Reportagens

Fio condutor: apanhado geral das conversas em Itaituba

Depois de uma rodada de entrevistas, a queixa mais frequente é sobre a intransigência do governo federal ao conduzir obras que afetam a todos

Eduardo Pegurier · Marcio Isensee e Sá ·
15 de julho de 2013 · 8 anos atrás
Vista geral do centro da cidade de Itaituba. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Na manhã desse domingo, 14/7, partimos de Itaituba para Jacareacanga. Estamos curiosos. A cidade é descrita como sendo dois terços indígena. A Câmara local tem 3 vereadores munduruku. Pelo que ouvimos, eles agora apoiam as hidrelétricas. Ao mesmo tempo, também estão lá as lideranças munduruku que, ao contrário, se opõem a elas e detiveram e intimidaram pesquisadores que estavam na região para iniciar os estudos de impacto ambiental.

Antes de partir, segue um apanhado do que ouvimos aqui na região de Itaituba.

Tivemos alguns longos encontros. Fomos recebidos pela secretaria de Mineração e Meio Ambiente da cidade (Sim, aqui os dois assuntos pertencem a mesma secretaria). Entrevistamos o coordenador local do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e pernoitamos na Vila do Pimental, uma comunidade de 800 habitantes que vai ser coberta pelo lago da usina de São Luiz de Tapajós (mesmo a usina sendo do tipo fio d´água). Falamos informalmente com as pessoas com quem cruzamos na cidade.

O resumo da ópera é o seguinte. Há um ressentimento contra o governo federal. Impressiona como posições que se imaginariam distantes são próximas. Jandira Carvalho, 43, secretária de Mineração e Meio Ambiente de Itaituba fala do governo federal da mesma forma que Thiago Alves, 24, coordenador local do MAB. Ambos descrevem o governo federal como uma força avassaladora e insensível, que decide sem perguntar às partes interessadas, que age de maneira imperial, que promete contrapartidas e indenizações e não cumpre. Os dois consideram frustrantes os exemplos das hidrelétricas de Tucuruí e Belo Monte. As cidades mais próximas às duas usinas, Tucuruí e Altamira, colheram mais problemas do que ganhos. Até hoje tem gente esperando indenização em Tucuruí, conta Jandira.

As obras das duas usinas iniciais (Jatobá e São Luiz do Tapajós) devem trazer novos 50 mil habitantes para Itaituba que, hoje, tem 100 mil. A turma que chegar deve ser em parte transitória. Enquanto estiverem na cidade, o número de empregos vai aumentar. Ao mesmo tempo, subirão os alugueis e o preço dos imóveis. Também devem subir a criminalidade e a prostituição. Foi assim em Altamira.

Itaituba não tem esgoto, que corre aberto pelo meio-fio das ruas da cidade. Os pessimistas veem um boom de 5 anos no emprego (tempo de duração das obras das usinas), sem ser seguido, na mesma proporção, pela melhora da infraestrutura local. Quando a construção acabar, acreditam, os empregos também minguarão e restará uma cidade inchada e com os mesmo problemas de antes, apenas agravados. Eles dizem que se tornarão exportadores de energia para o resto do Brasil, enquanto pagam com a perda de paisagens, peixes e biodiversidade do rio Tapajós e ficam com uma cidade virada de cabeça pra baixo.

Ribeirinhos da Vila Pimental

A vila de Pimental durante noite estrelada. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Na Vila do Pimental, a história é parecida. Há cerca de 60 km de Itaituba, chega-se lá de barco, quando o rio está cheio, ou por uma estrada de terra precária, na época de seca, quando as corredeiras logo abaixo tornam o Tapajós intransponível. Apesar do difícil acesso pelos padrões modernos, Pimental é centenária, assim como seus problemas. Por exemplo, ninguém tem título de proprietário da terra, apesar da maioria das famílias locais estar lá há décadas. A vila surgiu como porto de escoamento para a borracha extraída de seringueiras. Hoje, vive de pesca, agricultura de subsistência e captura de peixes ornamentais, esta última atividade a melhor fonte de renda do momento.

Seus moradores estão divididos em relação à construção da usina de São Luiz de Tapajós, que tornará Pimental uma vila submersa. Os mais vocais são contra. Eles acreditam que a barragem acabará com o peixe e duvidam da qualidade das indenizações. Luiz Matos de Lima, 55, e José Aldair Pereira, 35, o C.A.K., dois líderes de Pimental, argumentam que até se o dinheiro da indenização for bom, o negócio é ruim. Mesmo que recebam mais do que as suas casas valem, os terrenos em Itaituba (destino provável dos moradores de Pimental) são mais caros e ficarão mais ainda com a perspectiva das obras. Não acreditam que conseguirão prosperar, pois não têm as habilidades exigidas pelos empregos da cidade. “Flor que muda, murcha”, diz Luiz. Acham que perderão também valores intangíveis: suas raízes, o senso de comunidade. Entretanto, também contam que Pimental já teve mais de 1.000 habitantes e, hoje, tem cerca de 800. Os jovens adultos ou famílias com filhos migram para a cidade em busca de escola e serviços de saúde melhores.

Esse pessoal mais simples, “os pobres”, como se descrevem, é próximo de movimentos como o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), o Tapajós Vivo, liderado pelo padre Edilberto Sena, e a Comissão Pastoral da Terra. Conhecemos os dois primeiros, que tem abertamente uma posição ideológica “contra o grande capital”. Os moradores de Pimental que estão contra a usina de São Luiz do Tapajós são pragmáticos. Seu objetivo é ficar onde estão ou, ao menos, ganhar indenizações justas. Mas são gratos aos movimentos sociais ou populares, pois são os únicos que lhes alertaram sobre as usinas e como a sua construção pode mudar suas vidas.

Luiz e C.A.K reclamam que o governo nunca foi lá, apenas os emissários indiretos, contratados pelas empresas do consórcio para fazer estudos geológicos, ambientais ou para difundir informações sobre as usinas. Segundo contam, esses “pesquisadores” chegam lá e afirmam que os moradores locais serão indenizados, mas não dizem como, quanto ou quando. Falam que, mais pra frente, virá outro grupo para estabelecer as indenizações. “Nós não acreditamos”, diz Luiz.

 

 

 

  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

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