Notícias

Um Robin Hood da natureza

Roubar pode ser feio, mas furtos praticados pelas cotias ajudam as sementes de palmeiras da América Central a sobreviverem na floresta.

Vandré Fonseca ·
16 de julho de 2012 · 14 anos atrás

Ao roubar alimento guardado por outros animais, as cotias criam condições para a dispersão de sementes e sobrevivência das palmeiras na floresta. Clique para ampliar. (Fotos: Vandré Fonseca)
Ao roubar alimento guardado por outros animais, as cotias criam condições para a dispersão de sementes e sobrevivência das palmeiras na floresta. Clique para ampliar. (Fotos: Vandré Fonseca)
Manaus, AM – Graças ao furtos de sementes praticados pela cotias, palmeiras da América Central puderam sobreviver à extinção de seus principais dispersores, os mastodontes, ocorrida cerca de 10 mil anos atrás. Depois de estudo com duração de um ano realizado no Panamá, pesquisa que demonstra a importância dos roedores para a palmeira Astrocaryum standleyanum foi publicada na edição desta semana da revista PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Já era conhecido o hábito das cotias enterrarem frutos que serão consumidos depois, mas o estudo demonstra que elas costumam também roubar os estoques deixados por vizinhos e carregá-los para lugares distantes. E podem repetir o processo várias vezes antes de se alimentar. De acordo com o artigo, uma semente foi enterrada 36 vezes até que finalmente foi devorada. Cerca de 14% das sementes sobreviveram por período que pode durar 1 ano.

A ação coletiva dos roedores substitui o trabalho dos grandes mamíferos, que engoliam e carregavam as sementes por longas distâncias no aparelho digestivo, até que fossem eliminadas. “Como os roedores roubam a mesma semente muitas vezes, ela é levada para um lugar remoto, onde um animal sozinho nunca alcançaria”, afirma um dos autores do estudo, o zoologista Roland Kays, da Universidade Estadual e do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte (EUA).

Apesar de parecer um costume feio, o roubo praticado pelas cotias ajuda a natureza. Ao levar as sementes para longe das árvores-mães, as cotias garantem condições para que uma nova árvore possa se desenvolver. Isto é, claro, se não for consumida antes. De acordo com os pesquisadores, a dispersão afasta as sementes de predadores e de doenças. Também permite a colonização de novas áreas e a troca de genes entre diferentes populações da espécie.

Para conhecer o responsável pela sobrevivência da palmeira, os cientistas do Instituto de Pesquisas Tropicais do Smithsonian fixaram transmissores a mais de 400 sementes e montaram um esquema de monitoramento com armadilhas fotográficas. Além disso, identificaram as cotias com etiquetas, para saber quem estava levando os frutos. “Havia o mistério de como estas árvores sobreviveram, e agora temos uma possível resposta”, comemora Kays. O grupo inclui também pesquisadores do Reino Unido, Alemanha, Países Baixos e Bélgica.

Leia também:

Anjos Negros
A importância dos peixes como dispersores de sementes
O futuro nas sementes de araucária

Saiba mais:
Artigo: Roedores larápios como dispersores de sementes substitutos à megafauna (Thieving Rodents as Substitute Dispersers of Megafaunal Seeds). Publicado na edição online desta semana (16/07/2011), da revista Proceedings of the National Academy of Science.

 

Leia também

Análises
27 de fevereiro de 2026

Borboletas e formigas: um ensaio sobre jardins e ciclos

A vida em comunidade envolve relações de cuidado, mas também conflitos, riscos e ambiguidades. A cooperação é fundamental, mas não significa harmonia perfeita. E, essa lógica não é exclusiva para o mundo dos insetos

Análises
27 de fevereiro de 2026

A esperada queda da SELIC e o maior ativo do século XXI

Nos territórios, onde as veias seguem abertas e pulsam o sangue e a alma das cidades e de seus habitantes, milhares de pessoas sofrem os efeitos das decisões sobre investimentos

Salada Verde
27 de fevereiro de 2026

Funbio lança chamada para expansão de unidades de conservação municipais

Entidade convida instituições a apresentarem projetos para Unidades de Conservação (UCs) nos biomas Caatinga, Pampa e Pantanal; inscrições vão até 30 de março

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.