Reportagens

Dia 2 – Começa a rotina das capturas e medições

O dia começa as 5h30. Na segunda armadilha encontramos um cachorro-do-mato que é medido e tem amostras de sangue e pele coletados.

Adriano Gambarini ·
23 de abril de 2013 · 8 anos atrás
Cachorro-do-mato, ou melhor, um ‘trisco de bicho’ correndo em disparada para liberdade. Fotos: Adriano Gambarini | Clique para ampliar
Cachorro-do-mato, ou melhor, um ‘trisco de bicho’ correndo em disparada para liberdade. Fotos: Adriano Gambarini | Clique para ampliar

O dia começa as 5:30h. Uma fina névoa ainda adormece os vales, mas o sol promete calor neste canto sudeste de Goiás. A equipe hoje conta com 11 pessoas, incluindo eu. Desde ontem cerca de 10 armadilhas, para raposas, cachorros-do-mato e lobo-guará foram abertas e iscadas com pedaços de frango e sardinha.

A intenção nestes primeiros dias é trabalhar com poucas armadilhas até mesmo para a equipe de veterinários definir os protocolos de coleta das amostras de sangue. A área de abrangência é grande. Desta forma, Frederico de Souza, o “Cigano”, segue de moto para facilitar as checagens, enquanto o resto da equipe, entre veterinários e biólogos, rumam de carro para outra área.

Logo na segunda armadilha colocada à sombra de um limoeiro, escutamos um“latido” agudo e o vulto acinzentado de um cachorro-do-mato. Fabiana Lopes e Caio Motta, veterinários da Fiocruz e do Zoológico de São Paulo, respectivamente, são rápidos na avaliação do peso para definir a quantidade de anestésico. Animal adormecido, começa o trabalho das equipes “Bio” e “Zoo” como auto definimos para facilitar as conversas.

A biometria, que consiste nas medições de comprimento do corpo, patas, cauda, orelhas e dentição é feita por Fernanda Cavalcanti e Mozart. Sabe-se que o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) pesa em media de 6 a 7 kg e consta nas listas de animais de extinção como ‘de menor preocupação’. Mas o fato é que, apesar de ser uma espécie relativamente comum, com larga distribuição nacional em praticamente todos os biomas (exceto floresta densa), é uma canídeo pouco estudado. Segundo Fred Gemesio, deveria ter ao menos o status de “deficiente de dados”.

Dia amanhece com fina névoa. A fazenda-sede do programa é uma das poucas com área substancial de mata nativa. | Clique para ampliar
Dia amanhece com fina névoa. A fazenda-sede do programa é uma das poucas com área substancial de mata nativa. | Clique para ampliar

No caso deste programa de pesquisa, a proposta é conhecer os aspectos ecológicos da espécie e de sobreposição de área com a raposa-do-campo. Existe competição entre as duas espécies, mas quanto? Ambas disputam a mesma fonte de alimento, mas quanto isto interfere sobre uma e outra? Qual é o grau de stress de uma raposinha, nitidamente menor que o cachorro, quando ocorre esta disputa por território? Existe uma limitação espacial definida entre as espécies? Como as ações humanas têm contribuído para diminuir a população de cachorros-do-mato, principalmente quando se referem a intolerância e atropelamento? Estas são algumas perguntas que Fred faz dentro do Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado.

Caio e Fabiana dão continuidade à coleta de sangue, amostras de pele e tecido para análises sobre a saúde do animal, num procedimento rápido, dividido com o trabalho dos biólogos. Nos próximos dias, pretendo destrinchar melhor este minucioso trabalho dos veterinários.

Fred Gemesio construiu às duras penas, na fazenda-sede do Programa, um pequeno laboratório para abrigar os trabalhos de processamento das amostras. Cigano chega de moto com uma feliz notícia: um cachorro-do-mato e uma raposinha capturadas na região conhecida por Serengeti. Aliás, tal é o fascínio de Fred e Fernanda pela África que a maioria das áreas de estudo espalhadas entre as fazendas foram definidas com nomes africanos. Findado todos os procedimentos veterinários e biológicos, o cachorro é recolocado na armadilha para que possa se recuperar totalmente da anestesia e ser solto com segurança. É hora de seguirmos em busca da simpática raposa-do-campo. Amanhã tem mais…

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas
Enquanto isto, o “Serengeti” goiano nos aguarda...
Enquanto isto, o “Serengeti” goiano nos aguarda…

 

  • Adriano Gambarini

    É geólogo de formação, com especialização em Espeleologia. É fotografo profissional desde 92 e autor de 14 livros fotográfico...

Leia também

Notícias
20 de outubro de 2021

Desmatamento na Amazônia já chega a quase 9 mil km² em 2021, mostra Imazon

Somente em setembro foram destruídos 1.224 km² de floresta, área equivalente a mais de 4 mil campos de futebol por dia. Números sãos os maiores em 10 anos

Salada Verde
20 de outubro de 2021

Em comemoração de seus 10 anos, Onçafari lança concurso de fotografia

Fotógrafos profissionais e amadores podem se inscrever até o dia 14 de novembro. Vencedores terão a oportunidade de fotografar a fauna e flora existentes na sede da Onçafari, no Pantanal

Notícias
20 de outubro de 2021

INPE não tem recursos garantidos para pagamento de água e luz até final do ano

Destinação de R$ 5 milhões pela AEB deu um respiro ao Instituto, mas órgão ainda aguarda verba de outras fontes para honrar despesas de funcionamento até dezembro

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta