O Brasil registrou um salto expressivo na captação de financiamento climático internacional, atingindo em média R$26,6 bilhões por ano entre 2021 e 2022. O valor representa um aumento de 84% em relação a 2019-2020, desempenho muito superior à média global, que cresceu 28% no mesmo período. Os dados são do estudo “Mapeamento de Financiamento Climático Internacional para o Brasil“, elaborado pelo Climate Policy Initiative/PUC-Rio (CPI/PUC-Rio).
O levantamento mapeou a origem, os setores beneficiados e o uso dos recursos. A Europa Ocidental concentrou metade do total destinado ao país (R$13,3 bilhões/ano), com destaque para a França, responsável por 13% (R$3,5 bilhões/ano). Instituições públicas mobilizaram 58% do financiamento (R$15,4 bilhões/ano), enquanto as privadas responderam por 42% (R$11,2 bilhões/ano) mais de quatro vezes o volume privado do biênio anterior.
Mais da metade dos recursos mapeados (53%) foi destinada ao setor de energia, especialmente para geração solar e eólica, que concentraram 80% desse montante. Entre os biênios analisados, o financiamento internacional para energia no Brasil cresceu 165%, passando de R$8,7 bilhões/ano para R$14,0 bilhões/ano, avanço que superou a tendência global de aumento de 53% no período.
Florestas: alto potencial, baixo investimento
Por outro lado, o setor de Agropecuária, Florestas, Outros Usos da Terra e Pesca (AFOLU), responsável por quase três quartos das emissões nacionais de gases de efeito estufa, recebeu apenas 11% dos recursos. A fatia destinada às florestas foi ainda menor: R$ 623 milhões/ano, o equivalente a 2% do financiamento climático internacional mapeado para o Brasil em 2021-2022.
Em relação aos objetivos, 80% do total foi direcionado à mitigação das emissões, 5% exclusivamente para adaptação às mudanças climáticas e 15% para ações com fins combinados. Projetos de adaptação receberam predominantemente recursos públicos, seguindo o padrão observado globalmente.
Mitigação avança, adaptação fica para trás
Do total mapeado, 80% foi destinado a ações de mitigação das emissões. Apenas 5% foram direcionados exclusivamente para adaptação – parcela majoritariamente vinda de fontes públicas. Outros 15% tiveram uso combinado, contemplando tanto mitigação quanto adaptação. A baixa participação de projetos adaptativos pode representar um risco em um cenário de impactos climáticos já em curso no país.
Radiografia de prioridades
O levantamento do CPI/PUC-Rio mostra um Brasil competitivo na atração de recursos internacionais para o clima, mas também evidencia gargalos estruturais: forte concentração setorial, subfinanciamento de áreas-chave como florestas e adaptação, e dependência de poucos países e regiões como provedores de capital. A manutenção dessa trajetória de crescimento dependerá da capacidade de alinhar o fluxo de investimentos externos às demandas mais urgentes da agenda climática brasileira.
“O governo brasileiro tem adotado uma série de iniciativas para criar condições de investimento favoráveis para que o capital estrangeiro financie projetos alinhados com a agenda climática nacional, como a Plataforma de Investimentos Climáticos e Transformação Ecológica (BIP), o Eco Invest Brasil e a emissão de títulos soberanos sustentáveis. Compreender o status atual de financiamento é crucial para medir o impacto dessas iniciativas e ampliar sua efetividade.”, explica Joana Chiavari, diretora de pesquisa do CPI/PUC-Rio.
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