Reportagens

Entre animais e motosserras: os desafios do resgate de fauna em obras licenciadas

Rotina em campo revela as dificuldades enfrentadas por equipes que atuam no resgate de animais silvestres em obras licenciadas de linha de transmissão

Aline Pereira Costa ·
20 de maio de 2026

O dia começa com o barulho das motosserras. De repente, o som é interrompido por um grito: “cobra!”. É nesse momento que, na maioria das vezes, entram em ação biólogos e veterinários que atuam no resgate de fauna em obras licenciadas.

O relato acima é uma das situações que fazem parte do cotidiano de profissionais que atuam neste acompanhamento. Exigido no licenciamento ambiental de empreendimentos potencialmente impactantes, o resgate de fauna busca reduzir danos aos animais silvestres presentes nessas áreas, além de evitar acidentes envolvendo trabalhadores e espécies da fauna local.

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Em obras de linhas de transmissão, por exemplo, as equipes de resgate de fauna acompanham diariamente os trabalhos de supressão vegetal realizados pelas equipes responsáveis pela abertura da faixa de servidão – corredor onde serão instaladas as estruturas e cabos da linha. Durante esse processo, quando um animal é encontrado, o avanço da obra pode ser interrompido temporariamente para que biólogos e veterinários realizem o manejo adequado desses animais. Após avaliação, os animais aptos a retornarem para natureza são remanejados para locais seguros fora dessa faixa.

Resgate de uma serpente da espécie Oxybelis aeneus, popularmente conhecida por cobra cipó bicuda. Foto: Aline P.

Apesar de todo o planejamento, o resgate de fauna acaba acontecendo de forma dinâmica, e muitas vezes de forma imprevisível, sendo comum o acompanhamento de supressão vegetal em áreas extensas e muitas vezes de difícil acesso. A área de atuação deste profissional, que normalmente vem da biologia ou da medicina veterinária, é restrita, o que fez que grande parte dos nossos entrevistados não quisessem se identificar. Segundo uma bióloga que atua nesse tipo de empreendimento, o trabalho é desgastante por acontecer sob sol ou chuva, em terrenos irregulares e, muitas vezes, sem estrutura básica de apoio, como banheiros. 

Além disso, os constantes deslocamentos durante o acompanhamento da supressão vegetal dificultam o transporte de equipamentos e materiais necessários para o manejo dos animais, fazendo com que as equipes precisem selecionar apenas o essencial para levar ao campo. “Acompanhar a equipe de supressão é algo muito dinâmico. Você começa em um ponto e, de repente, já andou quilômetros à frente”, relata a bióloga.

Área de trabalho de supressão vegetal. Foto: Aline P.

Entre os animais mais encontrados, estão aqueles de menor mobilidade, como as serpentes, lagartos, anfíbios e pequenos mamíferos. Geralmente, são os trabalhadores da equipe de supressão que avistam esses animais. E para muitos desses trabalhadores, o contato com a fauna silvestre acaba sendo uma experiência incomum. Rafael Alves, ajudante de obra em linhas de transmissão , relata que nunca havia presenciado um resgate de fauna, antes de trabalhar neste tipo de empreendimento. “Foi uma vivência única”, afirma.

Segundo ele, o trabalho dos biólogos e veterinários ajuda tanto na preservação dos animais, quanto na segurança desses próprios trabalhadores. “Com o tempo, os animais podem entrar em extinção, então o trabalho ajuda a diminuir a taxa de mortalidade, além de aumentar a segurança no trabalho.” relata.

Para os profissionais que atuam nesse trabalho, infelizmente, nem todos os animais conseguem ser devolvidos à natureza, muitas vezes pela forma que são encontrados ou pelas limitações no processo de resgate. Segundo um médico veterinário que atua nesse tipo de empreendimento, e que também não quis se identificar, muitos dos animais resgatados chegam feridos, principalmente em áreas onde foram utilizadas máquinas pesadas. E diante disso, nem todos os animais que são encontrados conseguem ser devolvidos à natureza, seja pelos ferimentos que os impedem de sobreviver em vida livre, ou porque acabam indo à óbito.  

Resgate do lagarto papa-vento pela bióloga entrevistada, em uma das obras que ela trabalhou. Foto: Aline P.

