Para confirmar a teoria da seleção natural de Darwin, um bom exemplo são os biguás. A população desses pássaros de penugem preta está crescendo graças a dois motivos de origem antrópica: a construção de hidrelétricas e a poluição dos rios. Naturais do Brasil, eles também são encontrados do Sul dos Estados Unidos ao Norte da Argentina, e a adaptabilidade da espécie se estende ao fato de estarem aninhando excepcionalmente em uma ilha, na costa carioca.
De Agosto a Abril os Phalacrocorax brasilianus, migram em bandos de 60 a 100 indivíduos em formação de “V”- figura que poderá familiarizar os biguás aos mais atentos nos céus. Fora da atmosfera, os locais escolhidos para o longo período de reprodução são rios e grandes lagos. Contrariando as pressões negativas geradas pela ação do homem, os biguás são beneficiados com o elevado número de hidrelétricas em operação no Brasil. O ornitólogo José Fernando Pacheco explica como um habitat ideal é criado para a ave, em conseqüência da taxa de 86% da energia do país, gerada pela força das águas:
– No passado o biguá dependia de pescar seu alimento em remansos, pois apesar de ter nadadeiras para perseguir o peixe, evita rios encachoeirados ou muito rasos. Com o surgimento das represas, ele ganhou áreas novas para caçar, com menos competidores, diz Pacheco. A explicação para a menor disputa no habitat alterado, se justifica pelo fim da colonização de aves que dependem de águas rasas.
De acordo com o ornitólogo, após a construção de uma hidrelétrica é possível que o número de espécies originais da comunidade aquática local, diminua de trezentas, por exemplo, para até quatro ou cinco. Para citar um exemplo, o Pantanal é uma região rica em espécies de aves pois abriga uma bacia hidrográfica com variadas profundidades. “Um ambiente em bom estado de conservação abriga biodiversidade, e não um número enorme de uma só espécie. Nesse caso, alguma coisa está errada”, diz.
Quanto a essa desproporção de espécies, o biguá é o protagonista bem-sucedido da Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. O fator que determinou a seleção de espécies promissoras no lugar – e propiciou moradia para milhares de novos biguás – foi justamente, a poluição. Resíduos poluentes despejados por no mínimo 50 indústrias à beira da Baía, diminuíram a quantidade de botos e biguás-tingas – espécie mais “exigente” de biguá – e consequentemente a concorrência por alimentos no ecossistema.
Os cariocas podem ainda constatar a predominância dos “corvos marinhos”, como também são chamados, na Lagoa Rodrigo de Freitas e no Canal de Marapendi, na Barra da Tijuca. Nesse último local, o “boom” de urbanização em meados da década de 70, serviu de estímulo para que a ave procurasse um novo local de reprodução – ocasionando a colonização das Ilhas Tijucas, a 4 km da costa do bairro. Segundo Pacheco, essa é a única ocorrência no litoral do Brasil, de biguás aninhando em uma ilha. Um caso similar é visto apenas na Patagônia.
Ao adotar a cercania marítima para aninhar, a colônia – experimental – de biguás ganhou vizinhos diferentes em tamanho e constituição física. Os tesourões, gaivotas e atobás presentes nas ilhas caçam seus alimentos no mar, mas para isso possuem no bico uma glândula que expele o excesso de salinidade do organismo. Os biguás, por manterem a fisiologia adequada para águas doces, não possuem a glândula de sal: a solução da colônia foi continuar pescando no Canal de Marapendi.
Nessa dependência, uma alternativa aceita com sucesso pelo pássaro foi alimentar-se de tilápias. O peixe africano não existia na cidade há 50 anos e foi trazido do Rio Nilo ao Nordeste na década de 30 durante a construção de grandes açudes para o combate a fome. Se levado em conta que nessa época anterior nem mesmo os paredões de prédios na Avenida Sernambetiba estavam ali, as gerações de biguás “pós-urbanização”, aguçaram também suas técnicas de vôo.
Área de instabilidade
Há 20 anos piloto de ultraleves no Clube da Aeronáutica na Barra, o comandante J.Carlos afirma já ter visto biguás atrapalhados com as correntes de vento durante vôos sobre a orla. “Quando os ventos, especialmente o Norte ou terral, batem na barreira de prédios, formam um rotor e giram em um novo sentido circular. Já vi biguás que deviam estar chegando da ilha, com dificuldades de passar por essa área de instabilidade”.
A constatação dos “redemoinhos” de vento na orla da Barra poderia representar um percalço a mais para os biguás – considerados pelo ornitólogo Pacheco como “maus voadores”. Geralmente as aves que caçam em vôo são mais habilidosas pois pesam pouco e utilizam o vento a favor. Mas no caso dos biguás, a falta de perícia é também justificada pelo subdesenvolvimento da chamada glândula uropigeana. O artifício controla a impermeabilização de penas nos pássaros que necessitam entrar na água. Pacheco explica melhor a relação:
“Os biguás demoram para ganhar altitude por causa dessa carência de impermeabilidade. Mesmo se não tivessem os prédios e apenas o vento, eles se atrapalhariam, diz. Mas reafirmando a capacidade de adequação dos pássaros, constata: “Só não creio que essas interferências, na configuração que estiverem, possam impedir eles de seguirem suas rotas”. A considerar as recentes diretrizes do governo federal – de construir cada vez mais lagos para hidrelétricas, a rota de prosperidade dos biguás em breve vai cintilar nas bacias hidrográficas da Amazônia.
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