Reportagens

A ressaca de Copenhague

Diretor da Amigos da Terra - Amazônia Brasileira comenta  fracasso das negociações do clima e prevê que mudança para economia de baixo carbono ocorrerá de toda forma.

Aldem Bourscheit ·
24 de dezembro de 2009 · 12 anos atrás

Co-presidente do Diálogo Internacional sobre Clima e Florestas, membro do Fórum Brasileiro sobre Mudanças Climáticas e diretor (desde 1989) da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, Roberto Smeraldi avalia nesta entrevista concedida a O Eco por e-mail os resultados da 15a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP15), terminada no último 20 de dezembro, em Copenhague. O ambientalista projeta reflexos políticos no Brasil e no mundo do fracassado megaevento. Autor de ensaios e livros sobre políticas públicas, desenvolvimento, Amazônia e tendências gastronômicas, Smeraldi argumenta que as conferências climáticas tornaram-se grandes feiras, com resultados pouco efetivos. “A partir do (4o) relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), ou seja de quando o tema estourou midiaticamente, e portanto a partir da COP de Bali, a conferência virou um teatro gigante”, diz.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Quais fatores levaram ao fracasso da COP15? O quê faltou?
Roberto Smeraldi –
Faltavam condições básicas para um acordo deste tipo, que não pode ser atingido com negociações diplomáticas e requer uma decisão política de pelo menos um dos três atores com massa crítica suficiente, ou seja, Estados Unidos, China e Europa (como bloco). O desfecho da COP15 era óbvio, há muito tempo, como sempre declarei.

Será possível desatar esses nós até a COP16, no México, em 2010?
RS –
Da mesma forma, não vai ser a COP16, enquanto processo diplomático, que vai desatar os nós. Eu acho que, politicamente, o processo de transição para uma economia de baixo carbono vai ser sim desencadeado ao longo dos próximos dois anos. Não sei se antes ou depois da COP16. Espero que antes. Neste caso a COP16 terá de lidar com esse fato e negociar as modalidades para essa transição, mas o assunto é outro. É o que pode ser feito na esfera diplomática e no sistema ONU: ratificar, não inovar. A inovação será unilateral. Inclusive escrevi isso no meu último livro, lançado em outubro, O novo manual de negócios sustentáveis.

Que efeito colateral o resultado da COP15 pode ter sobre a mobilização de organismos não-governamentais e sobre a diplomacia internacional? Foi um balde de água fria?
RS –
Há o risco de ser um balde de água fria por conta de expectativas equivocadas, ilusões que podem gerar desilusões. Mas tem de saber interpretar: por exemplo, o cinismo chinês pode chocar, mas na realidade eles jogaram uma batalha desesperada para adiar qualquer compromisso porque não queriam que outros saíssem na frente ganhando vantagens competitivas, enquanto eles não estavam ainda prontos para sair na frente. Daí fizeram de tudo para provocar Estados Unidos e Europa e usaram bem os úteis idiotas do G77, como o Sudão, assim como os úteis espertinhos, por exemplo o grande vendedor de combustíveis fósseis para os Estados Unidos, Hugo Chavez. Mas isso não significa que a China não esteja tentando se preparar para queimar Estados Unidos e Europa logo que possível.

E as próximas eleições presidenciais no Brasil? A mensagem de Copenhague foi de que é possível adiar ações na área ambiental, oferecendo vantagem a candidatos desenvolvimentistas? Ou o contrário?
RS –
Podemos até questionar a credibilidade dos compromissos brasileiros, por conta de projeções de curva equivocadas na área de energia e transporte, ou por conta de contradições de políticas públicas na área do desmatamento. Mas do ponto de vista político não há dúvida de que o tema cresceu politicamente no Brasil, e prova disso é até o fato que o próprio presidente Lula chegou a desautorizar sua ministra-candidata em seu discurso oficial, quando reparou que o discurso dela estava atrasado. Em termos de eleição, teremos o tema em pauta sim, e alguns até começam a compreender que o tema tem de ser enfrentado como questão de vantagem competitiva econômica para o país.

Como avalias os discursos oficiais na COP15 e a prática interna?
RS –
Ainda há distância considerável entre discurso e prática.

O combate ao desmatamento no Brasil, inclusive com mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), está comprometido ou enfraquecido com o resultado da COP15?
RS –
Não por isso. Talvez possa estar enfraquecido por conta de anistias legais ou práticas de bancos públicos, mais do que por conta da COP15. Até porque foi na COP que muitos governadores assumiram prioridade para políticas de REDD.

O modelo de reuniões diplomáticas do porte da COP15 ainda faz sentido?
RS –
Faz sentido para reuniões diplomáticas, não para feiras de negócios de 40 mil pessoas. Até três anos atrás, os que acompanhavam a COP eram pessoas que realmente interagiam com o processo. A partir do (4o) relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), ou seja de quando o tema estourou midiaticamente, e portanto a partir da COP de Bali, a conferência virou um teatro gigante. As expectativas da sociedade, e inclusive do mundo dos negócios, se dirigiram de forma equivocada para a COP, como se ela fosse o local onde se tomam todas as decisões. E aí o modelo não sustenta, porque foi feito para outros fins. Se eu quero vender uma turbina eólica, agora vou na COP. Isso não tem muito a ver.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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