“Alguns animais apresentam fraturas, esmagamentos, estado crítico e até chegam à óbito”, explica. De acordo com ele, o primeiro atendimento é realizado em campo, mas nos casos mais graves dependem de encaminhamento para clínicas parceiras ou centros de reabilitação. 

Segundo o veterinário, algumas das limitações existentes neste trabalho é que os animais são submetidos a estresse elevado. Além disso, as equipes enfrentam limitações que dificultam o tratamento e a reabilitação da forma ideal. “Muitas das vezes as limitações é oferecer um tratamento e condicionamento adequado, espaço e reabilitação como gostaríamos”, relata.

Apesar de representar uma importante medida mitigadora, prevista na lei ambiental, o resgate de fauna não consegue evitar todos os impactos causados pelas obras.

Segundo esses profissionais, a forma como é realizada a supressão vegetal interfere na eficiência do resgate. Em empreendimentos que utilizam motosserra, por exemplo, as chances de encontrar animais vivos e realizar o resgate são maiores. Ainda assim, nem todos os animais escapam sem ferimentos, e alguns acabam não conseguindo retornar à natureza. Porém, em áreas onde há utilização de maquinário pesado, como retroescavadeiras e pá carregadeira, as chances de sobrevivência são muito menores.

Animais como aves e mamíferos de médio e grande porte geralmente conseguem escapar com a aproximação das motosserras e das equipes de trabalhos, o que nem sempre acontece com animais de pequeno porte e baixa mobilidade. É o caso dos anfíbios, serpentes e lagartos, espécies que têm mais dificuldade de escapar da supressão vegetal. “Com máquina, infelizmente é raro conseguir salvar algum animal”, relata a bióloga entrevistada.

Filhotes de periquito-do-encontro-amarelo resgatados pela equipe de resgate. Foto: Aline P.

É fato que o trabalho com resgate é algo que marca esses profissionais, pois cada dia é uma vivência única. Um exemplo é uma situação relatada pela bióloga entrevistada, que conta que havia um cupinzeiro em uma árvore e que estava sendo utilizado como abrigo por periquitos da espécie Brotogeris chiriri, popularmente conhecidos por periquito-de-encontro-amarelo [Foto acima]. Segundo a bióloga, o ninho estava no alto da árvore, o que impossibilitou uma vistoria mais detalhada. Nesses casos, quando há ninhos e abrigos em locais de difícil acesso, a alternativa é realizar observações à distância para tentar identificar a presença dos pais ou alguma movimentação das aves no local. Apesar dos cuidados adotados pelas equipes, alguns animais só são encontrados após o corte da árvore. O que aconteceu no caso relatado pela bióloga.

Quando um dos operadores de motosserra cortou a árvore, o cupinzeiro se rompeu e alguns filhotes que estavam dentro conseguiram voar, porém dois indivíduos não conseguiram e acabaram se ferindo. Um deles sofreu apenas um machucado no pé e conseguiu se recuperar – após os cuidados realizados pela equipe, ele foi solto novamente na natureza. Já o outro periquito não teve a mesma sorte, uma vez que sofreu uma fratura na asa e não pôde mais viver livre, sendo encaminhado posteriormente para um criadouro autorizado. “Foi uma situação que marcou muito a equipe, principalmente pela forma como aconteceu e porque cuidamos dos dois por um longo período em nosso alojamento”, relata a profissional.

Situações como essa ajudam a mostrar os desafios e limites enfrentados pelas equipes que atuam no resgate de fauna em obras licenciadas. E em meio ao som das motosserras e ao avanço das obras, equipes de resgate seguem tentando reduzir parte dos impactos causados à fauna silvestre.

  • Aline Pereira Costa

    Bióloga com especialização em Biologia Marinha, experiência em fauna e atuação em comunicação ambiental. Produz conteúdos claros e engajadores, unindo prática de campo e narrativa para ampliar o debate sobre conservação e biodiversidade.

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Comentários 1

  1. Matheus Raddi diz:

    Ótima reportagem. Queria destacar também o Afugentamento de Fauna, que tbm é utilizado como medida mitigadoras e muitas vezes pode salvar esses animais antes da entrada do maquinário pesado.
    Abraço!