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Diário Criosfera – amostras já explicam Revolução Industrial

Hoje atingimos 90 metros de profundidade na perfuração do gelo, mais 15 metros e teremos a história do clima desde a "Revolução Industrial".

Jefferson Simões ·
10 de janeiro de 2012 · 10 anos atrás
Jefferson Simões, líder da expedição Criosfera. foto: divulgação CPC/UFRGS
Jefferson Simões, líder da expedição Criosfera. foto: divulgação CPC/UFRGS
07 de janeiro (84°S, 79°29’39″W; 1287 m; -17°C, sensação térmica -38°C) – Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental.

Lento progresso nos nossos trabalhos, atingimos 85 m na perfuração do gelo. Apesar da motivação de todos, alguns já começam a ficar desgastados pela intensidade das atividades. Temos que agregar vigor físico, aptidão intelectual e capacidade de adaptação às condições adversas. Somos antes de tudo cientistas polares, o fato de estarmos aqui é somente a parte inicial do nosso trabalho, ou como prefiro dizer: – Ao explorador e aventureiro basta sobreviver o desafio do meio, porém esta é somente a primeira parte da missão de um cientista polar. Temos que produzir resultados dos levantamentos de campo e depois de longa análise laboratorial, publicar nossas conclusões em periódicos profissionais de renome e divulgar para o público em geral os nossos achados.

A presença física per si nas regiões polares não é mais um grande desafio, e muitas empresas oferecem agora o turismo de aventura. Por outro lado, planejar, organizar e executar uma missão científica polar ainda é um desafio, tanto na fase da procura de recursos como na gestão da missão.

08 de janeiro (84°S, 79°29’39″W; 1287 m; -15°C, sensação térmica -42°C) – Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental.

Hoje atingimos 90 metros de profundidade na perfuração do gelo, mais 15 metros e teremos a história do clima desde a “Revolução Industrial”, bastante dados para algumas dissertações e teses. O pessoal do módulo Criosfera 1 continua a montar a parte interna, o sistema terá ainda que ser testado, principalmente as bombas que amostraram as concentrações de CO2 (dióxido de carbono) ao longo de todo o ano (amostrar esse gás estufa em um lugar isolado e não contaminado como onde estamos é essencial se queremos ter valores para modelos de mudanças climáticas globais. Evidentemente, medidas na zona urbana não são válidas, pois refletem valores locais e não médias globais).

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O pessoal da geofísica teve um duro dia hoje, fazer um levantamento com a desagradável sensação térmica de -42°C, manuseando equipamentos e fios, não é fácil. Já são três dias seguidos com sensação térmica muito baixa, tornando o trabalho fora das barracas árduo. Ou seja, quando não podemos trabalhar nas investigações de campo devido ao mal tempo, ficamos nas barracas lendo, alguns veem filmes no computador, outros escrevem artigos científicos, ou ainda trocam ideias dentro de uma barraca. Ainda bem que onde estamos as condições meteorológicas são estáveis, em outras regiões da Antártica são normais tempestades de cinco ou mais dias. Eu mesmo já fiquei nove dias dentro de uma barraca (ou melhor movendo-se da barraca de dormir para a barraca-banheiro ou para barraca-cozinha), aguardando a melhora do tempo. Há casos de quase 20 dias em uma barraca e onde rajadas de vento ultrapassaram os 180 km por hora.

Um explorador polar deve antes de tudo aceitar os limites dados pela natureza. Frio, ventos fortes constantes, neve à deriva, fendas no gelo, são todos fatores que poderão mudar seu planejamento idealizado no agradável escritório. Assim, entre os problemas mais incômodos para uma equipe no campo estão aqueles participantes muito acostumados às facilidades do meio urbano, que esperam que tudo ocorra como planejado e que tenham data de volta exata ao partir para uma missão antártica. Ainda podemos dizer que temos somente data provável de retorno! Para não acharem que estou falando de dias, há 40 anos ainda ocorriam atrasos de um ano no retorno para casa (simplesmente porque o navio que devia resgatar os pesquisadores não conseguia atravessar o mar congelado). Nos anos 1990, logo após a queda do muro de Berlim, alguns pesquisadores da ex-União Soviética ficaram de dois a três anos sem voltarem para o seu país. Bom, nosso grupo arrisca-se no máximo a atrasos de uma semana a 15 dias!

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