Reportagens

O Festival e suas contradições

Apesar de todos os anos receber evento internacional de cinema e meio ambiente, Cidade de Goiás, não consegue resolver seus problemas ambientais.

Cristiane Prizibisczki ·
15 de junho de 2010 · 11 anos atrás
Rodrigo Santana, geógrafo e ambientalista da Cidade de Goiás - Crédito - Cristiane Prizibisczki
Rodrigo Santana, geógrafo e ambientalista da Cidade de Goiás – Crédito – Cristiane Prizibisczki

Todos os anos, o FICA vivencia grandes contradições. Um dos maiores festivais de cinema ambiental da América Latina, ele é importante difusor e fomentador deste tipo de temática para as telonas, o que, ao longo de suas 12 edições, contribuiu de forma decisiva para aproximar os espectadores do tema. Mas, por trás das grandes produções, a região vivencia graves problemas ambientais, muitos deles ofuscados pelo brilho do evento, esquecidos, a cada ano, nas arestas do festival.

Encravada no coração do Cerrado, a Cidade de Goiás, sede do FICA desde a primeira edição, não ficou alheia às pressões que reduziram de forma avassaladora o bioma. O relevo não é muito plano, devido à presença da Serra Dourada, que contorna a porção norte da cidade, mesmo assim, a ocupação desordenada do solo é um dos grandes problemas da região.

Segundo Rodrigo Santana, geólogo e ex-diretor do Departamento de Meio Ambiente da Prefeitura local, a maioria das áreas de proteção permanente (APPs) foram suprimidas, principalmente na região rural, para a abertura de pastagens e criação de assentamentos. Em toda a cidade, são 23 assentamentos, um dos maiores índices do estado.

Foi o desmatamento nas cabeceiras do Rio Vermelho, inclusive, que ajudou a potencializar os impactos da enchente de 2001, que destruiu parcialmente a cidade. “Mesmo depois de 2001 continuaram desmatando as cabeceiras do rio. Com certeza isso vai ter, em breve, outras grandes conseqüências”, diz Santana.

Vale lembrar que o solo da região é bastante frágil, de formação arenosa e propícia a erosões. Vários dos rios ou córregos que estão na área de influência da cidade, como o córrego Bacalhau, estão em processo avançado de assoreamento, devido à erosão natural intensificada pelo desmatamento e ocupação irregular.

Lázaro Ribeiro: "antes do FICA eu não tinha consciência ambiental nenhuma" - Crédito - Cristiane Prizibisczki
Lázaro Ribeiro: "antes do FICA eu não tinha consciência ambiental nenhuma" – Crédito – Cristiane Prizibisczki

Além disso, a cidade ainda sofre com a falta de tratamento de esgoto, que contamina os leitos d´água, e com a incorreta destinação dos resíduos sólidos. Em 2008, durante a décima edição do FICA, O Eco revelou o problema. Naquela época, o então prefeito da cidade, Abner de Castro Curado, respondia a ação do Ministério Público pela não existência de um aterro sanitário e a cidade recebeu multa milionária por não ter resolvido o problema de coleta e destinação de seu lixo.

Segundo Rodrigo Santana esta situação foi parcialmente resolvida e ainda de forma ineficiente. Os resíduos do lixão, que não recebiam nenhum tipo de tratamento, agora são enterrados, mas sem critérios técnicos e instalações básicas, como tubulações para drenagem de chorume, diz o geógrafo.

“O município até tem uma Secretaria Municipal de meio Ambiente, mas não tem política municipal voltada para o tema. Infelizmente, até agora não conseguimos ter um prefeito que se atentasse para a importância da preservação da região”, diz. Reflexo disso, de acordo com ele, é que nenhuma das áreas protegidas existentes na área foi criada por iniciativa do poder municipal. São elas: Parque Estadual da Serra Dourada, Reserva Biológica da Universidade Federal de Goiás, APA Serra Dourada e Área de Relevante Interesse Ecológico Águas de São João.

Conquistas do Festival

Parque Estadual da Serra Dourada, criado em 2003 - Crédito - Governo do Estado de Goiás
Parque Estadual da Serra Dourada, criado em 2003 – Crédito – Governo do Estado de Goiás

Apesar dos problemas, a cada ano o FICA consegue incorporar à sua história pequenas e grandes conquistas. Em 2002 foi a criação do projeto Fica Limpo, de coleta especial de resíduos durante os dias do evento. Em 2003, a implantação do Parque Estadual Serra Dourada, uma área protegida de 30 mil hectares. Em 2007 a incorporação de fóruns de discussão específicos sobre meio ambiente na programação do FICA e, em 2009, a criação de cursos sobre meio ambiente durante os dias do evento.

Neste ano, dois dos sete cursos trataram exclusivamente de problemas ambientais na região, como o de riscos geológicos e ocorrência de acidentes na Cidade de Goiás e no estado. Estes e outros tiveram a participação de técnicos ambientais da cidade, convidados especialmente com o objetivo de capacitar a comunidade local sobre tais problemas.

Além disso, é crescente a adesão de moradores nas atividades do festival. Lázaro Ribeiro, morador da Cidade de Goiás há 15 anos, é um deles. O rapaz, hoje com 25 anos, orgulha-se de ter comparecido a todas as edições do evento, primeiramente apenas como espectador e hoje como o primeiro cineasta da cidade a ser premiado no festival. Ele ganhou o prêmio de melhor produção goiana na Mostra ABD, que acontece junto com o FICA,  pelo filme “Ela”. “Antes [do Festival] eu não tinha consciência ambiental nenhuma. Só pude perceber a importância de preservar o meio ambiente através dos filmes exibidos no FICA, que aproxima o tema de nós”, diz.

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

Leia também

Notícias
26 de novembro de 2021

Informação obtida via LAI revela que MCTI recebeu dados do desmatamento em 1º de novembro

Ministro Marcos Pontes disse que dados não foram publicados antes da Conferência do Clima porque ele estava de férias. Agenda oficial registra férias entre 8 e 19 de novembro

Notícias
26 de novembro de 2021

Jornalismo digital brasileiro se une em campanha de financiamento

Ação reúne 26 organizações com objetivo de arrecadar doações para fortalecimento do jornalismo digital de qualidade

Reportagens
26 de novembro de 2021

MPF pede anulação da Licença de Instalação do Linhão Tucuruí na terra Waimiri Atroari

Ação aponta que União e a Transnorte agem ilegalmente no licenciamento da obra. Autossuficientes em energia elétrica, os Waimiri Atroari são contra o empreendimento e sentem “a floresta sangrar”

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta