no ar aquela sensação de que falta fôlego – como faltou na Maratona do Rio, onde muitos ativistas foram descontar a ansiedade no final da semana.
No COR – que mudou de nome tem um tempo, lançando a palavra do momento nos debates do Rio: Resiliência –, Ana Toni assistiu atenta a todos os detalhes técnicos da equipe premiada pela Bloomberg por um dos melhores protocolos contra o calor no mundo.
O Secretário do Centro de Operações e Resiliência pediu desculpas porque teria que sair no meio da conversa, mas ficou até o final. Todo mundo ficou até o final, em pé, hipnotizados por um dos maiores painéis de monitoramento do mundo exibindo alguém trocando pneu na Avenida Brasil, um poste que passou o dia todo em manutenção em Sulacap, enquanto ativistas da Sociedade Civil circundam tomadores de decisão para cobrar adaptação nas favelas, antes que saíssem pelos corredores.
Daquela sala são comandados os maiores espetáculos da Terra, uma IA orgânica, mesas com operadores de ambulância, viaturas, drones, câmeras de vigilância. As lentes que mostraram os fogos, a Madonna e as multidões agora vão flagrar a nata científica do clima se engalfinhar para ver Ludmilla e Lauryn Hill, enquanto os indicadores do COR vão continuar mostrando no telão os riscos que foram ignorados pela equipe da Taylor Swift.
A sensação é de que estamos entrando no segundo filme da tropa de elite da COP30. Os inimigos seguem os mesmos que a semana do clima na Colômbia apontou antes do país entrar numa disputa eleitoral marcada por uma extrema-direita obcecada por vídeos de crime em câmeras de segurança.
Uma das coisas que aprendi nessa semana é que a relação entre clima e violência não depende do calor Mad Max. A pesquisa da Salurbal-Climate mapeou mais de 7 mil assassinatos motivados por causa de calor extremo na América Latina, nos últimos 20 anos. Escondidas entre as milhares de mortes provocadas por mudanças climáticas no nosso continente, estão as evidências de que as consequências sociais da crise estão para muito além das perdas de produtividade e da destruição de infraestrutura.
Por um errante minuto, a qualidade da imaginação do cinema carioca me faz desejar que o setor climático aprenda a mobilizar a opinião pública com o marketing do setor de segurança. Que entendeu como mover nossa capacidade coletiva de compra a partir da demanda local, que cresce de casa em casa, como um motor de financiamento a um projeto de sociedade. Assim como a indústria de vigilância e a dos seguros nos provocou a desejar câmeras no portão, através dos programas de notícias policiais para toda a família, especialmente para aposentados à tarde.
E vendo os palcos e as plataformas de ingressos, fico devaneando, sentindo falta do mecanismo de distribuição popular que faça chegar esse comando de resiliência nas periferias do Rio, como um dvd pirata, como um bordão que as pessoas repetem imitando o chiado do sotaque. Talvez tenha sido isso o que o Mutirão veio aprender no Rio, que continua lindo, que continua sendo.
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