Agroflorestas vêm se consolidando como alternativa para enfrentar os impactos da crise climática. Ao combinar árvores, cultivos agrícolas e regeneração do solo, os chamados SAFs ajudam a conservar água, aumentar a biodiversidade e tornar a produção rural mais resiliente.
Quando Nina Celli e Guilherme Stutz chegaram, em 2011, à Fazenda Monte Cristo, em Trajano de Moraes, na Região Serrana do Rio de Janeiro, a área era dominada por pastos e o sonho de viver da agrofloresta parecia distante. Quinze anos depois, a paisagem está tomada por árvores nativas, frutíferas e cafezais.
“A gente começou com hortaliças, numa ‘pegada’ de horta-floresta, depois entrou com o café”, lembra Celli.
Um sistema agroflorestal (SAF) busca replicar os processos de uma floresta natural, conciliando árvores nativas com a produção agrícola, incluindo o manejo de capins, arbustos e árvores, além da circulação de nutrientes e da interação entre várias espécies.
As agroflorestas vêm ganhando espaço no Brasil ao unir produção de alimentos, regeneração ambiental e maior disponibilidade de água, compondo um conjunto de benefícios que faz desses sistemas uma aposta promissora diante dos impactos crescentes da crise climática.
Seguindo essa lógica, os cultivos implantados pelo casal regeneraram o solo compactado e exaurido pela pastagem e melhoraram a umidade e a temperatura da fazenda. Nascentes intermitentes também se tornaram perenes e novas fontes brotaram.
Para Ernst Gotsch, agricultor suíço que veio para o Brasil na década de 1980 e responsável por disseminar o conceito de agrofloresta no país, o segredo é respeitar os mecanismos naturais. Por isso, ele explica que criar ecossistemas saudáveis que favoreçam o ciclo hidrológico é o que permite “plantar água”.
“Água não é preservação, é fluxo; é dinâmica e parte do sistema. Ou seja, a circulação de água doce é resultado dessa atividade da vida do planeta”, avalia. “Essa complexidade não está num cultivo de soja, de milho ou de eucalipto. Ela vem de um conjunto de diferentes plantas”.


Água e agroflorestas
Engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), Joel Queiroga explica que a agrofloresta acumula e distribui mais água do que os modelos em pleno sol. “Nos SAFs, a água fica disponível para as plantas em maior quantidade e por mais tempo”, descreve.
Além disso, sua pesquisa aponta que a temperatura média dentro desses sistemas é até 3,4 °C menor do que fora, enquanto a umidade é 2,3% maior do que fora deles. Ele conta que “esses dois parâmetros contribuem e diferenciam o uso eficiente da água por culturas agrícolas”. Culturas sob mais água e em melhor clima tendem a apresentar maior eficiência no uso de recursos.
É o que Stutz tem observado em uma área de experimento na fazenda Monte Cristo, como parte do seu mestrado em adubação, vinculado à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
“Um café que recebeu toda a dose de adubo não cresceu mais do que o que recebeu só metade da dose”, conta. Para ele, isso mostra que as plantas precisam de menos adubo, de insumos e de manejo em ambientes equilibrados.
Isso acontece porque a presença de árvores no sistema impede a irradiação solar direta, criando sombra e reduzindo a temperatura do ambiente. “Experimente ficar no sol ou debaixo de uma árvore. Você sente a diferença que é”, lembra Patrícia Vaz, engenheira agrônoma, mestre em Ciências Florestais e agricultora em São Lourenço (MG).
Além disso, galhos, folhas e troncos deixados no solo ajudam a alimentar formas variadas de vida, reduzem o calor, conservam a umidade, diminuem a temperatura do solo e aproveitam melhor a água da chuva e de outras fontes.
Queiroga explica que, com o passar do tempo e um bom manejo do sistema, a própria estrutura física do solo é alterada, tornando-se mais poroso e com maior capacidade de infiltração. Assim, Joel também constatou, na pesquisa, que a umidade do solo aumenta da superfície para as camadas mais profundas ao longo do tempo.
Enquanto isso, Vaz explica que o objetivo é copiar o momento do ciclo da floresta que atrai mais água, quando a área coberta por folhas é maior. A partir do manejo e da lógica dos “estratos e andares” da floresta, é possível organizar um sistema que ocupe todo o espaço com diferentes espécies.
“Quanto maior a área coberta por folhas na agrofloresta, mais água é devolvida à natureza”, reforça Vaz. Além disso, cerca de 90% da água retirada do solo pelas plantas retorna à atmosfera, aumentando a umidade do ar. “Aquela história que a vovó contava, de que a floresta faz chover, é verdade”, brinca.


