Reportagens

Sentença nada exemplar

Sai a pena para os três jovens de classe média que trucidaram uma cadela vira-lata prenhe em Pelotas (RS) por pura diversão: prestação de serviços à comunidade.

Liège Copstein ·
1 de julho de 2005 · 21 anos atrás

Os três jovens de Pelotas (RS) que despedaçaram uma cadela prenha por pura crueldade foram condenados, nesta quinta-feira, 30 de junho, à pena alternativa de prestar serviços comunitários. A sentença desagradou entidades defensoras de animais, que pediam cadeia para os matadores.

O incidente ocorreu na madrugada do dia 9 de março. Três jovens de classe média resolveram espantar o tédio amarrando ao pára-choques de um Ford Ka azul a cadela vira-latas, arrastando-a em alta velocidade por seis quarteirões. Ao final da corrida pedaços do animal e dos filhotes estavam espalhados pelas ruas – testemunhas, indignadas, chamaram a polícia. Os rapazes foram identificados e presos.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



A cadela chamava-se Preta. Era de rua, mas cuidada e alimentada pela vizinhança, que inclusive já se organizava para criar os filhotes que iriam nascer e providenciar a esterilização dela após o desmame. A sorte de Preta parecia melhor do que a da maioria dos cães abandonados, até seu trágico fim.

A brutalidade do crime chocou a cidade e teve repercussão nacional. No dia 16 de abril, entidades de proteção aos animais realizaram em Pelotas uma passeata que reuniu mais de 500 pessoas, com faixas pedindo justiça e camisetas estampando a foto de Preta, feitas por Michele Silva, amiga da cadelinha e uma das 15 testemunhas no inquérito. Um site foi criado na internet para contar a história e pedir punição para os agressores.

Finalmente, na quinta-feira, 30 de junho, uma audiência presidida pelo promotor público Paulo Charqueiro no fórum local ofereceu aos indiciados, Fernando Carvalho, 22 anos, Marcelo Schuch, 21, e Alberto da Cunha Neto, 21, a saída indolor que foi negada a Preta: eles assumiram a responsabilidade criminal antes do desdobramento do processo. Os advogados dos acusados negociaram uma pena alternativa. Os três vão cumprir um ano de trabalho comunitário em local ainda não definido e pagarão multa de R$ 5 mil cada, se ser doada ao canil municipal.

A sentença foi recebida como uma derrota pelos cerca de 600 representantes de associações pró-animais que esperavam em frente ao prédio – o acesso do público ao local foi barrado por policiais da Brigada Militar. As penas aos crimes ambientais desse tipo já são consideradas bastante amenas – no máximo dois anos de reclusão – pois são qualificados como casos de “pequeno potencial ofensivo”.

Como se não bastasse, circula no site Orkut uma página atribuída a um dos acusados, Cunha Neto, onde ele afirma que repetiria o seu feito. Segundo seu advogado, tal página não é de autoria de Cunha, porém o rapaz é reincidente: já respondeu a inquérito por maus-tratos a animais e porte ilegal de arma em 2003, quando matou a tiros uma cadela boxer na vizinha Praia do Laranjal.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
24 de setembro de 2026

Da revolução dos carros elétricos à revolução no campo

Assim como a China aproveitou a oportunidade para liderar o mercado de veículos sem combustão, o Brasil tem tudo para ser a nova potência da agricultura regenerativa →

Salada Verde
24 de setembro de 2026

Com vídeo de DiCaprio, manifestação na Climate Week pede saída da Belo Sun do Xingu

Liderança indígena Juma Xipaia participou de ato em Nova York contra o projeto de mineração de ouro na Volta Grande do Xingu, no Pará; Veja vídeo →

Salada Verde
24 de setembro de 2026

Rio de Janeiro: Após 13 anos, Inea terá novo concurso público com 150 vagas

Autorização foi publicada no Diário Oficial; governo agora trabalha na definição da banca organizadora. Órgão ambiental não faz concurso desde 2013 →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.