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Desmatador mato-grossense é citado na ‘lista do STF’ por financiar atos golpistas

Bloqueios de bolsonaristas em estradas tiveram financiamento de figuras conhecidas do agronegócio, segundo a lista do STF

Juan Ortiz ·
29 de novembro de 2022

O empresário bolsonarista Argino Bedin é um latifundiário da velha guarda no município de Sorriso, em Mato Grosso. Sócio de pelo menos nove empresas, quase todas ligadas ao setor agropecuário ou ao ramo imobiliário, ele acumula três multas no Ibama por queimar vegetação nativa na Amazônia Legal, impedir a regeneração da mata e descumprir os embargos do órgão ambiental. As sanções foram aplicadas em 1998 e 2008, na área onde hoje funciona o Aeroporto Regional de Sorriso Adolino Bedin – batizado em homenagem ao pai dele e com operação da empresa de aviação Azul. Se corrigidos pela inflação, os valores somados passam de R$ 200 mil.

Bedin também foi um dos personagens incluídos na lista do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como possível financiador dos atos golpistas após o resultado do segundo turno das eleições. Além dele, outros 42 nomes (entre empresas e empresários) são suspeitos de bancar as manifestações antidemocráticas – a maioria é de Mato Grosso.

Desde a noite do dia 30 de outubro, bolsonaristas travam a passagem em estradas de todo o país, com pedidos de intervenção militar. Os bloqueios já resultaram em algumas prisões, multas, incêndios criminosos, enfrentamentos, e ameaças de atentados terroristas, mas até agora a Polícia Rodoviária Federal (PRF) não conseguiu fazer cumprir a ordem a dispersar os manifestantes – principalmente no Mato Grosso, onde os atos se intensificaram nas últimas semanas.

A prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral não deixa dúvidas em quem Argino Bedin votou nas eleições: ele é um dos milhares de doadores de campanha do presidente derrotado, Jair Bolsonaro, a quem fez um PIX de R$ 1. Em entrevista ao site O Joio e O Trigo no início do ano, Bedin disse que defende Bolsonaro “até debaixo d’água”. Nessa mesma conversa, ele mostrou sua afeição ufanista pelos governos da ditadura militar: “Traziam uma boa segurança para toda a população brasileira. O governo militar só não é bom para quem não quer trabalhar”. 

O empresário ainda doou R$ 50 mil para o candidato a deputado federal Acacio Ambrosini (Republicanos-MT), que também não se elegeu.

Os pioneiros de Sorriso

A família Bedin é uma das mais tradicionais do município de Sorriso. O patriarca Adolino Bedin (1921-1990), gaúcho natural de Lagoa Vermelha, chegou ao Mato Grosso em 1977, depois de uma passagem por Santa Catarina, onde trabalhou no setor madeireiro e no agronegócio.

Chegou com a esposa, Idilia Lurdes Zandoná, e seus seis filhos: Leoclides, Argino, Lourdes, Ivone e Marlene. O filho mais novo, Nilson, morreu em um acidente aos 15 anos, antes da mudança.

A família começou com 722 hectares de terra para plantação de arroz. Naquela época, as variedades de soja do Sul ainda não resistiam aos solos ácidos da região. Por volta de 1982, com as novas variedades do grão desenvolvidas pela Embrapa, a família entrou no negócio. 

Foi assim que o filho, Argino, se tornou conhecido como o “Pai da Soja” em Sorriso. Hoje, aos 72 anos, ele planta cerca de oito mil hectares de soja – uma produção escoada para o estado do Pará por meio da rodovia BR-163, cujo asfaltamento foi concluído no governo Bolsonaro após insistentes pedidos de representantes do agronegócio.

A reportagem questionou a PRF, o STF e o MPF sobre as ações tomadas para coibir os golpistas nas rodovias e o andamento das investigações. Nenhum dos órgãos respondeu às perguntas até a publicação do texto.

  • Juan Ortiz

    Jornalista do Estúdio Fronteira, formado pela UFRGS.

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