Clima, SAFS e a agricultura convencional
Enquanto os SAFs aproveitam os recursos de forma mais eficiente e ganham resistência às variações de temperatura, a agricultura convencional precisa lidar com um futuro climático marcado por mais fortes e frequentes tempestades, ondas de calor e secas.
Segundo um relatório da FAO (sigla em inglês da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), eventos extremos tornaram-se muito mais frequentes nas últimas décadas. Secas e tempestades cresceram de forma expressiva desde os anos 1970, com forte aumento dos desastres relacionados à água, como enchentes e enxurradas.
As enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, as secas extremas no Norte, no ano anterior, e no centro-sul, em 2022, onde as perdas superaram R$ 70 bilhões, são exemplos de fenômenos extremos registrados no Brasil nos últimos anos.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura média acima de 1,5 °C, limite estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015. E as previsões indicam que as temperaturas e os fenômenos extremos seguirão aumentando.
Enquanto isso, a agricultura, muito dependente das condições climáticas e ambientais, é um dos setores mais afetados pela crise climática. O setor já respondeu por 26% de todas as perdas econômicas decorrentes de desastres, entre 2008 e 2018.
Fenômenos climáticos também foram registrados na fazenda Monte Cristo. Em 2022, em uma hora, choveu cerca de 150 milímetros, mais do que a média esperada para o mês inteiro de setembro. “A enxurrada modificou o curso do rio e formou até um poço”, relatam Celli e Stutz.
Apesar dos impactos climáticos exigirem cautela no uso dos recursos naturais, hoje, no Brasil, cerca de metade da água doce retirada dos mananciais serve à agricultura irrigada, segundo dados da ANA (Agência Nacional de Águas). “Essa taxa deve aumentar para permitir o cultivo em áreas hoje pouco favoráveis”, aponta Marysol Schuler, pesquisadora da Embrapa Solos no Rio de Janeiro.
No entanto, para Vaz, o excesso de irrigação pode “viciar as plantas”, torná-las dependentes e mais sensíveis à falta de água, com raízes cada vez mais superficiais. “A gente está deixando de descobrir formas de trazer água naturalmente para a produção”, diz. “E o uso abusivo dessa água vai tornar cada vez mais difícil irrigar”, alerta.
É também o que atesta Gotsch. Para ele, não existe escassez de água, mas sim uma lógica inversa que reduz a vida dos sistemas e do planeta ao diminuir a circulação da água doce. “É sempre o ser humano que causa esses distúrbios”, aponta.
“Se trouxermos esse equilíbrio da floresta para os sistemas de produção, a gente sentiria muito menos a mudança climática do que em monoculturas”, acrescenta Vaz, que acredita que a única forma de amenizar as previsões climáticas é mudando a forma de produção.


Desafios e reforços para os SAFs
Diante do cenário climático, as agroflorestas são uma alternativa para produzir alimentos com maior equilíbrio ambiental e resiliência. Para Joel, os SAFs “são os sistemas de produção que mais se assemelham às florestas” e, por isso, têm potencial para contribuir para a manutenção do regime hidrológico.
Além disso, são viáveis de serem implantados, especialmente para agricultores familiares, que tradicionalmente trabalham em áreas menores, com diversidade de culturas e práticas ecológicas.
O Censo Agropecuário de 2017 do IBGE mostra que esses sistemas cresceram quase 20% no Nordeste desde 2006, região com a maior concentração nacional desse tipo de produção. No país, os SAFs ocupam mais de 13,9 milhões de ha, uma área similar à do Amapá.
Parte desse movimento, Celli e Stutz mostram que é possível manter-se com um SAF. O casal começou comercializando hortaliças em feiras, diversificou a produção com a ajuda de consultorias e cursos e investiu no beneficiamento dos produtos. “O sistema é capaz de manter tudo”, contam.
Mas nem todos vencem esses e outros obstáculos, como obter mão de obra especializada, saber manejar os sistemas e acessar mercados que valorizem produtos diferenciados. “As principais dificuldades são de ordem técnica e produtiva, além dos custos de implantação e de manejo”, relata Queiroga, a partir da pesquisa com agricultores.

Diante dessa realidade, as políticas públicas são fundamentais. Iniciativas como os programas de Aquisição de Alimentos (PAA) e Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) podem fortalecer o escoamento da produção, enquanto a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) dá suporte técnico.
Também há políticas e linhas de crédito de bancos federais e regionais, como o Pronaf Agroflorestal e o Programa Nacional de Florestas Produtivas, esse último focado na agricultura familiar e na recuperação de áreas degradadas, sobretudo na Região Norte.
Ao mesmo tempo, Queiroga avalia que os SAFs deveriam ser remunerados pelos serviços ambientais prestados. “São sistemas que produzem, restauram, mantêm um ar de qualidade, uma flora e uma fauna nativas, ou seja, a biodiversidade”, descreve.
Com tantos benefícios, as agroflorestas se tornam parte indispensável das soluções para manter a produção de alimentos num mundo em crise climática e para renovar as relações entre pessoas e natureza, restaurar florestas e favorecer o ciclo da água.
“É preciso virar a chave para uma agricultura sustentável e uma sociedade mais igualitária, para que as futuras gerações sigam vivendo no planeta”, enfatiza Queiroga. “A melhor coisa que a gente pode fazer na vida é uma agrofloresta bem feita. A segunda melhor coisa é uma agrofloresta mal feita”, arremata Vaz.
Esta reportagem foi produzida através da Bolsa Vandré Fonseca de Jornalismo Ambiental, concedida pelo ((o))eco com apoio da Fundação Amazônia Sustentável e Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
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